Visita a Fukushima

19 de junho. O Japão ainda estava na Copa, mas nem por isso havia qualquer animação no J-Village, como é conhecido o centro de treinamento da seleção. Inaugurada em 1997, a Granja Comary dos japoneses tem instalações de primeiríssima linha, mas a última vez que os “Samurais Azuis” treinaram por lá foi pra Copa da África do Sul. Em março de 2011, o local foi transformado numa espécie de acampamento-base avançado pra quem ia ou vinha de Fukushima.

A 23 km da usina, o J-Village está na porta de entrada da zona de exclusão, a região a menos de 20 km de Fukushima-I, que teve que ser completamente abandonada em razão da radiação. Sua localização é ainda mais conveniente pois está bem no caminho de Tóquio, de onde vêm bombeiros, técnicos, engenheiros, equipamentos, ordens e… diplomatas estrangeiros, como o grupo que a Tokyo Electric Power Company (TEPCO) decidiu levar pra ver a usina naquela quinta-feira.

Depois de 2h30 de trem desde Tóquio e mais 40 minutos de ônibus, fomos recebidos no J-Village pelo vice-presidente a quem a TEPCO confiou a hercúlea tarefa de desmantelar a usina e tornar a região habitável novamente – trabalho pra mais de 40 anos. Ele começou nos pedindo desculpas pelo transtorno causado desde 2011 e, encarnando a ética samurai, afirmou querer dedicar o resto de sua vida à revitalização da região para, assim quem sabe, voltar a ver o sorriso no rosto dos amigos que fizera quando fora gerente de Fukushima-II (usina vizinha à acidentada Fukushima-I).

Depois dessas e de outras explicações, tomamos o ônibus rumo à usina e logo estávamos na zona de exclusão. Primeiro na parte mais externa, onde os níveis de radiação já recuaram um pouco, e é permitido entrar, mas não residir. Alguns moradores já vão ajeitando as casas, não tão destruídas (o tsunami não chegou a essa estrada), mas castigadas por três anos de abandono. Têm a expectativa de poder voltar pra casa em breve, seguindo os passos dos residentes de Tamura (um vilarejo mais a oeste), que, em abril, foram os primeiros dos 100 mil “refugiados nucleares” a voltar pra casa desde o acidente.

Mais um pouco e chegamos no centro da zona de exclusão, onde ainda está em vigor a ordem de evacuação. Só entram veículos autorizados, que, surpreendentemente, não são poucos: há mais de 5 mil operários trabalhando na usina, todos levados diariamente do J-Village por ônibus da TEPCO. Fora da nossa estrada, porém, o tempo parece ter parado há 3 anos, e o abandono é denunciado pelas casas vazias e campos de arroz tomados pelo mato. Nem sombra do capricho que caracteriza toda fachada, todo jardim, toda calçada, enfim, todo o Japão.

Finalmente dobramos à direita em direção ao Pacífico e logo chegamos à usina. Mais uma vez, o movimento surpreende. Eu esperava ver destruição – e de fato vi -, mas a palavra que primeiro me veio à mente foi outra: construção. O local é um imenso canteiro de obras, com gente entrando e saindo dos vestiários, carros pra lá e pra cá, pilhas de material de construção, tratores, escavadeiras, etc.

Primeira parada: detector de metais. Segunda: equipamentos de segurança. Como o tour seria inteiramente feito a bordo de um ônibus, não nos deram os “escafandros” dentro do qual trabalham os operários; apenas máscara, luvas, pantufas plásticas e o dosímetro, que vai nos dizer quanta radiação teremos recebido até o final da visita.

Depois de novas instruções de segurança, tomamos outro ônibus. O que veio do J-Village não passa do estacionamento, e o que nos levará ao tour não sai da usina. É assim com todos os veículos, pra carregar um mínimo de poeira radioativa pra fora.

Mal demos a largada e nos deparamos com as centenas de tanques que têm sido construídos pra armazenar a água radioativa que se acumula continuamente. Nada menos que 400 toneladas de umidade do lençol freático infiltram-se diariamente no subsolos dos reatores, misturando-se com a água já contaminada usada para resfriá-los. Esse aguaceiro é filtrado, mas alguns elementos radioativos permanecem, daí a necessidade de tanques e mais tanques.

Para tentar estancar essa enxurrada subterrânea, a TEPCO tem um plano audacioso: congelar o solo ao redor dos reatores, de modo a impermeabilizá-lo. Com isso, espera que o lençol freático desvie e chegue limpo ao mar. É uma técnica comum na construção de túneis, mas nunca foi testada na escala que se pretende em Fukushima: o perímetro dos reatores é de 1,5km. Os trabalhos ainda estão em fase embrionária e tudo o que vimos foram escavações e os tubos que serão enterrados e pelos quais circulará o líquido resfriado que congelará a terra. E muitos operários.

