Relatos de Motocicleta (7) – A palavra como recurso afetivo

Você viu o que nós fizemos hoje? Com quantas pessoas, com quantas questões lidamos? E quantos países estavam envolvidos?! E ainda nos pagam por isso!, contou o Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, sobre o que costumava dizer um antigo chefe. Indicado para nossa representação junto ao Vaticano, recém chegara da sabatina no Senado, cujo resultado foi-lhe comunicado por telefone, em meio à palestra. Ao agradecer a salva de palmas, disse sentir-se contente cada vez que volta ao Rio Branco. Que, vendo-nos, via a si próprio quarenta anos atrás.

Contou histórias de sua passagem por Bonn, Nova Iorque, Buenos Aires, Washington, Paris, Cidade do México, Assessoria Internacional da Presidência da República, Madri, Genebra, Berlim – e ainda teve tempo para ser Secretário-Geral. Surpreendeu uma colega da primeira fila: A senhora… quais são, na sua opinião, os desafios do Brasil no próximo século? Não me lembro bem da resposta, apenas do susto da colega. O Embaixador acabou por ajuda-la, destacando a importância da diversificação da pauta comercial brasileira e de nossas posições na Rodada Doha, da OMC. Se nosso comércio estivesse concentrado em poucos países, estaríamos muito mais vulneráveis à crise financeira que se iniciava.

O Cineclube Rio Branco trouxe “O Engenho de Zé Lins”, documentário sobre a vida de José Lins do Rêgo, expoente do romance regionalista, que retratou o declínio da economia açucareira no Nordeste. O poeta Thiago de Melo, em lágrimas, relata os últimos dias do amigo, um homem que de repente virava um menino, como demonstrou na posse na Academia Brasileira de Letras: assumo a vaga de alguém que chegou ao STF sem ter feito nenhuma lei, e à Academia sem ter escrito um único livro.

Em conversa após o filme, o diretor Vladimir Carvalho brincou que devia ter convocado a imprensa, essa parece uma pré-estreia internacional do meu filme, no saguão conheci moçambicanos, angolanos, gente da Guiné-Bissau! Contou ter escolhido o personagem porque seu pai lia histórias de infância do Zé Lins para mim, mas pegava as histórias verdadeiras, misturava com as do Menino de Engenho, e me transmitia coisas fantásticas, que me deixavam impressionado, como podia um menino fazer coisas como aquelas? É por isso que acho que todo documentário é autobiográfico, o documentarista também está ali, decantado na edição final.

Em mais uma atividade “de campo”, fomos a Santa Maria, cidade-satélite de baixa renda, conhecer dois programas sociais, o Restaurante Popular e o Centro de Referência em Assistência Social. Quando estiverem negociando um acordo em Genebra, sobre compras governamentais, saberão a importância dos investimentos estatais em determinadas áreas; ou na FAO, em Roma, saberão falar de segurança alimentar com conhecimento de causa, disse o Conselheiro Audo Faleiro, diplomata que coordenou a visita.

O almoço, a 1 real, teve cardápio variado e sob orientação de nutricionista, em boas instalações. Logo a seguir, fomos ao Centro de Assistência, localizado em uma escola onde fomos recebidos por umas trinta crianças, tímidas e desconfiadas. Isso até a professora perguntar “o que é que se diz, meninos?”. Responderam aos gritos, aos sorrisos, em uníssono: “BOA TAAARDE!”. Eram todas integrantes do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil.

Atividades extracurriculares como essa ocorriam geralmente à tarde, quando tínhamos espaços na grade horária. O mesmo valia para as palestras de autoridades estrangeiras que estavam de passagem pelo país, como a do Chanceler da Palestina, Riyad al-Maliki. Conforme nota do MRE, o Chanceler esteve no Brasil para avaliar um maior envolvimento nosso no processo de paz com Israel, além de tratar de acordos de cooperação entre o grupo IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) e a Palestina. Apesar da grande preocupação com as eleições que ocorreriam em Israel, as quais condicionariam as negociações, o Chanceler tentou mostrar-se otimista, em impecável Inglês.

