Onde o tempo anda de lado

O primeiro desafio para quem chega ao Caribe britânico é dirigir um carro. O volante, naturalmente, está do lado direito – ou se preferirem, do lado errado (em inglês: “wrong-hand side”). As ruas são quase todas em mão dupla, uma faixa em cada sentido – e estreitíssimas. À margem, muitas vezes, valas profundas e famintas pelos pneus dos desavisados (o meu dianteiro esquerdo já teve o desprazer de um mergulho, ao qual só sobreviveu a duras penas).

Junte tudo isso, como em uma receita de bolo: com a noção de espaço embaralhada pela mudança de lado, tentar equilibrar-se na corda bamba entre um ônibus e um buraco negro. Caso queira acrescentar emoção, imagine pedestres e ciclistas avançando ao seu lado e tornando a rua cada vez mais estreita. Esse é um primeiro esboço, uma ideia geral do empreendimento.

Mas, embora minhas experiências na direção já merecessem um relato por si mesmas, há ainda algo mais; algo relacionado à grande lição (metafísica? espiritual?) que se precisa aprender para viver no Caribe: uma lição de tempo.

Primeiro passo: converse com um estrangeiro que conheça o trânsito no Caribe. As opiniões se dividem em dois grupos:

i) os caribenhos são muito corteses no trânsito. Opinião essa que, em geral, é consequência imediata de uma experiência sublime: observar os carros nos dois sentidos pararem para que você possa passar de uma via secundária à principal, ou atravessar a rua, ou qualquer outra situação em que não se tem a “preferência” (para maiores informações, v. Código de Trânsito). Essas situações – em que gestos tão generosos pareciam contradizer a lógica do trânsito e da vida em sociedade – aconteciam com uma frequência que, aos meus olhos de recém-chegado, parecia nada menos que extraordinária;

ii) os caribenhos são lentos, preguiçosos e atrasados, o que se reflete nas relações de cunho rodoviário (e aeroportuário, e cicloviário, etc etc). Essa segunda opinião deriva de outra experiência não menos sublime: estar atrasado e ficar preso no trânsito causado por um motorista que, vendo na calçada um amigo que há muito já não via, resolveu estacionar no meio da rua para um rápido (?) bate-papo.  Há ainda um estágio mais avançado, em que o amigo não está na calçada, mas sim no carro que vem no outro sentido; nesse caso, o trânsito afeta mão e contra-mão. De fato, o sistema rodoviário de Barbados é extremamente suscetível a fortes amizados ou ataques de saudade; o que enlouquece o turista, no entanto, é perceber que está sozinho na frustração da pressa reprimida; os locais esperam pacientemente que a fila ande.

Passado um ano, minhas ideias ficaram mais claras. Acho que, s.m.j., nenhuma das duas opiniões é precisa. Ambas adotam uma lógica estrangeira para examinar um fenômeno local, aplicando conceitos que não se adequam inteiramente a um modo de vida muito particular. Não se trata de preguiça ou vagareza, nem de cortesia ou respeito – a chave para entender o trânsito de Barbados, lindo país que me acolheu tão bem, é desvendar o ritmo do Caribe, a relação do caribenho com o tempo.

O tempo no Caribe desliza sem esforço. Os estrangeiros que, como eu nos primeiros dias, tentam importar o conceito de “pressa”, são taxados de bárbaros. Primeira lição aos apressados: em Barbados, a buzina só serve para agradecer por alguma gentileza no trânsito (o que se faz com um único toque, suave e curtíssimo: fóm!). E assim a vida segue, e o sucesso desse país tão pequeno, com um ritmo tão próprio (e cujo IDH é o terceiro melhor do hemisfério, e que desconhece também o termo “miséria”), parece um mistério para os padrões de eficiência administrativa dos manuais e dos especialistas.

Enfim: isso é o Caribe, é o tempo andando de lado. Todos os dias igualmente quentes, igualmente úmidos, agradáveis, o mesmo mar me cercando por todos os lados. Para este carioca, às vezes bate a sensação de que todos os dias são iguais – ou talvez de que se trate, na verdade, do mesmo dia: o mesmo imenso dia de um tempo distendido.

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7 respostas para Onde o tempo anda de lado

  1. Grande Freitas, belo e poético texto!

    Abraços, Krishna

  2. É sim o mesmo dia. Olha as Begônias!

  3. Ah, agora descobri onde filmaram “Feitiço do Tempo”….

    Falando sério, texto muito bom e original – parabéns, Freitas!

  4. Muito bom o texto! A pressa contraria a satisfação. Esses caribenhos vivem bem por isso, porque ousam parar no meio do trânsito pra conversar com um amigo, uhauhauh.

  5. Marcelo Dias disse:

    Muito boa a sua experiência! Quem disse que pra ser feliz precisa correr atrás do tempo? Pelo contrário meu irmão, a felicidade está em se viver a cada segundo a vida que DEUS te deu!! seja feliz!!! Aproveite as oportunidades de ser feliz, pois talves não terá em sua vida outras oportunidades! A vida é isso mesmo que voçê acobou de definir no final de sua experiêcia, um belo e eterno dia!

  6. Débora disse:

    viver sem pressa, que sonho =)

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