Rapidinhas

Peço um café no Starbucks.
_ Your name, sir? – pergunta a moça do caixa.
Pois é, meu nome é complicado! No Brasil já nem sempre entendem. Acertar a grafia, então… Acostumei-me a responder “Helder-com-agá”, sempre que vão escrever. Fora do Brasil, esquece, se entenderem qualquer coisa já é lucro. Mas, vamos lá, a ver o que sai.
_ It’s ‘Relder’ – nosso R é o H em muitas línguas, ou o J em espanhol. Acho que eles entendem melhor assim do que se eu digo ‘Éuder’, à brasileira — aí me olham perplexos, como se eu estivesse falando uma língua de outro planeta. 
_ Sorry?
_ Rel-der. 
_ Ok.
Ela escreve o nome no copo e passa pra moça que prepara. Logo mais me entregam. Resolvo ler, por curiosidade, pra descobrir como ela se virou. 
“Heldr”. 
É, foi bem. Tchecos, né? Vogais pra quê?

………

Juscelino Kubitschek. Kubitschek, essa sopa de letrinhas, é um nome tcheco. O “itschek”, que aqui se escreve “íček”, é um diminutivo – é o “inho” deles. O “Kub” vem de Jakub. Logo: Jacozinho, Tiaguinho, Iaguinho ou Jaiminho em português.

………

Saindo da academia pro trabalho, chuva fina e vento frio, sem guarda-chuva. Um casal me para e pede informação:
- Excuse, me. The Shoppinnng Palladiummm?
- It’s right there. – aponto.
Não tenho dúvidas.
- Brasileiros? 
- Sim! – Subitamente contentes – Onde é o Shopping Palladium?
- É aquele prédio rosa ali na frente – digo já tentando ir embora, para fugir da chuva e chegar ao trabalho.
- Obrigado! … De qual cidade?
- São Paulo. 
- São Paulo – eles repetem satisfeitos.
Aceno e bato em retirada.
Pois é, conheço minha gente!

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GU x Rollers, o clássico dos clássicos

O futebol de Botsuana – por que não? – também tem o seu “clássico dos clássicos”, ou, como se ouve aqui, “the mother of all derbies”: Township Rollers x Gaborone United. Os dois são times tradicionais de Gaborone: o áureo-cerúleo Rollers foi fundado em 1965, o alvirrubro GU, em 1967. A fundação de clubes de futebol, àquela altura, era mais um produto das grandes transformações por que passava Gaborone, vila empoeirada que deveria rapidamente se tornar cidade, escolhida que foi para ser a capital da República de Botsuana, a que ascendeu em 1966, com a independência, o Protetorado de Bechuanaland, governado pelos britânicos desde Mafeking, na África do Sul.

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O Township Rollers surgiu como clube dos funcionários do “Public Works Department”, sendo o nome “Rollers” uma alusão aos rolos compressores utilizados na construção das ruas de Gaborone . No seu escudo consta também o traçado do novo centro da cidade, cuja edificação estava a cargo daqueles trabalhadores-futebolistas. O Notwane, outro clube tradicional, fundado, como os Rollers, em 1965, apareceu como alternativa menos elitista ao Gaborone Club, clube social frequentado pela comunidade de expatriados que aportavam na futura capital.

GU e Rollers são, juntamente com o Mochudi Centre Chiefs, da vizinha Mochudi, e a BDF XI, de Gaborone, as principais forças do futebol botsuanês. Os Chiefs venceram as duas últimas edições do campeonato nacional, a “Botswana Premier League” (BPL); são um time identificado com a tribo Bakgatla, presente em Botsuana e muito influente na lindeira Província do Noroeste, na África do Sul. BDF XI é o time do exército, a “Botswana Defence Force”; com poucas exceções, seus jogadores são militares, dedicando-se ao futebol quando não estão “on duty”.

Com os Chiefs, Rollers e GU são os mais profissionais entre os times que assim se dizem em Botsuana – a profissionalização do futebol é ainda um “work in progress” no país, razão pela qual deve ser entendida com ressalvas (há poucos dias, jornal local estampava na capa a notícia de que a van dos Chiefs havia sido penhorada, pois a direção não pagara os emolumentos devidos a um feiticeiro que obrava para os sucessos do time). GU e Rollers contam com um homem forte, que lhes proporciona razoável saúde financeira. Possuem sede própria, conquanto lhes falte estádio próprio. Infelizmente, ainda treinam em campos de terra batida.

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O Flamengo de Botsuana, pelo tamanho da sua torcida, os Rollers são também o maior em número de títulos nacionais, tendo triunfado onze vezes na BPL, disputada desde a independência. O GU tem no armário seis troféus do campeonato (um a menos que a BDF XI, segundo maior ganhador).  Grandes em Botsuana, fora das fronteiras não gozam de projeção.

