Brisas de Bissau (5) – Histórico Escolar

Histórico Escolar
 
primário
mortalidade infantil e escravatura
básico
malária e assimilação
fundamental
cólera, mas emancipação
médio
aids e guerra (com ajuste estrutural)
graduação
ciências sociais, médicas, militares – e econômicas consensuais
mestrado:
“análise comparada de hipocrisia avançada
um estudo descaso: é mais graduado
o negro escolado, ou o branco descolado?”
doutorado transnacional:
“a rota de transe da branca aloprada:
o papel do aspirador”- summa cum fraude
ilusões adicionais:
acreditei nas penas
mas não quero pena
quero ser genebra,
ou mesmo viena.
 
A DIREÇÃO
preguiçoso – e atrevido!
diploma não reconhecido.
 
 

O mata-bitchu não estava bom, frutas e queijo são artigos indefinidos mesmo no café-da-manhã dos melhores hotéis de Bissau. Na Avenida-Passarela, um porco é retirado do porta-malas de um táxi, equilibra-se na borda, recolhem-se os miúdos, enfia de volta no bucho, força levanta puxa!, vamos lá, nô na bai! Um pneu de caminhão, à venda na calçada, rebela-se, desvia dos carros e cruza a pista.

A esquina do Centro Cultural Brasil – Guiné-Bissau está repleta de estudantes, que me vêem passar um tanto desanimado. Não desiste, amigu, cá estamos em condições não tão boas, nosso mata-bitchu é feito de Literatura, Cultura Brasileira, Comunicação e Expressão em Português.

Oferecemos cursos de aperfeiçoamento em Língua Portuguesa, idioma oficial da Guiné-Bissau, instrumento fundamental de comunicação com o mundo; a língua materna, porém, é o Crioulo, sempre falado entre os guineenses, não importa quem seja. Disso decorre uma dificuldade maior no aprendizado do Português culto, mas não esqueçamos Paulo Freire e sua “pedagogia da liberdade”: excessiva ênfase gramatical, nas fases iniciais, inibe o aprendizado. A gramática deve apanhar todo dia pra ver quem é que manda, diz Luís Fernando Veríssimo.

O Crioulo é a língua da resistência, da unificação durante a guerra de libertação, mistura de línguas étnicas com a Língua Portuguesa. Paulo Freire, quando esteve por aqui assessorando o PAIGC em sua estratégia educacional, registrou tudo nas “Cartas à Guiné-Bissau: registros de uma experiência em processo”. A luta por uma educação nova estava no centro das preocupações do “Partido dos libertadores”, como é chamado até hoje.

Não foi, nem é, fácil. A primeira escola de ensino fundamental foi fundada apenas em 1958. Em outros países, optou-se pelo ensino básico nas línguas locais, para só depois ser introduzido o idioma estrangeiro, como recomenda o UNICEF (Moema Augel, “A nova literatura da Guiné-Bissau”). Era ainda mais difícil nas etnias islamizadas (metade da população), que resistiam em mandar os filhos para as skolas di branku (Uco Monteiro, “Diálogos sobre a educação na Guiné-Bissau”, Revista Soronda de Estudos Guineenses).

Uma das razões de o Crioulo não ter sido definido como língua oficial foi a de que os demais grupos linguísticos também poderiam exigir tal condição, dificultando o sistema de ensino. Como não comparar? A Guiné tem área de aproximadamente 36.000 km2, e mais de 10 idiomas; no Brasil, são mais de 8 milhões de km2, e apenas uma língua. Ainda que eu fale tchê e tu, você.

As crianças aprendem uma língua não porque são estimuladas, mas  porque estão expostas a ela, como afirmou Celso Luft em “Língua e Liberdade”. A ti também não seria fácil alfabetizar-se em língua de branku na escola, e na rua seguir falando aquela com a qual tu aprendeu as primeiras palavras – é isso mesmo, “tu aprendeu”, é esse o Português Portoalegrense, amigu.

O analfabetismo ainda é um dos grandes desafios do país, principalmente entre as mulheres, e há uma grande campanha feita com o apoio de Cuba. Há algumas faculdades, mas as públicas passam por reestruturação. O estudo é tão valorizado quanto em outras bandas: os guineenses, quando querem criticar alguém, chamam de analfabeto, nem fala o Português!