Vendo esses trabalhadores, todos cobertos dos pés à cabeça, não conseguia parar de pensar no porquê de estarem ali. Será que têm opção? Sabem dos riscos? (Há relatos de que a Yakuza, a temida máfia japonesa, recruta mendigos e outras “pessoas descartáveis” para trabalhar nas áreas com maior índice de radiação). Ou são forasteiros vindos em busca do salário? (Em 2012, saiu até anúncio em português oferecendo R$ 750 por dia pra retirar entulho da usina. Alguns dos 200 mil decasséguis que moram no Japão chegaram a se candidatar, mas, diante da repercussão negativa, a empresa recuou e acabou contratando só japoneses). Ou querem apenas contribuir para ajudar a tornar o lugar habitável novamente, como o vice-presidente que nos recebeu?

Mais adiante, avistamos o que talvez constitua o marco zero da tragédia (embora muitos digam que a tragédia fosse anunciada e tão antiga quanto a promiscuidade que se estabelecera entre empresas e órgãos reguladores): uma torre que sustentava a linha de transmissão que servia não para escoar a energia gerada em Fukushima, mas para trazer de fora a eletricidade necessária ao funcionamento da usina. Está no chão. Nocauteada já pelo terremoto, quando o tsunami ainda estava em gestação a 180 km dali, foi uma das primeiras baixas e sua queda desencadeou a entrada em funcionamento dos geradores a diesel.

Sobre isso eu já tinha lido e foi muito interessante ver ao vivo, mas meus olhos fugiam das explicações e buscavam incessantemente a direção do mar, onde está o embrião de tantas leituras e epicentro de toda a crise: os seis reatores, três dos quais sofreram com explosões em 2011. Trata-se do ponto mais baixo da usina e, ao nos aproximarmos e lá, a ausência de árvores no barranco e as marcas de terra nas paredes dos prédios denunciavam a altura à qual as ondas haviam chegado: 14 metros, 4 a mais que o quebra-mar e a sala de máquinas, onde os geradores a diesel se afogaram apenas meia hora depois de entrar em ação.

Os reatores estão abrigados em edifícios de 6 andares, cada um em um estágio diferente de reconstrução. Já ganharam reforços estruturais e não há mais escombros por perto, de modo que nosso ônibus pôde se aproximar sem problemas. As imagens das explosões, que cansei de ver na TV, desfilavam na minha mente. Estávamos diante do reator 4 e, do lado de lá da parede de concreto, jaz estocado combustível nuclear usado contendo mais de mil vezes a quantidade de césio que causou o acidente de Goiânia, em 1987. E se o prédio tivesse ruído em março de 2011?

Ao me fazer essa pergunta, eu pensava nos operários que arriscaram as vidas tentando abrir manualmente as escotilhas de emergência, que permitiriam escoar parte do gás hidrogênio que se acumulava. Teriam sido voluntários? Designados? Esbravejavam contra o chefe? Será que pensavam nas vidas que iam salvar, talvez ao custo das suas? Ou só em sair dali o quanto antes? No que quer que pensassem, conseguiram driblar escuridão, calor, inundação e destroços para encontrar a alavanca que, em condições normais, seria acionada do conforto do ar condicionado da sala de controle. Nada disso impediu as explosões de gás, mas, sem essa drenagem de parte do hidrogênio, elas talvez tivessem sido mais fortes – sabe-se lá com que consequências.

Seguindo o tour, passamos pelo prédio de escritórios, hoje abandonado. Pelas janelas pudemos ver pedaços do forro caídos, denunciando a violência do terremoto – o mais forte já resgitrado no Japão. Ao lado dele, está o prédio sem janelas que abriga a sala de controle, e que durante as semanas que se seguiram ao tsunami, abrigou muito mais. Foi ali que aqueles que se arriscaram nos reatores e outros colegas – os “50 de Fukushima”, como ficariam conhecidos – iniciaram uma luta inglória contra um inimigo invisível, enquanto o país ainda focava suas atenções no tsunami – e nas suas 20 mil vítimas – e a palavra Fukushima era apenas o nome de uma província.

“50 de Fukushima” me faz pensar nos “300 de Esparta”. Na verdade não eram 50 e reportagens mais recentes têm dado conta que esses “herois” só não saíram dali antes porque não conseguiram. O pânico desencadeou um “salve-se quem puder” e muitos fizeram como o capitão do Costa Concordia. O governo alega que se não fosse ele a dizer “Vada a bordo, cazzo!”, a TEPCO teria tirado todo o time de campo. A empresa nega e jura que jamais cogitou abandonar a usina.

Espartanos ou Concordianos, fato é que eles lá ficaram por semanas, dormindo no chão e trabalhando com pouca água e comida (e no escuro, até o restabelecimento da força). Da matriz em Tóquio, chegavam instruções contraditórias, entre as quais a de não jogar água do mar nos reatores, cada vez mais quentes. O gerente da usina sabia que o sal iria oxidar as instalações e corroer os bilhões ali investidos, mas sabia também que, na ausência de outro mecanismo de resfriamento, o calor que emanava dos reatores teria consequências explosivas – de fato, teve. Tomou, então, uma atitude muito pouco japonesa, que o elevaria à condição de heroi entre os herois (e atolaria a direção da TEPCO ainda mais no mar de lama que, aos poucos, a crise ia revelando): desacatou as ordens e ordenou o bombeamento de água do mar nos reatores.