O futebol é, com larga vantagem, o principal esporte de Botsuana. Em 2012, os Zebras, apelido da seleção nacional, alcançaram o maior feito da sua história, a classificação à Copa Africana de Nações, disputada no Gabão e na Guiné-Equatorial. A sensação era de que um novo período do futebol botsuanês se descortinava, no qual os Zebras passariam a ombrear com os grandes do continente. O time, porém, acabou derrotado nas três partidas da fase de grupos, e, desde então, o escrete botsuanês acumula insucessos. Não se classificou para a Copa Africana deste ano, na África do Sul, nem para as “finais” da Copa do Mundo do Brasil (os jogos das eliminatórias são em Botsuana tratados já como jogos de Copa do Mundo). O treinador botsuanês dos Zebras, antes herói pela classificação à Copa Africana, foi não faz muito despedido, imensamente desgastado. Mais do que com a seleção nacional ou os times locais, a vinculação principal do botsuanês médio apreciador do futebol parece ser com a “Premier League” inglesa.

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Em uma quente e nublada tarde de sábado de outubro, em que a tão aguardada pula (chuva, em setsuana) só ameaçou, GU e Rollers duelavam em partida válida pelo primeiro turno da BPL 2013/14. O jogo era disputado no estádio da Universidade de Botsuana, pois o bonito Estádio Nacional – detentor de lugar especial no coração dos botsuaneses, palco da cerimônia de independência – encontrava-se fechado. O GU vinha para o jogo sob pressão, pela fraca campanha no campeonato, e os Rollers, com a esperança de aproximarem-se do topo da tabela.  Recentemente, representantes das duas agremiações compareceram a coquetel oferecido pela Embaixada para abrir exposição de fotos sobre o futebol brasileiro. Em conversa animada, que não sugeria estar-se diante da maior rivalidade do país, o Major Bright, técnico do GU e figura célebre do futebol botsuanês, conhecido tanto pela competência como pela boina que costumeiramente traz à cabeça, discorria sobre o curso para treinadores que frequentara no Brasil; o Sr. Somerset, diretor dos Rollers de fala tranquila, referia-se com orgulho ao seu novo atacante, joia recém-chegada da Namíbia.

O estádio da Universidade, que senta 8 mil pessoas, estava praticamente cheio, rara aglomeração de público em uma país repleto de vazios na paisagem. Aqueles que diziam que os Rollers arrastavam multidões estavam certos: mesmo sendo o GU o mandante,  o estádio vestia-se predominantemente de amarelo e azul. O clássico era um evento de locais, em que, nas conversas, nos cânticos e nos xingamentos, só se ouvia o setsuana. O treinador sérvio dos Chiefs foi facilmente identificado em uma das arquibancadas, espreitando os Rollers, seu adversário da semana seguinte.  O Major Bright, surpreendentemente, não portava a sua boina, mas terno e gravata, sem faltar o escudo do GU sobre o bolso.

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Engajadas no jogo, as duas torcidas participavam, embora não faltassem os personagens exuberantes, estranhamente fantasiados, que, em transe, ficam a cantar e dançar, sem muito se importar com o campo. Os Rollers haviam inaugurado o placar cedo no jogo, pelos pés de Jerome Louis, a joia namibiana do Sr. Somerset, e, com aquele resultado, a possibilidade de o Major Bright perder o emprego, aventada nos jornais, era real.  O jogo já se encontrava nos descontos, e um daqueles personagens, torcedor-profeta dos Rollers, abordava os presentes, apontando para certo trecho da sua bíblia em setsuana, como a dizer que a vitória estava escrita. Nesse instante, foi contradito pelo GU: no apagar das luzes, 1×1, placar final.

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Câmbio

Eis que vou comprar lentes de contato.

_ 3 pares, Sr.?
_ Sim, 3 pares, por favor. Quanto custa?
_ 660.
Fico meio ressabiado. Pô, no Brasil eu pagava quase 200 paus e achava caro! Vamos tentar abater a pancada.
_ Um par só. Sabe como é, não estou acostumado com essa marca, vou testar.

Aí cai a ficha: “660 coroas tchecas! Você não está fazendo o câmbio! Divida por 10 para ter o preço em reais, seu gênio.”

Pois é, cada par de lentes por vinte e poucos reais! Nada mal…

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Índia e Paquistão: a fronteira da meia-noite

Na obra-prima do realismo fantástico indo-britânico, Os filhos da meia-noite, Salman Rushdie narra as desventuras telepáticas de um homem nascido no instante exato da independência indiana, no primeiro minuto de 15 de agosto de 1947. É um rebento de hindus pobres, mas será erroneamente criado por uma rica família muçulmana, pois foi trocado na maternidade. Esse engano original determinará os destinos de Salim Sinai, o protagonista que contém a Índia inteira em si.

Há um equivalente geográfico para a metáfora de Rushdie sobre as identidades tragicamente paradoxais do subcontinente. Trata-se da fronteira de Wagah.

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Não fosse por um acidente histórico, Wagah seria apenas mais um entre os centenas de povoados multicoloridos do Punjab, a fértil província indiana dos cinco rios.

Mas o acidente ocorreu. E continuou ocorrendo, com violenta teimosia.

Graças à partição caótica de 1947 e às guerras fratricidas das décadas posteriores, Wagah é hoje a única passagem aberta nos três mil quilômetros da linha imaginária que une e separa Paquistão e Índia.

