O refúgio pashtun

Islamabad respira política.

Em qualquer bom café é possível conversar com diplomatas, militares, jornalistas, ongueiros, acadêmicos ou agentes secretos, além de interlocutores que se enquadram em mais de uma dessas categorias. Colher e filtrar essas impressões é boa parte do meu trabalho na Embaixada. Mas não é suficiente.

Como Brasília, a capital paquistanesa é muito diferente do país que governa, uma ilha de conforto modernista e burocrático. Segundo a piada local, Islamabad fica a quinze quilômetros do Paquistão – representado na anedota pela cidade mais próxima, Rawalpindi.

Então é necessário viajar. Para onde deve ir um jovem diplomata que lida com temas políticos e precisa ver a face sem maquiagem de um país em guerra? Quartéis? Bases aéreas? Silos de mísseis? Não. Que tal um campo de refugiados?

Bem-vindos ao campo de Jalozai.

Estamos a poucos quilômetros de Peshawar e das zonas tribais. Nesta região, quase vinte anos atrás, refugiados pashtuns afegãos foram recrutados para fundar, ao lado de estudantes de certas madrassas, aquele movimento cujo nome rima com flauta-de-pã. O resto é história.

Não há mais afegãos em Jalozai. Conforme os ventos da guerra sopraram de um lado para o outro da Linha Durand, foram substituídos por outros pashtuns, porém paquistaneses, que tecnicamente são deslocados internos (IDPs) e não refugiados. Mas é exatamente o mesmo povo. Gente que veio de lugares como Bajaur, Waziristão do Sul e Mohmand, e espera voltar um dia.

Mas eu não fui a Jalozai discutir geopolítica – isso eu faria em Islamabad. Fui encontrar pessoas. E encontrei pessoas com mais ou menos a metade do meu tamanho. Crianças por todos os cantos, crianças em cores berrantes, crianças com tanta desenvoltura que parecem ter substituído os adultos na gestão das coisas; em alguns casos, porque são órfãs.

Quando finalmente chegam os pashtuns crescidos, contam pacientemente histórias trágicas, indizíveis. O intérprete pashto-inglês tenta suavizar os relatos, mas é inútil; as expressões dos refugiados são eloquentes e dispensam tradução. As rugas também falam, pois a guerra envelhece. Em qualquer campo de refugiados, homens de 30 anos parecem ter 50, e senhores cinquentões têm o aspecto de octogenários.

Mas algo me surpreendeu. Em uma população com todos os motivos para nutrir ressentimento, não encontrei extremistas. Não fui hostilizado por ser estrangeiro. Entre os refugiados que vi e conheci, senti cansaço, mas não ódio. Desejo de reconciliação, não de vingança. Vontade de virar a página, não de rasgar o livro.

Voltei pensativo. Grande aprendizado de Jalozai, e minha primeira lição do Paquistão: nunca demonize e jamais despreze o que não conhece. Não acredite em narrativas fáceis sobre o fundamentalismo e sobre a inevitabilidade da guerra. Acima de tudo, humanize sua análise dos fatos. Jovem diplomata, por trás da high politics há pessoas iguais a você – e que, como você, querem paz.

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Sobre Thomaz Napoleão

Diplomata, fotógrafo, professor, brasileiro. No Paquistão.
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14 respostas para O refúgio pashtun

  1. super fã anônima disse:

    Você é incrível, uma pessoa de alma, e não de status bobo, como a grande maioria que conheço. Parabéns pelo que você consegue enxergar e escolher. Tenho muito orgulho quando leio coisas assim, sensíveis. E tenho uma admiração imensa por sua mente brilhante… 🙂

  2. Excelente, aguardamos mais 🙂

  3. Myleni disse:

    humano, acima de tudo 😉
    obrigada por compartilhar!

  4. Ana disse:

    Fantástico o seu post, Napô! Adorei e vou compartilhá-lo.

  5. Gabriella Campos disse:

    Fantástico!

  6. Julie Schmied disse:

    Excelente!

  7. Alessandro de Rezende Pinto disse:

    Fantástica a experiência no campo de refugiados, Thomaz. Obrigado por tê-la compartilhado.

  8. Ricardo Fares disse:

    viva a PUC-SP, Thomaz!

  9. Verdade, rapaz, está um texto excelente, nos transporta por alguns segundos para a realidade do campo de refugiados e num instante nos traz à consciência uma forma de verdade que jamais saberíamos.

  10. Excelente texto!! Estou adorando o blog de vocês! Obrigada por compartilhar essas experiências e nos ajudar a conhecer um pouco mais sobre a realidade de destinos tão particulares.

  11. Muito obrigado a todos pelos gentis comentários! Espero que sintam-se em casa por aqui e sigam acompanhando nosso blog.

  12. Lucas Neri disse:

    Excelente texto Thomas, parabens pela sensibilidade! Rumo ao proximo

  13. Pingback: Filhos da guerra. Órfãos de futuro. | Jovens Diplomatas

  14. Mônica disse:

    Olá, Napoleão, já ouvi muito falar de você, temos alguns amigos em comum. Estou no Afeganistão exatamente para trabalhar com a proteção de IDPs e retornados do Paquistão na fronteira. Fiquei contente em ler seu relato humano. Parabéns pelo post, pelo blog e pelo trabalho no Paquistão! E que você seja um “defensor” dos refugiados/IDPs no MRE! Abs

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