Ainda imerso nesses pensamentos, percebi que o ônibus começou a andar. Hora de partir. O motor roncou mais forte pra vencer a rampa que separa os reatores (10m acima do nível do mar) do platô onde está o resto da usina (35m), e era difícil conceber que o mar pudesse ter feito o mesmo, ainda que só até a metade. No trajeto de volta até a entrada, estranhas manchas verdes salpicavam no chão. É uma resina, nos explicaram, usada logo no começo do caos para grudar a poeira radioativa no solo.

Antes de trocar de ônibus pra tomar o rumo do J-Village, passamos por um detector de radiação, pra garantir que não estávamos carregando “sujeira” pra casa e devolvemos o dosímetro. As máscaras, luvas e pantufas foram pro lixo. Seu destino será o incinerador que está sendo contruído ali mesmo na usina.

Já embarcando no outro ônibus, a chuva fina que caía parou e fomos brindados com uma estranha imagem: um arco-íris na direção do mar, bem acima dos reatores. Lembrei das placas que adornam a entrada das duas cidades que, décadas atrás, optaram por abrigar a usina (por referendo), nas quais se lê “Energia Nuclear para um Futuro Promissor”. E vendo o logotipo da TEPCO – que, segundo já li por aí, foi a 3ª empresa com maior valor de mercado do mundo, e hoje está quebrada -, lembrei também do papel timbrado da conta luz, que todo mês me causa uma certa estranheza ao associar meu apartamento, tão limpo e tão longe, àquilo tudo.

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Rapidinhas

Peço um café no Starbucks.
_ Your name, sir? – pergunta a moça do caixa.
Pois é, meu nome é complicado! No Brasil já nem sempre entendem. Acertar a grafia, então… Acostumei-me a responder “Helder-com-agá”, sempre que vão escrever. Fora do Brasil, esquece, se entenderem qualquer coisa já é lucro. Mas, vamos lá, a ver o que sai.
_ It’s ‘Relder’ – nosso R é o H em muitas línguas, ou o J em espanhol. Acho que eles entendem melhor assim do que se eu digo ‘Éuder’, à brasileira — aí me olham perplexos, como se eu estivesse falando uma língua de outro planeta. 
_ Sorry?
_ Rel-der. 
_ Ok.
Ela escreve o nome no copo e passa pra moça que prepara. Logo mais me entregam. Resolvo ler, por curiosidade, pra descobrir como ela se virou. 
“Heldr”. 
É, foi bem. Tchecos, né? Vogais pra quê?

………

Juscelino Kubitschek. Kubitschek, essa sopa de letrinhas, é um nome tcheco. O “itschek”, que aqui se escreve “íček”, é um diminutivo – é o “inho” deles. O “Kub” vem de Jakub. Logo: Jacozinho, Tiaguinho, Iaguinho ou Jaiminho em português.

………

Saindo da academia pro trabalho, chuva fina e vento frio, sem guarda-chuva. Um casal me para e pede informação:
- Excuse, me. The Shoppinnng Palladiummm?
- It’s right there. – aponto.
Não tenho dúvidas.
- Brasileiros? 
- Sim! – Subitamente contentes – Onde é o Shopping Palladium?
- É aquele prédio rosa ali na frente – digo já tentando ir embora, para fugir da chuva e chegar ao trabalho.
- Obrigado! … De qual cidade?
- São Paulo. 
- São Paulo – eles repetem satisfeitos.
Aceno e bato em retirada.
Pois é, conheço minha gente!

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GU x Rollers, o clássico dos clássicos

O futebol de Botsuana – por que não? – também tem o seu “clássico dos clássicos”, ou, como se ouve aqui, “the mother of all derbies”: Township Rollers x Gaborone United. Os dois são times tradicionais de Gaborone: o áureo-cerúleo Rollers foi fundado em 1965, o alvirrubro GU, em 1967. A fundação de clubes de futebol, àquela altura, era mais um produto das grandes transformações por que passava Gaborone, vila empoeirada que deveria rapidamente se tornar cidade, escolhida que foi para ser a capital da República de Botsuana, a que ascendeu em 1966, com a independência, o Protetorado de Bechuanaland, governado pelos britânicos desde Mafeking, na África do Sul.

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O Township Rollers surgiu como clube dos funcionários do “Public Works Department”, sendo o nome “Rollers” uma alusão aos rolos compressores utilizados na construção das ruas de Gaborone . No seu escudo consta também o traçado do novo centro da cidade, cuja edificação estava a cargo daqueles trabalhadores-futebolistas. O Notwane, outro clube tradicional, fundado, como os Rollers, em 1965, apareceu como alternativa menos elitista ao Gaborone Club, clube social frequentado pela comunidade de expatriados que aportavam na futura capital.

GU e Rollers são, juntamente com o Mochudi Centre Chiefs, da vizinha Mochudi, e a BDF XI, de Gaborone, as principais forças do futebol botsuanês. Os Chiefs venceram as duas últimas edições do campeonato nacional, a “Botswana Premier League” (BPL); são um time identificado com a tribo Bakgatla, presente em Botsuana e muito influente na lindeira Província do Noroeste, na África do Sul. BDF XI é o time do exército, a “Botswana Defence Force”; com poucas exceções, seus jogadores são militares, dedicando-se ao futebol quando não estão “on duty”.

