Rumo a Abbottabad

Nosso pequenino e desbotado Suzuki engasga vento e cospe fumaça para subir a estrada que sai da capital. Sobe literalmente, pois há colinas a superar. O norte nos espera.

Começamos em Rawalpindi, metrópole-fronteira dos punjabis; buzinas e bigodes em profusão, peles morenas, gente ágil, roupas justas. Hora e meia depois, o gentílico muda, pois chega-se a Haripur, lar dos hindkowans, de origens labirínticas. Ao horizonte, além do Indus, mora um terceiro povo: os pashtuns, que parecem flutuar em suas roupas tradicionais, os shalwar kameezes. Mais adiante há os kohistanis, depois os falantes de shina, a seguir os alfabetizados em idioma burushashki e assim por diante.

Todas as metáforas de praxe sobre a diversidade – “é um caleidoscópio!”, “um quebra-cabeças!”, “um mosaico!” – são banais diante da realidade do Paquistão, forte de seus 180 milhões de filhos e pelo menos 60 línguas vivas – portanto, 60 nações, 60 estilos de vida, 60 diferentes matizes de pele e pensamento. Em comum, o mesmo Deus e as mesmas monções. E mesmo nisso há exceções teológicas e térmicas.

Voltemos à estrada.

A rodovia do Karakoram, que conecta o arquipélago de culturas do norte paquistanês, vai se afunilando aos poucos. Todas as fases da história do automobilismo parecem coexistir aqui – há camelos, bicicletas, caminhões, riquixás, motonetas e carros disputando o mesmo espaço. Também parece fazer calor e frio ao mesmo tempo, graças ao duelo entre raios solares e ventos boreais.

Chegamos a nosso destino. É primavera. O homem mais procurado do mundo terá, ainda, algumas semanas de vida.

Algo surrealmente, paulista que sou, Abbottabad me lembra Campos do Jordão uns vinte anos atrás, antes do turismo de massas. É essencialmente uma repetição da paisagem acima: vários tons interpostos de verde e branco. Árvores cujo nome desconheço, amplas casas que parecem incompletas e, nos oblíquos espaços entre elas, senhores que se cumprimentam em hindko. É um mundo antigo, temperado, governado por montanhas.

Alguns vizinhos se conhecem, outros não.

Há mais a explorar em Abbottabad do que a manchete. Há o aroma ubíquo da madeira. Há o chá. Há, principalmente, a cordialidade de um povo – o hindkowan – orgulhoso de sua imaginação prolífica e de seu Islã suave. Mas é somente uma nação entre 60. Não é a maior, nem a menor, das etnias irmãs que pulsam e se fundem no segundo maior Estado de maioria muçulmana do mundo.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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3 respostas para Rumo a Abbottabad

  1. Gaston d´Orléans disse:

    Parabéns, mon cher Napoléon, texto excelente e perpicaz. Mas, Campos do Jordão, antes do turismo de massa, há uns vinte anos, isto é, em 90, 91… É, era uma lugar idílico e bucólico. Deve ter sido lá, nessa época, que Camões se inspirou para escrever ¨a fermosura desta fresca serra¨, etc…
    Ton Gaston

  2. Gustavo disse:

    Excelente relato, Napô. Não nos deixe de brindar com essas prosas coloridas. Grande abraço. Fávero.

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