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A cada amanhecer, centenas de ônibus e caminhões psicodelicamente decorados percorrem a Grand Trunk Road e atravessam a divisa em Wagah. Transportam gado e gente, badulaques e preciosidades, histórias e lembranças.

A cada anoitecer, porém, Wagah se transforma em palco. Começa um dos espetáculos mais inusitados da política internacional: a extravagante cerimônia militar de fechamento da fronteira indopaquistanesa.

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Os atores dessa ópera bufa são soldados em trajes de gala, medalhas no peito e penugens no cocoruto. Os paquistaneses vestem preto, os indianos marrom. Todos portam barbas ou bigodes imponentes e são pelo menos vinte centímetros mais altos que a média do subcontinente.

Sob as ordens de seus comandantes, os estóicos guardas gesticulam, rosnam, esbravejam, desfilam e chutam o céu. Seus extraordinários passos de ganso são bastante sugestivos para os admiradores de Monty Python.

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O desfile militar é acompanhado com idêntico fervor nas duas metades do anfiteatro geopolítico de Wagah. Mas há diferenças entre as torcidas organizadas dessa final de um campeonato que nunca termina.

Nas arquibancadas indianas, a multidão de espectadores é amorfa: nada separa locais de estrangeiros, mulheres de homens, crianças de idosos, sábios de tolos. Já no lado paquistanês, impera uma rígida divisão por gêneros, e os raros forasteiros são instantaneamente abrigados na fileira VIP.

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Em ambos os lados da linha invisível, eufóricos incentivadores de torcida galvanizam a plateia com gritos-de-guerra patrióticos.

O tradicional e laico Hindustan Zindabad é o favorito dos megafones indianos.

Já o público paquistanês prefere uma profissão de fé: quando o animador lhes pergunta Pakistan ki matlab kiya? (“Qual o significado do Paquistão?”), a resposta é uníssona: La ilaha Illallah! (“Alá é o único deus!”).

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A cerimônia é animada e intensa, mas curta; dura menos de meia hora. Minutos antes do anoitecer, e em perfeita sincronia, a alviverde paquistanesa e a tricolor indiana descem de seus mastros. Os espectadores lentamente retornam a suas casas.

Até a manhã seguinte, não haverá nenhuma fresta aberta para o tráfego entre os dois rivais-irmãos nucleares da Ásia Meridional.

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A cerimônia de Wagah se repete diariamente, quase sem alterações, há pelo menos meio século. Ocasionalmente, a Índia convoca soldadas femininas para fechar a fronteira, o que jamais acontece no outro lado.

O trunfo dos paquistaneses era diferente: um velhíssimo animador de torcidas chamado Mehar Din, pequenino e carismático como um gnomo ufanista. Seu apelido era Chacha Pakistan (“tio Paquistão”). Todo dia, sob sol ou chuva, o cheerleader mais idoso do mundo comparecia a Wagah para agitar fervorosamente a flâmula de um país muito mais jovem que ele próprio. Tornou-se ícone nacional.

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Chacha Pakistan faleceu no ano passado, aos 90 anos. Sua família não tinha dinheiro para interná-lo no hospital de Lahore.

A bandeira que dava sentido a sua vida também lhe serviu de mortalha.

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A última brisa de Bissau

Nota nº 2
Situação na Guiné-Bissau
04/01/2012
O Governo brasileiro acompanhou com preocupação os acontecimentos ocorridos na Guiné-Bissau, em 26 de dezembro de 2011, que provocaram a morte de duas pessoas.
Como país amigo e na qualidade de Presidente da Configuração da Comissão de Construção da Paz (CCP) para a Guiné-Bissau das Nações Unidas, o Brasil tem se coordenado com as autoridades da Guiné-Bissau para promover reformas internas naquele país e colaborar para a superação de seus desafios político-institucionais.
O Governo brasileiro associa-se à União Africana em sua manifestação de apoio à Guiné-Bissau e de engajamento permanente em acompanhar os esforços que visem a consolidar a paz e a estabilidade, além de promover o desenvolvimento sustentável na Guiné-Bissau.
O Governo brasileiro seguirá acompanhando os desdobramentos da situação na Guiné- Bissau, em coordenação com os demais membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e tendo presente a ação da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). 

* * *

A revoada dos flamingos tinge de preto, de rosa, a idílica aurora de Orango. O mar escuro, sonolento de amanecer, recorda seus tons de verde com o nascer do sol. O barco, as lembranças, contornam a praia, adentram o r que, serpente, levará ao coração da ilha.

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* * *

As semanas anteriores não haviam sido fáceis. Adrenalina, tensão, medo. Saliu avisara, a situação não estava “nada boa”: a Fortaleza de Amura, sob ataque; o paradeiro do Primeiro- Ministro e do Chefe das Forças Armadas, desconhecido; o Presidente incomunicável e sob tratamento médico na França. Saliu dirige com cautela, consulta suas fontes, “kal kii kaminhu mais seguro, há barreiras”. Cruzam tropas, patrulhas militares, em direção a Amura.

