O Mali e a música

Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar da música do Mali. Estava no curso de remoção, e um colega comentou o quanto gostava da música daqui. Musica maliense?!! Nunca havia escutado, e em meio a minha pesquisa sobre o país, com a qual esperava preparar-me para o que estava por vir, este tópico passara em branco. Logo procurei informações sobre o assunto, e surpreendi-me ao descobrir que o país possui vários artistas de destaque, alguns detentores de importantes prêmios internacionais, como o Grammy e o Victoire de la Musique.

Ao chegar à Bamaco, percebi que deveria ter-me surpreendido com o fato de não haver mais artistas malienses nas paradas de sucesso internacionais. Pois aqui, a música é verdadeira paixão nacional, e está intrinsecamente ligada ao cotidiano. Com efeito, é impossível visitar a capital do Mali sem perceber a musicalidade do dia-a-dia da população local. Inúmeras etnias vivem em Bamaco, e a importância dada à música é aspecto comum a todas. Nas ruas, de longe pode-se ouvir a cadência dos batedores de bazin (tecido de algodão, parecido com o damasco) que, ao engomar o tecido com amido ou parafina, determinam o ritmo do andar das mulheres, sempre coloridas, com sua postura impecável carregando na cabeça suas bacias lotadas de mercadorias. Acompanham a balada natural o som das dezenas de crianças correndo pelas ruas e o balir dos rebanhos de cabras, que estão por todo lado.

O ápice dessa sinfonia urbana dá-se nos mercados, nos quais todos os sons anteriores somam-se ao frenesi dos vendedores anunciando seus produtos, cada um buscando chamar mais atenção do que o concorrente. Neles, os artesãos que se dedicam à produção de instrumentos tradicionais estão sempre presentes, exibindo orgulhosos os seus dunduns, djembés, dunumbas, balafons, ngoni e koras, todos produzidos com as mesmas técnicas utilizadas há gerações.

Na vida noturna, a música também está em destaque. Nos inúmeros clubes da cidade sempre há apresenações ao vivo, com artistas debutantes buscando destacar-se no mercado musical. Enquanto isso, a juventude bamaquense esbalda-se na pista de dança, com jovens regados a muita fanta e coca-cola.

Nos eventos oficiais, a “Ensemble Musical du Mali” está sempre presente, dando o tom de pronunciamentos presidenciais, reuniões de ministros e conferências internacionais. Mas o grupo musical oficial não é detentor exclusivo do privilégio de apresentar-se em tais eventos. Sua performance sempre concorre com a atuação dos griots (uma espécie de arauto, detentor tradicional da história oral do Mali, e que está sempre a entoar loas às autoridades e às famílias nobres do país), que também querem exibir-se para as autoridades e dignatários, o que resulta em uma mistura de ritmos tão intensos que deixa aturdido o estrangeiro principiante.

Nas rádios, a música tradicional domina a programação. Invariavelmente acompanhada por instrumentos típicos, os ritmos malienses acabam tornando-se muito peculiares e facilmente reconhecíveis. Afinal de contas, o som de um kora, uma espécie de harpa com até 25 cordas, é inimitável. E aquele que consegue dominar a arte de tocá-lo com destreza é visto com imenso respeito. Os ensinamentos geralmente são passados de pai para filho, e leva-se anos para adquirir maestria no instrumento.

Casamentos, batizados, circuncisões, enfim, todos os eventos e os ritos de passagem da vida maliense são repletos de música, e como decorrência natural desta, de dança. Assim que se ouve a primeira toada, os malienses já começam a se organizar, abrindo espaço para uma pista, na qual todos vão, espontaneamente e sem nenhuma malícia, requebrar ao som da percussão. A energia nesses momentos é tamanha que é capaz de tirar até mesmo a mais soturna anciã de sua confortável cadeira de fio. Tão contagiante que até meu marido, meu companheiro de aventuras, recém-recuperado de uma fratura nos pés e sem possuir o molejo de quem nasceu e cresceu embalado pelos ritmos locais, acabou por cair na dança, tal qual um gringo em uma roda de samba!

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Sobre Marianne Martins Guimarães

Diplomata brasileira servindo em Bamaco, Mali.
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10 respostas para O Mali e a música

  1. Cammilla Horta disse:

    Mari, tenho lido o blog e adorei esse post em especial. Alguma dica de artista para não iniciados em música maliense? =)

    • Oi Cammilla,

      Acho que vários artistas malienses são excelentes: Toumani Diabaté, Habib Koite e Ali Farka Touré estão entre os mais famosos. Mas os meus prediletos são Salif Keitá e Rokia Traoré, que muitas vezes misturam os ritmos tradicionais com instrumentos mais modernos. Vale a pena conferir!!

  2. Maravilhosa estréia no blig, Marianne! As pessoas que conheço aqui em Cartum e que tem experiência em outros países africanos dizem que a música malinense é realmente muito especial.

    Abração, Krishna

  3. Muito bem vinda, Mari!
    Estou feliz com mais presenca feminina em nosso blog.
    Concordo plenamente que deveria haver maior reconhecimento para musicos do Mali e de outros paises da Africa Ocidental. Eles sao otimos… e que musica gostosa!
    Bela estreia!
    Um abraco,
    Marcia

  4. Tenho muita vontade de conhecer o Mali exatamente por esse vínculo do povo com a música. Mas o melhor pra mim ainda é “Amadou & Mariam”!

    • É verdade Paulo, havia me esquecido de mencionar essa famosa dupla. Acho que eles são os artistas malienses com maior exposição internacional, especialmente depois do álbum “Dimanche a Bamako”, que é muito legal.

  5. Sempre lembro do lendário Timbuctu (nome musical, aliás!) quando penso no Mali. Já esteve por lá, Marianne? Abraços!

  6. Genial, Marianne! Adorei saber sobre a música de Mali e a indicação dos artistas. Fico feliz por mais um toque feminino ao blog! Parabéns!

  7. Eduardo Prearo disse:

    Ainda não escutei nenhuma música de Mali. Será que a Cultura vai divulgar? Tem no YouTube? Poxa, deve ser muito legal, posso imaginar. É uma país que jamais visitarei, com toda certeza do mundo, mas pelo menos é possível conhecer sua música. Vou pesquisar.

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