Com a proximidade da viagem à Argentina, fomos orientados a criar currículo na rede interna do Ministério, perfil que seria utilizado para os futuros anuários. Todo currículo deve começar com nascimento e nomes dos pais: 14.11.1980 Filho de Paulo Altamir Pereira de Mello e Nadja Maria Brigidi, nasce em Porto Alegre/RS. Na mesma semana foi publicada a portaria que elenca a classificação de postos no exterior: de “A” a “D”, sendo os primeiros países europeus, Estados Unidos, Argentina; e “D” aqueles considerados menos fáceis para viver, como muitos países africanos e asiáticos.

Foi mais ou menos nessa época, quando recém estrearíamos nos assentos funcionais, que dei-me conta de que já se discutiam critérios de promoção; de aumento e apartamento funcional; do tempo necessário para atingir o cargo de Embaixador; das estratégias para conseguir o melhor primeiro posto. A extrema competitividade da carreira começava a fazer vítimas, a gerar frustrações e rivalidades.

Isso em uma profissão – um serviço público – que depende de infinitas e incontroláveis variáveis. A sorte de alguns encontros; a visita de autoridades no posto em que se está servindo; uma crise política que dê visibilidade a quem está naquele país; os partidos que governarão o Brasil nas décadas a seguir. E onde estaremos em cada um dos mandatos, se em Brasília ou no exterior, se em uma divisão que valorizada ou não naquele dado período.

Não é que não fosse importante, desde já. Parecia apenas que a alegria da aprovação, o encantamento com cada uma das novas experiências, o vislumbre da futura vida em diferentes pontos do globo, tudo suplantava o nascente fetichismo burocrático. A fase inicial, de terceiro-secretário, já era incerta, excitante e novedosa o suficiente. Esse era o espírito com que enviava alguns relatos aos ex-colegas do extinto Curso Diplomacia, em Porto Alegre, onde o maior fetichismo era, apenas, tornar-se diplomata.

Porque a ambição que leva ao concurso precisa de uma trégua, mesmo que momentânea. Como explicaria aos ex-colegas que já esquecêramos das aflições pré-provas? Como explicar à Maria, generosa no elogio, e a quem este relato é dedicado? Ao confidenciar que o blog a reanima, capta ela parte de nosso propósito ao iniciar essa experiência.

Ainda que imperfeita, a literatura é outra forma de experiência do real, a encantar-nos desde que nossos pais nos liam histórias para dormir. Para agradecer a ela, que me reanimou da tristeza de ficar aqui falando sozinho, tomo de empréstimo a fala de outro antigo moto-mochileiro, quando escrevia seus diários de motocicleta: en estas precarias condiciones en que viajamos, sólo nos queda como recurso afectivo la palavra.

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Relatos de Motocicleta (6) – A mão invisível

Leio as notas de outubro de 2008. Quase não me reconheço, ao rever os próprios pensamentos. Ao repensá-los. Revisito, nas entrelinhas, as apreensões e ilusões de então – as minhas e as dos colegas. Das colegas, que começavam a enfrentar os dilemas familiares das mulheres diplomatas. É surpreendente o lapidar de opiniões que, se na essência não andavam lá tão mal, hoje parecem quase juvenis. Melhor nem pensar na leitura que farei daqui a alguns anos.

O entusiasmo tinha explicação. Porque o alheamento de fóruns, redes sociais ou conversas sobre a carreira serviu para nada antecipar, deixar tudo para depois de eventual aprovação. Em Porto Alegre, longe das capitais, era mais fácil manter essa distância. Talvez por isso os primeiros meses parecessem, à época, acima das expectativas (que já eram altas). Não deixa de ser um pouco triste ver que diversas coisas do cotidiano já não surpreendem como naqueles dias.

Começamos a entender a lógica da relação entre a política externa e as políticas públicas, entre o MRE e os ministérios. Colegas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio traçaram panorama das políticas sociais e da forma como são implementadas na cooperação com outros países, especialmente na África. Afirmaram que as políticas de transferência condicionada de renda, e seus efeitos na expansão do mercado interno, têm despertado atenção ao redor do mundo.