Bissau, normalmente sonora no início da manhã, prende a respiração, procura saber o que está ocorrendo. Há muito por fazer: informar Brasília e aguardar instruções; manter o alerta na Embaixada; proteger a Diplomatriz – e ainda a Sogra, que desta vez veio pessoalmente defender a filha. Precisamos aconselhar os brasileiros que aqui estão a serviço, manter o fluxo de informações. “Chefe Edu, Brasília tchomau, ligação de Brasília”, diz a Odete. “Secretário, estão perguntando se a situação é grave”, diz a Glória, sobre os brasileiros residentes que telefonam para nosso Setor Consular.

Ouvem-se tiros e explosões esparsas. Odete ajuda a monitorar o ritmo nervoso das rádios, Sampaio fica de prontidão para o envio de telegramas. Assim como outras representações diplomáticas, a Embaixada é cercada por militares, para impedir tentativas de asilo, como explica em Crioulo o soldado que ostenta um lança-foguetes à porta do Centro Cultural. E quem está no comando? Silencia.

Chega o entardecer, esquecidos almoços e amenidades. O Governo eleito retoma o controle e convoca reunião com o Corpo Diplomático. “Eduzinhu, Mariano sta dja na karru, bu misti bai Palácio di Guvernu, reunion di tudu Imbachadores ku Chanceler gora, kinti-kinti”. Saio apressado, não sem antes roubar-lhe umas castanhas torradas.

O toque de recolher é implantado e permanecerá toda a semana. A tensão, também: mais tiros, mais explosões durante as longas noites, perseguições, algumas mortes. O Chefe da Marinha, Bubo Na Tchuto, é preso sob a acusação de liderar os golpistas. Causam apreensão os boatos de um novo ataque, vindo do interior, e com maior intensidade, para libertar Bubo. Na linha de frente da cobertura jornalística, o blog Ditadura do Consenso.

* * *

Como em 2010, cancelamos os ambiciosos planos de Ano Novo. Restaurantes fitchadus, festas canceladas. A circulação é limitada durante a noite, as Forças Armadas mantém alerta máximo. A Diplomatriz e a Sogra improvisam uma ceia, com bravura e não muito sucesso. Se no ano passado o Reveillon foi solitário na Embaixada, neste ano é com a Sogra em um pequeno quarto de hotel… Mas sejamos otimistas!, estamos no mesmo fuso do Reino Unido, coloca aí na Al-Jazeera English, guria, vamos comemorar com as multidões de Londres e Edimburgo, ânimo!

* * *

O Embaixador antecipa o retorno das férias, o que permite um fim de semana de folga. Tomamos a avioneta para Rubane, sob os receosos protestos da Diplomatriz. A destemida Sogra, por outro lado, sorri ao sobrevoar as ilhas, contempla as compactas palmeiras e diz sentir-se o Indiana Jones.

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O estresse, a falta de ar, o nervosismo daqueles dias, tudo desaparece ao despertar no bangalô, ao som da maré. Espreguiço-me na varada à beira d´água, começo a desfrutar do silêncio, do ar puro, quando a Sogra, no bangalô vizinho, grita sucessivos “bons dias”…DSC02966DSC02972

* * *

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* * *

O Presidente Malam Bacai Sanhá falece em Paris. Da etnia mandinga, era considerado fator de estabilidade e respeitado por diferentes setores – políticos, militares, religiosos. Sua morte abre novo foco de instabilidade em espaço “neutralizado” até 2015, quando findava o mandato. Convocam-se eleições, a serem realizadas em até 90 dias, como manda a Constituição. Muitos pressentem nova fase de perigosa confrontação política. A um povo, às vezes, falta mesmo sorte.

É o que se debate no jantar de despedida oferecido pelo Embaixador. Para esse evento, tradicional e quase protocolar, confraternizamos com os mais significativos amigos locais e estrangeiros, feitos por ocasião do trabalho. A lista começa, naturalmente, com João e Sadjá, diplomatas guineenses, colegas intercambistas no Rio Branco. Johann e Cláudia, da África do Sul; Víctor, da União Européia; Luis, de Angola; Luis Vaz Martins, da Liga Guineense de Direitos Humanos; Alexander e Irina, diplomatas russos; Gorka, o basco da Unesco; o Cônsul da Índia; Iancuba Indjai, conselheiro de Defesa da Presidência, ausente por conta da campanha eleitoral.

Como retribuir as palavras do Embaixador, e as amizades tão marcantes quanto fugazes?Por discrição, o Embaixador pouco foi mencionado nestes relatos. Não seria necessário dizer que eles somente foram possíveis por conta do excelente ambiente de trabalho proporcionado pelo Embaixador. Pelo voto de confiança. Pelo modelo de dedicação e companheirisimo, sempre de portas abertas a todos, o Embaixador. Habilidoso na diplomacia, “cartesiano” no proceder, cordial mesmo nas dificuldades, o Embaixador. Chefe e amigo, o Embaixador Jorge Kadri.