Com os Chiefs, Rollers e GU são os mais profissionais entre os times que assim se dizem em Botsuana – a profissionalização do futebol é ainda um “work in progress” no país, razão pela qual deve ser entendida com ressalvas (há poucos dias, jornal local estampava na capa a notícia de que a van dos Chiefs havia sido penhorada, pois a direção não pagara os emolumentos devidos a um feiticeiro que obrava para os sucessos do time). GU e Rollers contam com um homem forte, que lhes proporciona razoável saúde financeira. Possuem sede própria, conquanto lhes falte estádio próprio. Infelizmente, ainda treinam em campos de terra batida.

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O Flamengo de Botsuana, pelo tamanho da sua torcida, os Rollers são também o maior em número de títulos nacionais, tendo triunfado onze vezes na BPL, disputada desde a independência. O GU tem no armário seis troféus do campeonato (um a menos que a BDF XI, segundo maior ganhador).  Grandes em Botsuana, fora das fronteiras não gozam de projeção.

O futebol é, com larga vantagem, o principal esporte de Botsuana. Em 2012, os Zebras, apelido da seleção nacional, alcançaram o maior feito da sua história, a classificação à Copa Africana de Nações, disputada no Gabão e na Guiné-Equatorial. A sensação era de que um novo período do futebol botsuanês se descortinava, no qual os Zebras passariam a ombrear com os grandes do continente. O time, porém, acabou derrotado nas três partidas da fase de grupos, e, desde então, o escrete botsuanês acumula insucessos. Não se classificou para a Copa Africana deste ano, na África do Sul, nem para as “finais” da Copa do Mundo do Brasil (os jogos das eliminatórias são em Botsuana tratados já como jogos de Copa do Mundo). O treinador botsuanês dos Zebras, antes herói pela classificação à Copa Africana, foi não faz muito despedido, imensamente desgastado. Mais do que com a seleção nacional ou os times locais, a vinculação principal do botsuanês médio apreciador do futebol parece ser com a “Premier League” inglesa.

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Em uma quente e nublada tarde de sábado de outubro, em que a tão aguardada pula (chuva, em setsuana) só ameaçou, GU e Rollers duelavam em partida válida pelo primeiro turno da BPL 2013/14. O jogo era disputado no estádio da Universidade de Botsuana, pois o bonito Estádio Nacional – detentor de lugar especial no coração dos botsuaneses, palco da cerimônia de independência – encontrava-se fechado. O GU vinha para o jogo sob pressão, pela fraca campanha no campeonato, e os Rollers, com a esperança de aproximarem-se do topo da tabela.  Recentemente, representantes das duas agremiações compareceram a coquetel oferecido pela Embaixada para abrir exposição de fotos sobre o futebol brasileiro. Em conversa animada, que não sugeria estar-se diante da maior rivalidade do país, o Major Bright, técnico do GU e figura célebre do futebol botsuanês, conhecido tanto pela competência como pela boina que costumeiramente traz à cabeça, discorria sobre o curso para treinadores que frequentara no Brasil; o Sr. Somerset, diretor dos Rollers de fala tranquila, referia-se com orgulho ao seu novo atacante, joia recém-chegada da Namíbia.

O estádio da Universidade, que senta 8 mil pessoas, estava praticamente cheio, rara aglomeração de público em uma país repleto de vazios na paisagem. Aqueles que diziam que os Rollers arrastavam multidões estavam certos: mesmo sendo o GU o mandante,  o estádio vestia-se predominantemente de amarelo e azul. O clássico era um evento de locais, em que, nas conversas, nos cânticos e nos xingamentos, só se ouvia o setsuana. O treinador sérvio dos Chiefs foi facilmente identificado em uma das arquibancadas, espreitando os Rollers, seu adversário da semana seguinte.  O Major Bright, surpreendentemente, não portava a sua boina, mas terno e gravata, sem faltar o escudo do GU sobre o bolso.

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Engajadas no jogo, as duas torcidas participavam, embora não faltassem os personagens exuberantes, estranhamente fantasiados, que, em transe, ficam a cantar e dançar, sem muito se importar com o campo. Os Rollers haviam inaugurado o placar cedo no jogo, pelos pés de Jerome Louis, a joia namibiana do Sr. Somerset, e, com aquele resultado, a possibilidade de o Major Bright perder o emprego, aventada nos jornais, era real.  O jogo já se encontrava nos descontos, e um daqueles personagens, torcedor-profeta dos Rollers, abordava os presentes, apontando para certo trecho da sua bíblia em setsuana, como a dizer que a vitória estava escrita. Nesse instante, foi contradito pelo GU: no apagar das luzes, 1×1, placar final.

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Câmbio

Eis que vou comprar lentes de contato.

_ 3 pares, Sr.?
_ Sim, 3 pares, por favor. Quanto custa?
_ 660.
Fico meio ressabiado. Pô, no Brasil eu pagava quase 200 paus e achava caro! Vamos tentar abater a pancada.
_ Um par só. Sabe como é, não estou acostumado com essa marca, vou testar.

Aí cai a ficha: “660 coroas tchecas! Você não está fazendo o câmbio! Divida por 10 para ter o preço em reais, seu gênio.”