O Secretário Nacional de Esportes Educacionais apresentou-nos o Programa Segundo Tempo, que utiliza o esporte como fator de inclusão social, além da criação de cooperativas de produção de material esportivo. Visitamos um dos núcleos do programa, uma chácara em Valparaíso de Goiás, onde crianças carentes praticavam desde natação até capoeira (além, claro, do futebol).

A postura de cada um de nós diante das crianças – e da própria visita – indicava mais ou menos claramente a visão de mundo da qual provinha.  Lembro-me particularmente de uma colega, que até então não conhecia, jogando carinhosamente vôlei com um grupo de crianças. De pensar que ela, no futuro, andaria pela África Ocidental! A criançada ria bastante no refeitório e acho que não entendeu muito nossa profissão. Volta e meia saía alguma pérola, ao estilo daquela de um guri nos Andes peruanos, quando perguntei se conhecia algo do Brasil: sí claro, de la escuela… es el país de Ronaldinho, su capital es Brasília, el presidente es Lula, tiene nueve dedos…

A primeira sessão do Cineclube Rio Branco foi iniciativa de dois colegas, um egresso da Medicina, outra do Jornalismo. Assistimos, no Auditório, ao documentário “Josué de Castro, cidadão do mundo”, sobre o autor de “Geografia da Fome” (1946) e ex-presidente do Conselho da FAO. O trabalho de Josué despertou o país para a relação entre fome e desigualdade social, para a fome como resultado de estruturas socialmente construídas. Metade da humanidade não dorme porque tem fome e a outra metade não dorme porque tem medo dos que tem fome, dizia.

Após o filme, debate com o diretor, Silvio Tendler, que enalteceu o papel do MRE na divulgação do cinema nacional. Relação tão importante que o Itamaraty de hoje é cria da Embrafilme!, disse, em tom de brincadeira, ao recordar a passagem do Chanceler e do Secretário Geral pela agência. Segundo ele, Josué de Castro demonstrou, concretamente, as razões da fome, situação que Darcy Ribeiro abordaria com menos tecnicalidade (nossa produção de soja serve para engordar porco no Japão, citou Tendler). O diretor contou estar orgulhoso por Lula ter mencionado Josué no discurso de posse, em 2003, após ter assistido ao documentário.

Visitou o Rio Branco nosso Embaixador de Viena, Julio Cezar Zelner Gonçalves. Ao recordar das dificuldades de iniciar a carreira durante a ditadura, instou-nos a valorizar o amplo espaço de debate do qual desfrutamos. Que tivéssemos em conta, também, a importância alcançada pelo Brasil: chegou à Áustria pela manhã e já no início da tarde apresentara credenciais ao Chanceler; oito dias depois, foi recebido pelo Presidente. “A vida no exterior é Brasil ‘na veia’, é pensar o tempo todo em como melhorar nossa posição”, disse, despedindo-se.

Parte da turma, os cinquenta primeiros colocados no concurso, viajaram ao Rio para a Reunião de Chanceleres Preparatória para a Cúpula América Latina-Caribe (CALC), realizada no Palácio Itamarati. Eu, na zona do rebaixamento, fiquei de fora, profundamente decepcionado, apesar de reconhecer a validade do critério. A maioria dos que foram trabalharia na Cúpula como diplomata de ligação, o “diplig”, elo do MRE com o país respectivo, conforme sorteio ocorrido no Rio Branco. As demais áreas (transporte, cerimonial, imprensa) seriam definidas posteriormente. A colega que foi “diplig” da Bolívia conheceu o Chanceler David Choquehuanca, que ficou contente ao ouvir comentário sobre o significado do desenho de sua jaqueta – a colega prestara devida atenção à palestra sobre cultura aymara.

É o “don de gentes”, ao qual fez menção o Diretor do IRBr, Embaixador Fernando Reis. Tivemos nossa primeira prova, de História das Relações Internacionais, sobre a formação dos países na Bacia do Prata. Nosso time de futebol foi eliminado na primeira fase do torneio do MRE, com um melancólico empate em 2×2. Assistimos ao filme brasileiro “Linha de passe”, drama social, na Academia de Tênis. No Clube das Nações, a festa à fantasia, tradicionalmente oferecida pelos veteranos. Em uma palestra de fim de tarde, o assessor econômico de nossa Embaixada em Washington traçou quadro assustador da crise econômica que se iniciava. Para Luís Fernando Veríssimo, as soluções propostas comprovariam a Primeira Lei do Mercado – quando em dificuldade, peça ajuda ao governo. Poderiam comprovar, também, a “mão invisível” – no bolso do contribuinte.