* * *

No feriado de Carnaval, despedimo-nos das ilhas Bijagós. O pouso em Bubaque exige prévio rasante, para alertar as crianças e os animais. De lá, duas horas de lancha até Orango, sobressaltados – assustados – com a maré alta, as ondas, as duchas. No limite do arquipélago, pouco habitada, Orango é a maior das ilhas.

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O vento, selvagem, revolve o mar. Na tabanka de Etinhoque, o Régulo veste os melhores panos em seus improváveis 86 anos. Mostra-nos a escola, em cujas paredes lê-se “A escola é ser alguém na vida”, “A escola é a igualdade”. Leva-nos ao interior do mausoléu da Rainha Okinka Pampa, recordada por negociar com os portugueses no início do século passado. Meninas, crianças, aparecem e correm em nossa direção, abro os braços, mas todas procuram a Diplomatriz.

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Sob mosquiteiros, sonhamos com o dia seguinte. O amanhecer é de flamingos em um banco de areia, alçando voo com a aproximação do barco. Retornamos à costa e ingressamos no rio que leva ao Parque Nacional de Orango, em zigue-zague, rumo ao centro da ilha. Atravessamos manguezais, mato cerrado, percorremos longa trilha na savana, em meio a árvores de onde nos observam ressabiados macacos. Começam a aparecer as marcas de gigantescas pegadas na vegetação.

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Alcançamos a outra tabanka da ilha. Em respeito à tradição, pedimos ao Régulo permissão para avistar os animais. Belmiro, o guia, reitera ser baixa temporada, podemos não ver nada, mas os olhos arregalados da Diplomatriz denunciam a enorme expectativa. Faz muito, muito calor, ele pede silêncio e cuidado, “não se mexam, já volto”. Retorna com um largo sorriso, beijando os dedos, com satisfação, sussurro-grito: “venham, VENHAM VER!”

Na lagoa, os famosos hipopótamos de Orango, treze adultos, dois filhotes, observam-nos, pouco amigáveis. Mergulham, bocejam, abrem as enormes bocas em ruídos de ensurdecer. “Djubi, manga di pis-cavalu”, vem quantos hipopótamos, diz Belmiro. Os “peixes-cavalo” de Orango nadam e andam alguns quilômetros até o mar, toda noite, para que o sal tire as sanguessugas. Contemplamos, em silêncio e estado de gracias.

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* * *

A lembrança do retorno é aquela que, no futuro, mais se confundirá com o sonho. Agora na maré baixa, levitamos, deslizamos por um tapete verde-azulado, descobrindo as ilhotas que emergem por algumas horas do dia. Nos canais naturais entre Bubaque e Rubane, todos com nomes portugueses, o barco passeia, sinuoso, observado do banquete de frutos do mar que fazem os pelicanos, gaivotas e tantos outros.

Em Bissau, distúrbios de uma manifestação política causam confronto entre militares e policiais. Nessa época, começamos a embalar a mudança, a fazer as malas, a nos despedir. Reunimos no Auditório do Centro Cultural funcionários e amigos da Embaixada, dos projetos, das comunidades brasileira e guineense.

Entre discursos e agradecimentos, Claudiany avisa que a Suzana, funcionária do Centro, lerá carta dos funcionários do Centro, para a Diplomatriz. À medida que avança a leitura, ela começa a chorar, a chorar a cantos. Incha o rosto, soluça, chora descontroladamente, até que a retiro e levo-a para o toalete. Lá, com alegria, com tristeza, sente o peso do tempo, sente que naquele momento toda a experiência africana, pouco a pouco acumulada, começa a virar memória.

A Diplomatriz partiu no início de março, findada sua licença de trabalho. Levou, como nossa última lembrança, o show de Manecas Costa no Centro Cultural Francês, onde o auditório repleto cantou em coro “n` misti vivi”, “quero viver” (http://www.youtube.com/watch?v=z03Z6JBi0JU). A cada acorde, a sensação de que a saudade destes dias nunca passará. Nadar sob as centenárias mangueiras no fim de tarde. Ela, aprendendo “Bethena” ao piano. A cozinha improvisada, sinfonia de barulhinhos, de sons apaixonados em panelas e frituras, cheiros e temperos, com o “bis” na lavagem-malabarismo no chuveiro. A devoção ao Centro Cultural, a vontade de querer ajudar a todos. A dor de quem se ressente mais das injustiças contra o outro. A Diplomatriz partiu no início de março.

* * *

A cidade passou a viver o clima das eleições. Comícios, músicas de apoio dos principais grupos, discussões sobre o uso da máquina estatal e o financiamento das campanhas. O processo é organizado com apoio da comunidade internacional e coordenado pelo PNUD. A CPLP contribui com técnicos, logística e material de votação, fornecidos por Brasil, Angola e Portugal, respectivamente.

É de esperança o domingo 19 de março de 2012. Romântico eleitoral, passeio pelas ruas e testemunho a vibração das mesas de votação nas esquinas de Bissau Velho. Os cidadãos comemoram, vaiam e fiscalizam a contagem dos votos. As projeções iniciais apontam para segundo turno, e a lisura do

sufrágio é confirmada por todas as missões de observadores – União Africana, CPLP, União Européia, Reino Unido. Cinco candidatos, entretanto, convocam coletiva de imprensa para anunciar que não aceitarão os resultados – quaisquer que sejam.