O reverso disso tudo é a pouca institucionalização do Crioulo, só recentemente tendo surgido alguns dicionários e gramáticas. Mas, Chefe Edú, você também não acha que Kriol é português mal falado?, provoca a Odete. Si Kriol é português mal falado, então purtuguis di Brasil também é, não é isso que dizem os puristas, Odete? Cada língua tem seu próprio encanto; umas são boas para a filosofia, ou para a música; outras tem escrita em desenhos, tem até uma, belíssima, que faz biquinho. São inferiores ou melhores? Italianu é latim mal faladu?

O diplomata é o apóstolo da diversidade, e a Lógica não tem preconceito. Um idioma superior, uma etnia melhor, um povo mais cheiroso, outro mais fino, te cuida, tchê, são todas idéias movediças. Se pensar que latino é menos que nórdico, confere antes se tu tem olho azul e é bem loiro – e tem que ser bonito, feio não vale. Só não esquece que sempre pode aparecer um albino pra te chamar de sub-raça.

O Sana, porém, não desiste. Garçom do hotel no horário noturno, aproveita o computador da recepção para estudar de madrugada. Espichou os olhos quando viu a biografia do Amílcar (“O Fazedor de Utopias”), quer emprestado. Estou cursando Ciências Sociais, mas Senhor Eduardo, eu vou lhe dizer, que sacrifício!

Admiro, interpreto origamis em folhas amassadas, mas novamente desanimo na sombria noite do hotel, temendo a malária. A força vem da caixa de sugestões dos alunos do nosso Centro Cultural, que olham para as notas das provas com apreensão, ávidos pelo Português em processo:

Vocês estão a trabalhar bem para a Guiné-Bissau porque maioria das pessoas já sabem falar português muito bem, muito obrigado pelas vossas colaborações com os povos africanos, diz a Dina. Pesso ao Centro para que continuasse com estas atividades que leva o desenvolvimento da humanidade guineense, pediu o Ialá. É com carinho expresso a minha profundo contentamento, pelo tem demonstrado é coisa inedita. Não tenho palavra para mostrar tanta alegria, sorriu a Indi. Vim ver como as coisas andam por aqui, porque lá fora ouvi falar bem do que estão a fazer para o nosso país, e já estou mesmo emocionado, irei-me matricular afim de adquirir novos conhecimentos e saber da cultura de um povo que tanto admiro, emocionou-se o Lamine.

Na hora da lua, quando a solidão atraiçoa as convicções, o Sana segue firme, crendo em brisas e em histórico escolar. A garçonete Astú interessa-se pela biografia do Amílcar, mas só lê Francês. O velho garçom Manuel traz a janta, pede uma revista brasileira, dedilha o violão, antigamente todos tocávamos na escola, Seu Eduardo. Do lado de fora, o vigia escreve no escuro; a luz vem do caderno. Dei-me conta de que o aluno, aqui, sou eu.


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9 respostas para Brisas de Bissau (5) – Histórico Escolar

  1. Mestre Dejavú disse:

    Grande Garoto!
    Não perca a esperança, teu trabalho aí é super importante!
    Parabéns pelo teu texto, continue assim!
    Abraço do confrade,

    • Fabiola disse:

      Lendo seu relato tive a sensação de estar aí por alguns instantes e, por consequência, ampliar o olhar sobre os estudantes que aqui recebemos em nossa Instituição (UCS) através do programa PEC-G. Determinação é uma palavra-chave para experiências como esta! Parabéns !

      • Eduardo Brigidi de Mello disse:

        Muito obrigado pela leitura e incentivo, Fabíola, um abraço.

  2. Flavia Ribas disse:

    Eduardo, estive por um ano na Guiné, há 4 anos. Ensinar portugues realmente é um desafio, porém necessário e pode abrir janelas de oportunidades a muitos jovens incrivelmente talentosos. Uma das pessoas mais marcantes para mim nesta temporada guineense foi a minha pursora de kriol, Adélia. Cheguei achando que o crioulo era “lingua de preto velho” e voltei ao Brasil convencida de que é também uma espécie de “português evoluído”. Força e coragem para continuar com as tuas aulas, enquanto isso!

  3. Mello, meu caro, brilhante! Parabens meu velho, parabens. De dar agua na boca. Se te encontrasse agora numa quebrada em Brasilia, ou no Bezerrão vendo um jogo do maior do DF, eu te diria: veio, bom demais o teu texto!

  4. Luis disse:

    Grande companheiro da primeira hora de luta !! Recordo de alguns momentos relatados por ti. O parabenizo pela sensibilidade em captar tantas situações e a habilidade em transformá-las em palavras !! Nô sta djunto !!

  5. Luiz Victor disse:

    Demais!

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