Pois é, cada par de lentes por vinte e poucos reais! Nada mal…

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Índia e Paquistão: a fronteira da meia-noite

Na obra-prima do realismo fantástico indo-britânico, Os filhos da meia-noite, Salman Rushdie narra as desventuras telepáticas de um homem nascido no instante exato da independência indiana, no primeiro minuto de 15 de agosto de 1947. É um rebento de hindus pobres, mas será erroneamente criado por uma rica família muçulmana, pois foi trocado na maternidade. Esse engano original determinará os destinos de Salim Sinai, o protagonista que contém a Índia inteira em si.

Há um equivalente geográfico para a metáfora de Rushdie sobre as identidades tragicamente paradoxais do subcontinente. Trata-se da fronteira de Wagah.

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Não fosse por um acidente histórico, Wagah seria apenas mais um entre os centenas de povoados multicoloridos do Punjab, a fértil província indiana dos cinco rios.

Mas o acidente ocorreu. E continuou ocorrendo, com violenta teimosia.

Graças à partição caótica de 1947 e às guerras fratricidas das décadas posteriores, Wagah é hoje a única passagem aberta nos três mil quilômetros da linha imaginária que une e separa Paquistão e Índia.

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A cada amanhecer, centenas de ônibus e caminhões psicodelicamente decorados percorrem a Grand Trunk Road e atravessam a divisa em Wagah. Transportam gado e gente, badulaques e preciosidades, histórias e lembranças.

A cada anoitecer, porém, Wagah se transforma em palco. Começa um dos espetáculos mais inusitados da política internacional: a extravagante cerimônia militar de fechamento da fronteira indopaquistanesa.

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Os atores dessa ópera bufa são soldados em trajes de gala, medalhas no peito e penugens no cocoruto. Os paquistaneses vestem preto, os indianos marrom. Todos portam barbas ou bigodes imponentes e são pelo menos vinte centímetros mais altos que a média do subcontinente.

Sob as ordens de seus comandantes, os estóicos guardas gesticulam, rosnam, esbravejam, desfilam e chutam o céu. Seus extraordinários passos de ganso são bastante sugestivos para os admiradores de Monty Python.

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O desfile militar é acompanhado com idêntico fervor nas duas metades do anfiteatro geopolítico de Wagah. Mas há diferenças entre as torcidas organizadas dessa final de um campeonato que nunca termina.

Nas arquibancadas indianas, a multidão de espectadores é amorfa: nada separa locais de estrangeiros, mulheres de homens, crianças de idosos, sábios de tolos. Já no lado paquistanês, impera uma rígida divisão por gêneros, e os raros forasteiros são instantaneamente abrigados na fileira VIP.

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Em ambos os lados da linha invisível, eufóricos incentivadores de torcida galvanizam a plateia com gritos-de-guerra patrióticos.

O tradicional e laico Hindustan Zindabad é o favorito dos megafones indianos.

Já o público paquistanês prefere uma profissão de fé: quando o animador lhes pergunta Pakistan ki matlab kiya? (“Qual o significado do Paquistão?”), a resposta é uníssona: La ilaha Illallah! (“Alá é o único deus!”).

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A cerimônia é animada e intensa, mas curta; dura menos de meia hora. Minutos antes do anoitecer, e em perfeita sincronia, a alviverde paquistanesa e a tricolor indiana descem de seus mastros. Os espectadores lentamente retornam a suas casas.

Até a manhã seguinte, não haverá nenhuma fresta aberta para o tráfego entre os dois rivais-irmãos nucleares da Ásia Meridional.

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A cerimônia de Wagah se repete diariamente, quase sem alterações, há pelo menos meio século. Ocasionalmente, a Índia convoca soldadas femininas para fechar a fronteira, o que jamais acontece no outro lado.

O trunfo dos paquistaneses era diferente: um velhíssimo animador de torcidas chamado Mehar Din, pequenino e carismático como um gnomo ufanista. Seu apelido era Chacha Pakistan (“tio Paquistão”). Todo dia, sob sol ou chuva, o cheerleader mais idoso do mundo comparecia a Wagah para agitar fervorosamente a flâmula de um país muito mais jovem que ele próprio. Tornou-se ícone nacional.

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Chacha Pakistan faleceu no ano passado, aos 90 anos. Sua família não tinha dinheiro para interná-lo no hospital de Lahore.

A bandeira que dava sentido a sua vida também lhe serviu de mortalha.

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A última brisa de Bissau

Nota nº 2
Situação na Guiné-Bissau
04/01/2012
O Governo brasileiro acompanhou com preocupação os acontecimentos ocorridos na Guiné-Bissau, em 26 de dezembro de 2011, que provocaram a morte de duas pessoas.
Como país amigo e na qualidade de Presidente da Configuração da Comissão de Construção da Paz (CCP) para a Guiné-Bissau das Nações Unidas, o Brasil tem se coordenado com as autoridades da Guiné-Bissau para promover reformas internas naquele país e colaborar para a superação de seus desafios político-institucionais.
O Governo brasileiro associa-se à União Africana em sua manifestação de apoio à Guiné-Bissau e de engajamento permanente em acompanhar os esforços que visem a consolidar a paz e a estabilidade, além de promover o desenvolvimento sustentável na Guiné-Bissau.
O Governo brasileiro seguirá acompanhando os desdobramentos da situação na Guiné- Bissau, em coordenação com os demais membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e tendo presente a ação da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). 