* * *

Último dia. Desperto, mas não levanto, como se pudesse adiar o início da manhã. Das tantas vidas da carreira, sofro pela iminência da primeira morte. O tempo transcorre a contragosto, ao ritmo de conversas com hora marcada. As últimas brincadeiras com Sampaio, com João, companheiro de todas as horas. Recolho as coisas da sala, desligo o ar condicionado, fecho a janela, ao som de Basimanyana, de Vusi Mahasela. Despeço-me dos funcionários e do Embaixador, preparo-me para partir.

Não, não esqueci da Odete, nha mamé guinensi, minha mãe guineense. Na verdade, foi ela quem se despediu, bem mais cedo. Eu vinha ensaiando todo um discurso, mas Odete entrou às pressas na sala, presenteou-me com um pano de pintche do Amílcar, que decorará futuras casas. “Eduzinhu, nha codé, n` ka gosta di dispidida, ami triste tchiu, misti bai, Deus obrigadu  pa tudu, tudo de bom pra você”, disse, sem olhar. Sem dar chance para resposta, parte decidida, secando as lágrimas com as longas e finas mãos.

Agradeço aos funcionários do hotel, retenho os espaços do quarto, vazio há alguns dias. Victor e Gorka impedem que a espera pelo voo seja demorada, e convidam para uma última cerveja no Bistrô do belga – ánimo, hombre! É lá que me busca Saliu Sabi Sillá. Até o aeroporto, da sala de embarque para o avião, não há mais horas, são todos segundos. Na poltrona ao lado, última das saudáveis coincidências, senta-se Manecas Costa e conta a origem de “Nha Mamé”.

* * *

No dia seguinte, passeio pela feira da Naschmarkt, em Viena, onde se vendem algumas peças de artesanato africano. O ar é de primavera, o ambiente é de absoluta leveza, de absoluta disparidade. Como foi possível viver tantos anos sem conhecer a África, a Guiné?  Repete-se a recordação da decolagem rumo a Lisboa, Bissau distanciando-se com suas poucas luzes, que hoje bastam para identificar desenhos, ilhas, sotaques. E a recordação daquele passo, o último passo antes de entrar no avião, quando a derradeira brisa de Bissau acariciou-me a vida.

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Mudanças

Ontem me mudei. Entrei no apartamento que aluguei em Praga e que, espero, será minha casa pelos próximos três anos.

De frente para o espelho, fui tirando os itens de higiene pessoal da nécessaire e guardando no armarinho do banheiro. Foi aí que caiu a ficha, cheguei! Depois de quase dois meses de malas e quartos de hotéis, tendo de desempacotar e reempacotar tudo a cada par de dias, finalmente tenho, outra vez, um lugar para chamar de casa. Fiquei feliz.

Mudanças fazem parte da minha vida. Como na música da Legião, ‘já morei em tanta casa que nem me lembro mais’.

Mentira. Foram várias, mas lembro de todas.

A mudança mais decisiva da minha vida foi as 12 anos, quando papai foi transferido de São Paulo para Minas Gerais. Eu resisti. ‘E meus amigos, minha rotina e minha vida como é que ficam?’ E foi aí que meu pai me deu uma valiosa lição: ‘mudar faz parte, se você quer ter muitas portas abertas no seu futuro, você precisa ter flexibilidade para aceitar as mudanças.’

No começo foi duro. Mas depois os anos provaram que aquela foi a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Tive uma adolescência deliciosa no sul de Minas, vivendo de um jeito que não teria sido possível em São Paulo.

Daí pra frente, o resto foi um pulo. De volta pra São Paulo para fazer faculdade, uma temporada nos EUA, Brasília para trabalhar, uma temporada no Chile para estudar, de volta a Brasília e agora República Tcheca! Quem sabe onde ainda vou parar?

Cada casa é uma pele que troco. Minhas casas tiveram muito pouco a ver umas com as outras,  embora todas tivessem, de alguma forma, a minha cara.

Sempre que mudo, procuro carregar comigo o mínimo de coisas possível. Dessa vez, antes de partir, vendi os móveis que tinha para um amigo, vim quase que só com as malas. As coisas não importam. As pessoas importam.

Mas e aí, como faz para deixar as pessoas para trás?

É, essa é a parte mais difícil, mesmo.

Mas, olha, uma coisa que aprendi depois de pingar por aí foi que, para amizade e amor verdadeiros, a distância física é um pequeno detalhe. Ao reencontrar familiares e grandes amigos depois de tempos sem nos ver, sempre sinto como se tivéssemos nos visto no dia anterior.