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Relatos de Motocicleta (5) – A plenos pulmões

Aruskipt’asipxañanakasakipunirakispawa, anota no quadro o professor Juan Yapita, do Instituto de Língua e Cultura Aymara, em palestra sobre as culturas aymara e quéchua na Bolívia. Conhecemos algumas expressões típicas, repetindo entonações com alguma dificuldade. Questionado sobre a grave crise que ameaçava a integridade de seu país naquele ano, Yapita disse que a política não era sua especialidade. Que preferia responder com a máxima já inscrita no quadro: somos todos seres humanos e, portanto, mesmo quando há conflito, devemos sempre nos comunicar.

John Maresca, diplomata americano que serviu em postos no Cáucaso, fala sobre a Geórgia, então em guerra com a Rússia, que nem mesmo Napoleão ou Hitler recomendariam, disse ele. Fora divulgar a Universidade para a Paz, da ONU, sediada na Costa Rica e da qual é Reitor. Esteve acompanhado do Ministro Luiz Dulci, Secretário-Geral da Presidência da República e integrante do conselho da Universidade. Maresca  , A instituição busca estudar a paz com base na ideia de que a mesma deve ser entendida, simultaneamente, como ausência de guerra e de conflitos sociais.

O Chanceler do Sri Lanka chega acompanhado da mais bela delegação que já esteve no Auditório, cingalesas vestidas com sáris de todas as cores, decorados com pedras e penteados preciosos. Falou da importância do Movimento dos Não-Alinhados, da democracia no sudeste asiático, do potencial de seu país, membro da ASEAN, como destino de investimentos brasileiros. Questionado sobre os Tigres Tâmeis, grupo armado, foi categórico, com o típico sotaque do Inglês da região: we don’t negotiate with terrorists. You are the young diplomats que irão construir a relação do Brasil com o Sri Lanka, despediu-se, após consultar seu vistoso e dourado relógio.

O Chanceler da Namíbia, Marco Hausiku, chega anunciado por batedores, pela bandeira de seu país hasteada junto às bandeiras do Brasil e do Mercosul, como estivera a do Sri Lanka. Enfatiza, com a força da voz negra, a emergência “definitiva” das nações do Sul global, bem como as relações bilaterais, as quais têm na cooperação naval um dos exemplos mais bem-sucedidos da cooperação sul-sul. Jovens talentosos, cheios de energia, comprometidos como vocês, estão prontos para transformar o mundo como diplomatas! Da vossa geração dependerá o sentido dessas transformações, disse, antes de partir.

A Professora Béatrice distribui, na aula de Francês, um texto de Paul Claudel. Diplomata francês entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX, atuou em época similar à que nos caberá – redistribuição relativa do poder e conflitos crescentes. Para ele, a diplomacia oferece as lições da “Grande Arte” humana, as de interpretar e de interrogar: o sábio aprendeu a fazer as perguntas corretas; o artista sabe naturalmente fazê-las. E ao diplomata-escritor, como homem de Estado, cabe fazer as proposições justas frente às circunstâncias. Só mesmo com muita perspicácia para conciliar as tantas e velozes divergências da era multipolar.

Sábio e artista, Jim Kelly percebe quando a turma chega aflita pelos desafios da pós-modernidade. Retornei esses dias à sala em que lecionava Inglês, e não vi nada de diferente na decoração. Poderia jurar, porém, que suas aulas ocorriam em um pub no próprio Rio Branco. Ali as aflições de longo prazo eram esquecidas por seus brados de velho irlandês irredento, pelo recital permanente de poesia, pelo tilintar de canecos de chopp entre ele e seus compatriotas Shaw e Yeats, que se juntavam para nos aliviar das aflições do longo prazo. Ainda o ouço – ouvimos – declamar Politics a plenos pulmões, quem sabe recordando alguma paixão de adolescência:

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here’s a travelled man that knows
What he talks about,
And there’s a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war’s alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!

