O templo

Silenciosos e compenetrados, os fiéis atravessam o pátio do templo. Cruzam as sombras projetadas pelas torres do edifício, andam sob o sol de quarenta graus e, antes de entrar, tiram os sapatos. Caminham pela nave central, lavam-se, purificam-se e aos poucos se ajoelham em seus lugares prediletos. A prece inicia.

Um deles, um homem na casa dos trinta anos, levanta-se, arrasta os pés em direção ao altar e, em voz alta, os dois braços erguidos em cruz, reza. Uma mulher, envolta em longos panos cor de laranja, olha para o chão e reza. E rezando a terceira mergulha os dedos na pia batismal antes de sentar-se.

Às quatro da tarde de uma sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos, a comunidade católica de Cartum ora em seu templo, a Catedral de Saint Mathew. Solitária em uma avenida povoada por mesquitas das mais variadas idades, tamanhos e cores, a igreja traz na pele as marcas do Islã. Seja no material escuro usado na construção do edifício, seja nos santos morenos representados em pinturas e vitrais, seja nos caracteres árabes a circundar a imagem de Bento XVI ou nas tintas de tons vermelhos, verdes e dourados que tingem seu interior, Saint Mathew irradia uma aura de mesquita.

Veja a mulher de tranças e véu sentada ao lado do marido e acompanhada pela filha. Ou o jovem de túnica e turbante branco agachado junto à porta, pedindo esmolas. Ou ainda o retrato do papa à nossa direita, com o Pontífice tendo ao fundo a imagem do continente africano. Se, no alvorecer, o muezim escalasse a mais alta torre da catedral, tocasse o sino e ao mesmo tempo chamasse todos para a primeira prece prescrita pelo Corão, creio que Cartum levaria alguns minutos antes de se surpreender.

Em “Uma história dos povos árabes”, Albert Hourani conta como os muçulmanos, por volta do ano 690, erigiram sua primeira mesquita no Domo da Rocha, templo judeu em Jerusalém, lugar em que segundo a tradição rabínica Deus obrigara Abraão a sacrificar Isaac. Com isso, pretendiam colocar o Islã na mesma linhagem do patriarca de Israel.

Algo me diz que a chave para decifrar o mistério de Saint Mathew e de suas torres agulhadas como minaretes reside nesse tempo e lugar longínquo.

Anúncios

Sobre krishnamonteiro

Diplomata brasileiro servindo no Sudão.
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para O templo

  1. Interessantíssimo, Krishna! Também no Paquistão há igrejas católicas e templos protestantes bem preservados e sempre frequentados, inclusive em lugares como Peshawar. Mais gente precisava saber dessas coisas…

    Diga lá, o cristianismo em Cartum é herança inglesa ou coisa mais antiga, greco-bizantina? Ou há um pouco de tudo?

    • Thomaz, parte do cristianismo em Cartum é herança da colonização inglesa. Missionários desse país vieram em massa para o Sudão no século XIX. Há também uma vertente cristã copta, com fortes raízes no Egito, e outra vinda da Etiópia.

      Aquele abraço!

      Krishna

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s