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A revoada dos flamingos tinge de preto, de rosa, a idílica aurora de Orango. O mar escuro, sonolento de amanecer, recorda seus tons de verde com o nascer do sol. O barco, as lembranças, contornam a praia, adentram o r que, serpente, levará ao coração da ilha.

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As semanas anteriores não haviam sido fáceis. Adrenalina, tensão, medo. Saliu avisara, a situação não estava “nada boa”: a Fortaleza de Amura, sob ataque; o paradeiro do Primeiro- Ministro e do Chefe das Forças Armadas, desconhecido; o Presidente incomunicável e sob tratamento médico na França. Saliu dirige com cautela, consulta suas fontes, “kal kii kaminhu mais seguro, há barreiras”. Cruzam tropas, patrulhas militares, em direção a Amura.

Bissau, normalmente sonora no início da manhã, prende a respiração, procura saber o que está ocorrendo. Há muito por fazer: informar Brasília e aguardar instruções; manter o alerta na Embaixada; proteger a Diplomatriz – e ainda a Sogra, que desta vez veio pessoalmente defender a filha. Precisamos aconselhar os brasileiros que aqui estão a serviço, manter o fluxo de informações. “Chefe Edu, Brasília tchomau, ligação de Brasília”, diz a Odete. “Secretário, estão perguntando se a situação é grave”, diz a Glória, sobre os brasileiros residentes que telefonam para nosso Setor Consular.

Ouvem-se tiros e explosões esparsas. Odete ajuda a monitorar o ritmo nervoso das rádios, Sampaio fica de prontidão para o envio de telegramas. Assim como outras representações diplomáticas, a Embaixada é cercada por militares, para impedir tentativas de asilo, como explica em Crioulo o soldado que ostenta um lança-foguetes à porta do Centro Cultural. E quem está no comando? Silencia.

Chega o entardecer, esquecidos almoços e amenidades. O Governo eleito retoma o controle e convoca reunião com o Corpo Diplomático. “Eduzinhu, Mariano sta dja na karru, bu misti bai Palácio di Guvernu, reunion di tudu Imbachadores ku Chanceler gora, kinti-kinti”. Saio apressado, não sem antes roubar-lhe umas castanhas torradas.

O toque de recolher é implantado e permanecerá toda a semana. A tensão, também: mais tiros, mais explosões durante as longas noites, perseguições, algumas mortes. O Chefe da Marinha, Bubo Na Tchuto, é preso sob a acusação de liderar os golpistas. Causam apreensão os boatos de um novo ataque, vindo do interior, e com maior intensidade, para libertar Bubo. Na linha de frente da cobertura jornalística, o blog Ditadura do Consenso.

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Como em 2010, cancelamos os ambiciosos planos de Ano Novo. Restaurantes fitchadus, festas canceladas. A circulação é limitada durante a noite, as Forças Armadas mantém alerta máximo. A Diplomatriz e a Sogra improvisam uma ceia, com bravura e não muito sucesso. Se no ano passado o Reveillon foi solitário na Embaixada, neste ano é com a Sogra em um pequeno quarto de hotel… Mas sejamos otimistas!, estamos no mesmo fuso do Reino Unido, coloca aí na Al-Jazeera English, guria, vamos comemorar com as multidões de Londres e Edimburgo, ânimo!

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O Embaixador antecipa o retorno das férias, o que permite um fim de semana de folga. Tomamos a avioneta para Rubane, sob os receosos protestos da Diplomatriz. A destemida Sogra, por outro lado, sorri ao sobrevoar as ilhas, contempla as compactas palmeiras e diz sentir-se o Indiana Jones.

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O estresse, a falta de ar, o nervosismo daqueles dias, tudo desaparece ao despertar no bangalô, ao som da maré. Espreguiço-me na varada à beira d´água, começo a desfrutar do silêncio, do ar puro, quando a Sogra, no bangalô vizinho, grita sucessivos “bons dias”…DSC02966DSC02972

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O Presidente Malam Bacai Sanhá falece em Paris. Da etnia mandinga, era considerado fator de estabilidade e respeitado por diferentes setores – políticos, militares, religiosos. Sua morte abre novo foco de instabilidade em espaço “neutralizado” até 2015, quando findava o mandato. Convocam-se eleições, a serem realizadas em até 90 dias, como manda a Constituição. Muitos pressentem nova fase de perigosa confrontação política. A um povo, às vezes, falta mesmo sorte.

É o que se debate no jantar de despedida oferecido pelo Embaixador. Para esse evento, tradicional e quase protocolar, confraternizamos com os mais significativos amigos locais e estrangeiros, feitos por ocasião do trabalho. A lista começa, naturalmente, com João e Sadjá, diplomatas guineenses, colegas intercambistas no Rio Branco. Johann e Cláudia, da África do Sul; Víctor, da União Européia; Luis, de Angola; Luis Vaz Martins, da Liga Guineense de Direitos Humanos; Alexander e Irina, diplomatas russos; Gorka, o basco da Unesco; o Cônsul da Índia; Iancuba Indjai, conselheiro de Defesa da Presidência, ausente por conta da campanha eleitoral.

