A erupção do Merapi

O vilarejo que conheci na encosta vulcão Merapi, em Java Central, não existe mais. Em fins de outubro de 2010, nuvens de vapor e toneladas de rochas e cinzas destruíram o que havia na montanha e arrasaram casas e plantações de salak (snakefruit) em um raio de dezenas de quilômetros ao seu redor.

Mais de 300 pessoas morreram. Entre elas, o “guardião” do Merapi, Mbah Maridjan, 83 anos, o homem que, por herança paterna e delegação do sultão de Yogyakarta, acreditava ser capaz de conter a fúria do vulcão e salvar as vidas dos habitantes da região. Os demais pereceram por sua fé nos poderes místicos de Maridjan ou por excesso de confiança no líder político e espiritual da primeira capital da Indonésia independente.

“Não há perigo”, garantia meu guia, Aria, dois dias antes da erupção, enquanto subíamos a estrada que leva ao cume da montanha. Naquela altura, as autoridades indonésias já haviam emitido o aviso de que a tragédia não tardaria, e a população local pudera ver os animais da floresta em fuga, antecipando-se ao desastre. Segundo Aria, o sultão Hamengkubuwono X protegeria os súditos da morte, crença que levou boa parte dos moradores a permanecer em suas casas apesar do alerta do governo.

O Merapi é o vulcão mais ativo de Java, tendo entrado em erupção regularmente a cada dois ou três anos ao longo das últimas décadas. Não é o único. Em novembro, foi a vez do Bromo, em Java Oriental, uma pequena montanha fumegante rodeada de meia dúzia de outros vulcões no centro de um deserto de areia, que também tive a chance de visitar antes da erupção. Também neste caso, a população das vilas próximas, que poderiam ser atingidas pelas nuvens de calor do vulcão, recusou-se a sair do local.

Monte Bromo (E), em Java Oriental

Não posso culpar os moradores das áreas de risco, já que também eu, inadvertidamente, ignorei o aviso de perigo ao visitar o vilarejo na encosta do Monte Merapi. Para viver na Indonésia, talvez seja preciso acostumar-se a viver sob a ameaça permanente de desastres naturais, como a erupção do Merapi ou as ondas gigantes que devastaram o norte de Sumatra em 2004. Perdi a conta de quantas vezes fomos acordados no meio da noite por familiares ou amigos querendo saber se sobrevivêramos a um terremoto de que eu ainda nem tivera notícia, se o vulcão da vez é o mesmo que vejo todas as manhãs da janela do banheiro ou se o meteoro que outro dia caiu na zona sul da capital atingiu o prédio onde moramos.

Depois de um ano e três meses em Jacarta, começo a agir com o fatalismo típico dos javaneses. Mas não será esta a melhor forma de viver nesta ilha tão vulnerável, em uma das zonas tectônicas mais instáveis do mundo e com duas dezenas de vulcões em atividade?

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2 respostas para A erupção do Merapi

  1. Benito Mussolini disse:

    Excelente!

  2. Clarinha disse:

    É isso mesmo, Fabiano. A gente se acostuma.
    Tenho fotos de como ficou o vilarejo perto do Merapi.
    Abraço

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