Pela programação que recebêramos, a semana seria normal, apenas com as disciplinas do próprio curso. Tivemos, porém, todas essas surpresas. Antes de partir para o fim de semana, já sem fôlego, segui a regra e dei uma mirada no mural de avisos. Que andava repleto de possibilidades. Em novembro, viagem a Buenos Aires para a Semana do Instituto Rio Branco no ISEN, correspondente argentino do IRBr. Em dezembro, a Cúpula América Latina e Caribe, na Costa do Sauípe, na Bahia, para a qual seriam necessários cem voluntários.

Como, e por que, conter o entusiasmo?

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Relatos de Motocicleta (4) – Um olhar próprio

Pouco antes de deixar Porto Alegre vinha eu sendo vítima de assédio moral, no escritório de advocacia onde trabalhava. O painel da ONU sobre mudança do clima ainda não era consenso, e ninguém poderia imaginar manifestações de massa por melhor transporte público no Brasil. Colegas e chefes faziam troça de meu meio de transporte, a bicicleta, e da complicada logística que a acompanha.  Passei a ser conhecido no escritório como o “advogado-mendigo”. Acabei queixando-me para um frentista, que puxou conversa enquanto enchia os pneus. Deixa pra lá, na Suécia e na Holanda todo mundo só anda de bicicleta, disse ele.

Aquele tempo já parece distante. Brasília ainda demoraria uns anos para ter ciclovias e cultura que estimulassem a prática. A solução foi ficar no meio-termo, entre a bicicleta e o carro. Tirar carteira e aprender a andar de moto, nas largas vias largas da Capital, foi também parte da nova vida. Não deixava, porém, de causar eventuais desconfortos. Como chegar no Instituto e ser visto pelo Secretário-Geral, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, logo na entrada do prédio, com o capacete na mão.

O “SG”, como se diz, chegava para dar sua primeira aula à turma. A expectativa era grande, porque ainda recente a polêmica sobre um suposto “aparelhamento” ideológico da academia diplomática, assunto com grande espaço na imprensa tradicional. Secundado pelas bandeiras do Brasil e do Mercosul, que decoram o Auditório, o SG prometeu que viria semanalmente, para “conhecer melhor” a turma. Afável, convicto e informal, apesar de o garçom do Rio Branco trajar smoking.

Começou dizendo que a política externa, a diplomacia, é uma atividade política – como, aliás, gosta de repetir o Ministro Celso Amorim. Atividade que depende de recursos e da qualidade dos diplomatas, e por isso o Instituto Rio Branco seria fundamental, para dar maior noção de conjunto aos novos integrantes da carreira, que nela ingressam a partir dos mais variados cursos de graduação. Nossa turma tem desde economistas e juristas até farmacêuticos, biólogos e físicos.

O SG discorreu sobre o que chama de estruturas do sistema internacional, conforme seu livro Desafios brasileiros na era dos gigantes. Para ele, a boa diplomacia faz-se pessoalmente, mesmo com o avanço dos meios de comunicação. E, como diz no livro, faz-se sempre em busca da autonomia do país, para uma participação ativa do Brasil na criação e na aplicação de normas internacionais.

E começamos a ligar os pontos. Na semana anterior, Samantha Power recordou a receita de Sergio Vieira de Mello para cultivar amizades: primeiro você precisa aprender a língua. A língua é a chave para a cultura de um povo, e a cultura é a chave para o coração de um povo. Se você forçá-lo a falar a sua língua, nunca conquistará sua simpatia. E eu ali, ansioso por saber quando poderia aplicar a máxima pela primeira vez.

Na saída recebemos três anuários. Três curiosos anuários. Os diplomatas em atividade figuravam no livro azul; os aposentados, no verde; e os falecidos, no laranja. O que definiu a cor de cada um? E essa de entregar lista de colegas que já se foram, para os que recém estão começando? Para afastar a ideia entrei logo em um grupo de voluntários na Divisão de Mecanismos Regionais, para colaborar em um livro para a Cúpula América do Sul-África, em Isla Marguerita, Venezuela.