Como retribuir as palavras do Embaixador, e as amizades tão marcantes quanto fugazes?Por discrição, o Embaixador pouco foi mencionado nestes relatos. Não seria necessário dizer que eles somente foram possíveis por conta do excelente ambiente de trabalho proporcionado pelo Embaixador. Pelo voto de confiança. Pelo modelo de dedicação e companheirisimo, sempre de portas abertas a todos, o Embaixador. Habilidoso na diplomacia, “cartesiano” no proceder, cordial mesmo nas dificuldades, o Embaixador. Chefe e amigo, o Embaixador Jorge Kadri.

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No feriado de Carnaval, despedimo-nos das ilhas Bijagós. O pouso em Bubaque exige prévio rasante, para alertar as crianças e os animais. De lá, duas horas de lancha até Orango, sobressaltados – assustados – com a maré alta, as ondas, as duchas. No limite do arquipélago, pouco habitada, Orango é a maior das ilhas.

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O vento, selvagem, revolve o mar. Na tabanka de Etinhoque, o Régulo veste os melhores panos em seus improváveis 86 anos. Mostra-nos a escola, em cujas paredes lê-se “A escola é ser alguém na vida”, “A escola é a igualdade”. Leva-nos ao interior do mausoléu da Rainha Okinka Pampa, recordada por negociar com os portugueses no início do século passado. Meninas, crianças, aparecem e correm em nossa direção, abro os braços, mas todas procuram a Diplomatriz.

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Sob mosquiteiros, sonhamos com o dia seguinte. O amanhecer é de flamingos em um banco de areia, alçando voo com a aproximação do barco. Retornamos à costa e ingressamos no rio que leva ao Parque Nacional de Orango, em zigue-zague, rumo ao centro da ilha. Atravessamos manguezais, mato cerrado, percorremos longa trilha na savana, em meio a árvores de onde nos observam ressabiados macacos. Começam a aparecer as marcas de gigantescas pegadas na vegetação.

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Alcançamos a outra tabanka da ilha. Em respeito à tradição, pedimos ao Régulo permissão para avistar os animais. Belmiro, o guia, reitera ser baixa temporada, podemos não ver nada, mas os olhos arregalados da Diplomatriz denunciam a enorme expectativa. Faz muito, muito calor, ele pede silêncio e cuidado, “não se mexam, já volto”. Retorna com um largo sorriso, beijando os dedos, com satisfação, sussurro-grito: “venham, VENHAM VER!”

Na lagoa, os famosos hipopótamos de Orango, treze adultos, dois filhotes, observam-nos, pouco amigáveis. Mergulham, bocejam, abrem as enormes bocas em ruídos de ensurdecer. “Djubi, manga di pis-cavalu”, vem quantos hipopótamos, diz Belmiro. Os “peixes-cavalo” de Orango nadam e andam alguns quilômetros até o mar, toda noite, para que o sal tire as sanguessugas. Contemplamos, em silêncio e estado de gracias.

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A lembrança do retorno é aquela que, no futuro, mais se confundirá com o sonho. Agora na maré baixa, levitamos, deslizamos por um tapete verde-azulado, descobrindo as ilhotas que emergem por algumas horas do dia. Nos canais naturais entre Bubaque e Rubane, todos com nomes portugueses, o barco passeia, sinuoso, observado do banquete de frutos do mar que fazem os pelicanos, gaivotas e tantos outros.

Em Bissau, distúrbios de uma manifestação política causam confronto entre militares e policiais. Nessa época, começamos a embalar a mudança, a fazer as malas, a nos despedir. Reunimos no Auditório do Centro Cultural funcionários e amigos da Embaixada, dos projetos, das comunidades brasileira e guineense.

Entre discursos e agradecimentos, Claudiany avisa que a Suzana, funcionária do Centro, lerá carta dos funcionários do Centro, para a Diplomatriz. À medida que avança a leitura, ela começa a chorar, a chorar a cantos. Incha o rosto, soluça, chora descontroladamente, até que a retiro e levo-a para o toalete. Lá, com alegria, com tristeza, sente o peso do tempo, sente que naquele momento toda a experiência africana, pouco a pouco acumulada, começa a virar memória.

A Diplomatriz partiu no início de março, findada sua licença de trabalho. Levou, como nossa última lembrança, o show de Manecas Costa no Centro Cultural Francês, onde o auditório repleto cantou em coro “n` misti vivi”, “quero viver” (http://www.youtube.com/watch?v=z03Z6JBi0JU). A cada acorde, a sensação de que a saudade destes dias nunca passará. Nadar sob as centenárias mangueiras no fim de tarde. Ela, aprendendo “Bethena” ao piano. A cozinha improvisada, sinfonia de barulhinhos, de sons apaixonados em panelas e frituras, cheiros e temperos, com o “bis” na lavagem-malabarismo no chuveiro. A devoção ao Centro Cultural, a vontade de querer ajudar a todos. A dor de quem se ressente mais das injustiças contra o outro. A Diplomatriz partiu no início de março.

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A cidade passou a viver o clima das eleições. Comícios, músicas de apoio dos principais grupos, discussões sobre o uso da máquina estatal e o financiamento das campanhas. O processo é organizado com apoio da comunidade internacional e coordenado pelo PNUD. A CPLP contribui com técnicos, logística e material de votação, fornecidos por Brasil, Angola e Portugal, respectivamente.