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Brisas de Bissau (26) – Mapeamento (“Secretário, situação não está nada boa”)

não mais
sorriso fugaz
tique-tac nervoso
fugidia linha-de-expressão
esvanecendo-se
feito nuvem
nas entrelinhas
do rosto.
ramifica-se o olhar
agravado em coordenadas
de bissaudosa cartografia:
arquipélago na escala
das mais belas causas perdidas
de memórias sedimentando-se
em leitos de lágrimas
afluentes atalhos
para futuras fisionomias

 

Sob forte aparato de segurança, chega à Embaixada o polêmico Chefe do Estado-Maior da Marinha da Guiné-Bissau, Contra-Almirante Bubo Na Tchuto. Vestindo solene uniforme branco e óculos de sol, Bubo, como é conhecido, tem porte e presença marcantes em seus mais de sessenta anos de idade.

É o mais polêmico dos balantas: combatente da independência; do conflito de 98/99; acusado de tentativa de golpe; exilado na Gâmbia; asilado na sede local da ONU, de onde é retirado por grupo de militares em cinematográfica operação. Há alguns meses, absolvido e nomeado Chefe da Marinha. Solicitou audiência para tratar da formação de efetivos no Brasil, por conta da cooperação no âmbito da CPLP. A reunião em Português, ma nô pudi papiá um bucadinhu na Kriol, Almirante, purblema ka tem!

O silêncio da cidade, vazia neste mês de dezembro, é interrompido pela colega que, tensa, traz café e água. Os copos de cristal, a jarra de vidro, tremem na bandeja de prata. Ao aproximar-se do Almirante, nossa destemida funcionária, talvez nervosa, derruba os copos. Um deles, na mesa de vidro, com desproporcional estrondo. Eu, ela, o assessor de Bubo arregalamos os olhos, em susto – susto de gibi. O Almirante, impassível.

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A Diplomatriz, mais uma vez, faz as malas para encontrar a Sogra na Itália, como faz volta e meia, desfalcando nosso Centro Cultural. Ameacei-a com demissão por justa causa, por abandono das produtivas e reprodutivas funções, mas nada adiantou. Sou voluntária, trabalho pro Brasil e não pra ti, pensou ela, já na pista em direção ao avião.

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Pikininu na tamanhu, garandi na fama, um dos lemas da Guiné-Bissau, conquistado no tempo em que este pequeno país era um dos líderes da descolonização africana. Graças a Amílcar, intelectual guerrilheiro, e a todas as suas guerreiras etnias, ganhou fama, a ponto de apoiar gigantes como Angola na luta contra o colonialismo. Nesses dias, os ânimos voltam a acirrar-se. Voltam a amedrontar a esperança de dar um fim ao viciado círculo de golpes e assassinatos, de contragolpes e ingerências externas.

Depois de quase dois anos construindo castelos de areia, o país já começava a recordar as marés, a reconhecer a fragilidade das páginas do calendário eleitoral. A sentir que a democracia, mesmo que incipiente, implica a progressiva e igualitária distribuição de poder à cidadania. Mas aqui o sistema democrático, sensível por definição, exige malabarismos: equilibrar extrema pobreza e crime organizado, sem deixar cair os consensos.

Um dia, algumas horas, bastariam para voltarmos ao princípio. Mas o novo sucesso de Binham. Turpessa di Sabidu, apregoa o fim dos mecanismos fúnebres de sucessão democrática: chega de fulanu mata fulanu, fulanu subi puder! As rádios tocam, o povo canta em todas as partes, que vai tchomá nomi, vai apontar os que desestabilizaram e desestabilizarão, e que es guverno ka na cai, esse governo não vai cair por mais golpes: ( http://www.youtube.com/watch?v=zNA3w2_U5PI ).

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 Ainda não digitalizada no ritmo asfixiante e invasivo das comunicações atuais, a sensibilidade das ruas permanece oxigenada pela reflexão. Os selvagens instintos sujeitam-se, ainda, ao tempo humano, da lenta multiplicação dos sinais. Quando a mensagem é curtida pelo último dos seguidores, seu significado já foi ponderado – ou esquecido – pelo primeiro. É o paradoxo do boca-a-boca.

É o ambiente político clássico, moderado pela ação ciosa das circunstâncias e pelo ciclo de notícias de mais de 24 horas. A velocidade, aqui, é dos boatos, em espiral. E o ofício da fofoca, esse sim o mais antigo, preocupa e motiva sinais de apoio, com visitas de alto nível. O Vice-Presidente da África do Sul, o Chanceler de Portugal, o Diretor do UNODC, o Embaixador da Índia em Dacar – que dá especial saudação aos Embaixadores dos BRICS.

O Primeiro-Ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, realiza visita oficial, em reaproximação com seus antigos compatriotas da independência, ao som da Super Mama Djombo. Encarregado de Negócios, participo da reunião de Neves com o chamado “Grupo CPLP em Bissau”, ao lado dos Embaixadores de Angola e Portugal. Em despedida, o Primeiro-Ministro é homenageado com jantar de gala no Palácio do Governo, onde encerra seu discurso desejando à Guiné o que diz ser um dos bordões de Cabo Verde: paz suma es na mundo ka tem! (paz como essa não existe no mundo!)