Cada país deveria enviar vinte obras consideradas fundamentais sobre a respectiva história, e a nós coube organizar todo o material, que deu origem ao livro América do Sul e África: Um olhar próprio – livros para conhecer os dois continentes. Foi a primeira tarefa “oficial” da carreira, valorizada pelo anfitrião da Cúpula, Hugo Chávez, que a celebrou em discurso, brandindo o grande livro que o Lula, que o Itamaraty tinham feito.

Ainda não completáramos um mês no Instituto, e nem sinal do tal “aparelhamento”. Há muito superáramos os silêncios da ditadura, mas as imprevisíveis linhas da carreira faziam com que alguns colegas mantivessem a preferência por não expor opiniões. Porque dali a alguns anos um poderia lembrar o que o outro achava de tal assunto, talvez prejudicando uma promoção, uma remoção. Talvez estivessem certos.

Outro traço digno de análise era o fato de a ala progressista muitas vezes sentir-se menos à vontade para discutir política do que a ala mais conservadora, mesmo sob um presidente de centro-esquerda. Talvez porque quase não se visse, no Rio Branco, indícios de qualquer politização, nem do que o governo dizia ser, nem do que a oposição o acusava – e tampouco do contrário.

Bons eram os tantos colegas que chegavam desarmados, interessados apenas em bem cumprir o serviço público. Não criticavam nada a priori, esperavam o curso natural das coisas para só então formar opinião. Foi na aula do Professor Kelly que um colega causou surpresa, boa surpresa, quando perguntado sobre o que mais gostara naqueles primeiros dias. Disse ele que, depois de tanto ouvir opiniões negativas, ficara grato, ficara satisfeito que o Secretário-Geral das Relações Exteriores fosse lá, semanalmente, conversar com os novos diplomatas.

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Relatos de Motocicleta (3) – Highly Recommended

Há sempre um colega que, pensando no primeiro Posto, sonhando com a primeira promoção, esquece de uma das novas regras de protocolo. Aquela, específica, que manda levantar quando da entrada de Embaixadores e, no caso, dos palestrantes. Samantha Power, futura Representante Permanente dos Estados Unidos junto à ONU, apresenta a biografia de Sergio Vieira de Mello, morto em atentado terrorista no Iraque, e diz ser uma entusiasta do multilateralismo. Já o Embaixador Sérgio Duarte, Alto Representante das Nações Unidas para o Desarmamento, conta das dificuldades das negociações em curso. Bons tempos.

Almoçar no restaurante do Seu Luís, no Rio Branco, é como comer em casa, em família. Filé com fritas. A tarde é de providências, de conhecer a Divisão de Pessoal, não sem antes olhar o mural de avisos, como manda outra regra: 14 dos 115 colegas são altamente recomendados a frequentar a aula de Fluência em Inglês. Highly recommended, já entendi. Ah, essas turmas de 100! Já no Ministério, espero a vez e vejo, intrigado, um livro aberto na entrada. Livro de Partidas e Chegadas, leio, entusiasmado. E de pensar que há quem consiga manter a pose blaseísta diante das listas de assinaturas, datas, nomes por extenso dos que se foram e dos que se vêm. Maputo, Nova Iorque, Ramallah, Dakar, Estocolmo.

Que há quem consiga ser nonchalant diante da expectativa do que começa. Ainda que seja infantil essa saudade de Porto Alegre, essa alegria de American Pie por ter um Hooters no próprio hotel. Essa vontade de narrar, porque incentiva os ex-colegas do Curso Diplomacia. Até porque em breve estarão todos extintos: a saudade, o curso, este eu que vai se conhecendo a cada relato. E nós nessa nova era, em que as antigas máximas da diplomacia já não funcionam mais.