É de esperança o domingo 19 de março de 2012. Romântico eleitoral, passeio pelas ruas e testemunho a vibração das mesas de votação nas esquinas de Bissau Velho. Os cidadãos comemoram, vaiam e fiscalizam a contagem dos votos. As projeções iniciais apontam para segundo turno, e a lisura do

sufrágio é confirmada por todas as missões de observadores – União Africana, CPLP, União Européia, Reino Unido. Cinco candidatos, entretanto, convocam coletiva de imprensa para anunciar que não aceitarão os resultados – quaisquer que sejam.

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Último dia. Desperto, mas não levanto, como se pudesse adiar o início da manhã. Das tantas vidas da carreira, sofro pela iminência da primeira morte. O tempo transcorre a contragosto, ao ritmo de conversas com hora marcada. As últimas brincadeiras com Sampaio, com João, companheiro de todas as horas. Recolho as coisas da sala, desligo o ar condicionado, fecho a janela, ao som de Basimanyana, de Vusi Mahasela. Despeço-me dos funcionários e do Embaixador, preparo-me para partir.

Não, não esqueci da Odete, nha mamé guinensi, minha mãe guineense. Na verdade, foi ela quem se despediu, bem mais cedo. Eu vinha ensaiando todo um discurso, mas Odete entrou às pressas na sala, presenteou-me com um pano de pintche do Amílcar, que decorará futuras casas. “Eduzinhu, nha codé, n` ka gosta di dispidida, ami triste tchiu, misti bai, Deus obrigadu  pa tudu, tudo de bom pra você”, disse, sem olhar. Sem dar chance para resposta, parte decidida, secando as lágrimas com as longas e finas mãos.

Agradeço aos funcionários do hotel, retenho os espaços do quarto, vazio há alguns dias. Victor e Gorka impedem que a espera pelo voo seja demorada, e convidam para uma última cerveja no Bistrô do belga – ánimo, hombre! É lá que me busca Saliu Sabi Sillá. Até o aeroporto, da sala de embarque para o avião, não há mais horas, são todos segundos. Na poltrona ao lado, última das saudáveis coincidências, senta-se Manecas Costa e conta a origem de “Nha Mamé”.

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No dia seguinte, passeio pela feira da Naschmarkt, em Viena, onde se vendem algumas peças de artesanato africano. O ar é de primavera, o ambiente é de absoluta leveza, de absoluta disparidade. Como foi possível viver tantos anos sem conhecer a África, a Guiné?  Repete-se a recordação da decolagem rumo a Lisboa, Bissau distanciando-se com suas poucas luzes, que hoje bastam para identificar desenhos, ilhas, sotaques. E a recordação daquele passo, o último passo antes de entrar no avião, quando a derradeira brisa de Bissau acariciou-me a vida.

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Mudanças

Ontem me mudei. Entrei no apartamento que aluguei em Praga e que, espero, será minha casa pelos próximos três anos.

De frente para o espelho, fui tirando os itens de higiene pessoal da nécessaire e guardando no armarinho do banheiro. Foi aí que caiu a ficha, cheguei! Depois de quase dois meses de malas e quartos de hotéis, tendo de desempacotar e reempacotar tudo a cada par de dias, finalmente tenho, outra vez, um lugar para chamar de casa. Fiquei feliz.

Mudanças fazem parte da minha vida. Como na música da Legião, ‘já morei em tanta casa que nem me lembro mais’.

Mentira. Foram várias, mas lembro de todas.

A mudança mais decisiva da minha vida foi as 12 anos, quando papai foi transferido de São Paulo para Minas Gerais. Eu resisti. ‘E meus amigos, minha rotina e minha vida como é que ficam?’ E foi aí que meu pai me deu uma valiosa lição: ‘mudar faz parte, se você quer ter muitas portas abertas no seu futuro, você precisa ter flexibilidade para aceitar as mudanças.’

No começo foi duro. Mas depois os anos provaram que aquela foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Tive uma adolescência deliciosa no sul de Minas, vivendo de um jeito que não teria sido possível em São Paulo.

Daí pra frente, o resto foi um pulo. De volta pra São Paulo para fazer faculdade, uma temporada nos EUA, Brasília para trabalhar, uma temporada no Chile para estudar, de volta a Brasília e agora República Tcheca! Quem sabe onde ainda vou parar?

Cada casa é uma pele que troco. Minhas casas tiveram muito pouco a ver umas com as outras,  embora todas tivessem, de alguma forma, a minha cara.

Sempre que mudo, procuro carregar comigo o mínimo de coisas possível. Dessa vez, antes de partir, vendi os móveis que tinha para um amigo, vim quase que só com as malas. As coisas não importam. As pessoas importam.

Mas e aí, como faz para deixar as pessoas para trás?

É, essa é a parte mais difícil, mesmo.

Mas, olha, uma coisa que aprendi depois de pingar por aí foi que, para amizade e amor verdadeiros, a distância física é um pequeno detalhe. Ao reencontrar familiares e grandes amigos depois de tempos sem nos ver, sempre sinto como se tivéssemos nos visto no dia anterior.

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