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Na fronteira com o Senegal, o problema é mais antigo. As comunidades de Varela, aqui na Guiné, e da Casamança, do outro lado, discutem com os militares de ambos os lados, com escaramuças frequentes. Os Régulos das tabankas tentam conter os conflitos, pois há quem diga que o limite é fixado pelo Pilar 62, de 1905. Outros defendem que a delimitação correta é dada pelo Pilar 184, fixado em 1888 pelo regime colonial, conforme definido “pela Conferência de Berlim durante a divisão do continente”, como diz o jornal.

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O Brasil, que preside a Comissão de Consolidação da Paz da ONU, na chamada “Configuração para a Guiné-Bissau”, reitera sua presença: a Embaixadora Maria Luiza Viotti visita Bissau, acompanhada dos colegas secretários Juliano e Juliana. O Embaixador dos Estados Unidos, residente em Dacar, também está na cidade, para entrega de Cartas Credenciais, e convida para coquetel na corveta estadunidense que se aproxima do mar territorial da Guiné. Coquetel alterado à última hora, por questões logísticas.

Em Nova Iorque, a Presidenta Dilma Rousseff, em discurso na Assembléia-Geral da ONU, afirma, ao tratar do Conselho de Segurança: “A Guiné Bissau é outro país onde a pobreza e a instabilidade institucional atrapalham a paz. As reformas das quais o país precisa, principalmente nas forças armadas, demandarão decisões corajosas por parte das suas autoridades, mas não podem prescindir de substancial cooperação internacional. Para atingir esses objetivos, a devida atenção deste Conselho pode ser necessária”.

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No blog Ditadura do Consenso, de António Aly Silva, sob o título “Notícia boa”: O Brasil ofereceu hoje ao Secretariado Nacional de Luta Contra o Sida (…) seis toneladas de medicamentos anti-retrovirais. Huco Monteiro, emocionado, agradeceu o apoio e deixou escapar uma feliz revelação: ‘95 por cento dos fármacos usados na Guiné-Bissau, no tratamento ligado ao SIDA, são oferecidos pelo Brasil’. Valeu, caras!”

Como informado pelo mesmo jornalista, o Ministro da Saúde declarou à Rádio ONU que a taxa de soropositividade baixou de 10 para 3%, fruto das campanhas de prevenção, e que o país conta hoje com 70 centros na luta contra o SIDA e com mais 30 para tratamento com anti-retrovirais. Como diz o Aly, como é conhecido, isso “mostra que tanto o Ministério da Saúde como o Secretariado Nacional de Luta Contra o Sida estão a fazer bem o trabalho de casa”.

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Para quem ama, indistintamente, o próximo e os distantes, “os mapas da alma não tem fronteiras”, diz Galeano: “não conheço alegria maior que reconhecer-me nos demais, nas mulheres e homens que são meus compatriotas, nascidos em outras terras”.

 Encontramos, na entrada do Azalai, um ex-funcionário do extinto Palace Hotel, estudioso, esforçado, sempre a pedir livros – a começar pela biografia de Amílcar. Está desempregado, muito magro e com fisionomia exausta, apesar de seus pouco mais de vinte anos. Espere um pouco, kumpanher, já voltamos. A Diplomatriz leva livros, leva roupas, leva uma inócua ajuda. Traz prantos. E chora, chora a cantos.

Retribui as lágrimas dos guineenses que assistiram, numa semana passada, “Jean Charles”, no cinema do Centro Cultural. Reconhecendo-se nos demais, faz perguntas sem resposta, sem solução: será que não vai ser pior se houver desenvolvimento, criando desigualdade, criminalidade?

Era, aliás, a discussão do aquecimento no futebol do sábado, onde quase todos estudaram no Brasil: há desigualdade na Guiné? Olho pela janela. Em frente à Embaixada, um cidadão oferece, a duzentos dólares, um assustado filhote de chimpanzé.

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A Diplomatriz, aliás, está de volta. Desta vez trouxe A Sogra, por estranho que possa parecer a presença dela em Bissau, depois da justificada fúria narrada na primeira destas brisas. Sai a passear pela cidade, a encantar-se de imediato com toda a gente. Tem o ávido olhar de quem se prepara, conscientemente, para uma experiência única. E, como já é notório, ninguém visita o Centro Cultural sem colaborar. A Diplomatriz pede ajuda na catalogação de livros da biblioteca. É serviço pátrio, logo, irrecusável. A Sogra, professora do ensino fundamental, sabe o que faz.

Fim de ano, tempo de férias do Embaixador e de muitos funcionários, tempo de habituar-se novamente à chefia do Posto. Para manter o ritmo, a Diplomatriz colabora na administração, nas comunicações, no arquivamento dos telegramas que chegam de toda parte, especialmente dos colegas da Costa do Marfim, onde a situação piora a cada dia, na roda do infortúnio da África Ocidental. No sábado de Natal, uma improvisada ceia na casa de um amigo espanhol-basco, Gorka, da UNESCO, que também recebe a visita de sua mãe. Na semana que vem, às ilhas…

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Segunda-feira 26, 7h da manhã, a tensa voz de Saliu Sabi Sillá, que ainda ressoa no telefonema: “Secretário, situação não está nada boa”. A Fortaleza de Amura, sede do Estado-Maior das Forças Armadas, está sob ataque. 

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