To say nothing, especially when speaking, is half the art of diplomacy? Was, was. Porque agora sempre tem alguém dizendo alguma coisa, especialmente quando está falando. Todos falam demais, aliás. Pessoas, países, empresas, revistas. Ao contrário do que dizem por aí, nós vamos de Gilpin, na disciplina de Economia Política; de Krugman, em Economia Internacional; de Cançado Trindade, em Direito Internacional; de Milton Santos e Harvey, em Análise Socioespacial. De Jim Kelly, em Inglês. Vá lá, não precisa ser highly recommended, mas os colegas dispensados das classes de Inglês acabaram perdendo o privilégio das aulas, da convivência de Mr. Kelly, o aguerrido irlandês.

Ver-se-á, daqui a uns anos, que era possível escrever de forma diferente sobre esses dias. Mas a orquestra do Teatro Nacional toca a Sinfonia n. 6 de Tchaikovsky, e as histórias já se delineiam em cada um, entre cada um de nós. Como um poema épico em estado bruto. Como os colegas que recém se conheceram e em breve terão filhos. Os que servirão juntos no mesmo Posto. Os que se conhecem de vista e um dia dividirão sala na Presidência da República. Ou é tudo devaneio?

Diz Manguel que escrever memórias em primeira pessoa é um exercício de crítica analítica, exibição guiada. O escritor oferece ao leitor pistas sobre a identidade da voz crítica, matizando seu julgamento com circunstâncias, sua opinião com perspectivas. Exercício de testemunho: o escritor, na tribuna, declara o que viu, não com fins de mero registro, mas para dar rosto humano a um incidente que de outro modo se perderia no tempo e no espaço. Exercício de compreensão: o eu é um espelho de nós todos; ressoará em alguma parte da experiência do mundo e, por meio dessa cadeia de revelações pessoais, enriquece cada um de nós.

O eu portoalegrense já não existe. Seus sucessivos sucessores dialogam agora com mais de 115 colegas, porque cada um é mais de um. Antes que tudo se perca no tempo e no espaço, salvemos alguns dos matizes e das perspectivas que viverão sob essas circunstâncias. Antes que nada se salve, exponho-me, espelhado, na tribuna. Mas não se enganem. Sou também reflexo dos que me rodeiam, refletidor do que me rodeia. Porque todo mundo sempre tem algo a dizer, às vezes muito. Ah, essas turmas de cem!

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Relatos de Motocicleta (2) – O instante fugaz de silêncio

Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos (supondo que o ver e o sentir, como em geral os entendemos, sejam algo mais que as palavras com o que nos vem sendo relativamente possível expressar o visto e o sentido…) para um código convencional de signos, a escrita, e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não a integridade da experiência que nos propusemos transmitir (inevitavelmente parcelar em relação à realidade de que se havia alimentado), mas ao menos uma sombra do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o resto de um sonho que o tempo não apagará por completo (dos Cadernos, “Traduzir”, juho de 2009).

Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008, o tão esperado dia da posse. As imagens abstratas da carreira começam a ganhar nitidez no caminho entre o hotel Lakeside e o Palácio Itamaraty. O Palácio do Planalto, o Congresso, a Esplanada dos Ministérios, tudo reforça a tomada de consciência de que é diferente este dia de hoje, início oficial do serviço público. Aqui começam 115 trajetórias que irão interagir em incontáveis combinações.

Um dia que será, no futuro, motivo de certo lamento. A maioria de nós ainda não tem maturidade suficiente para compreender o que esta manhã representa. Porque é sóbria e singela a cerimônia de posse no Auditório Vladimir Murtinho, no subsolo do Palácio. Não poderia ser diferente, até porque seria impossível representar em pouco menos de  duas horas tudo que ora começa. Não poderia ser diferente, mas talvez devesse. Talvez tudo devesse começar com um musical, com uma poesia.

Com o clipe de Elephant Gun, do Beirut: garrafas vazias e ukulele; êxtase e melancolia.

* * *

Dá as boas-vindas o Diretor-Geral do Instituto Rio Branco, Embaixador Fernando Reis. Rapidamente somos chamados, um a um, a desfilar pelo auditório até a assinatura do termo de posse, segundo a sacrossanta ordem de classificação no concurso. Não houve palmas nem discursos, não houve “vivas!”, esclareceram-me depois. Porque me pareceu diferente. Como no 500 Days of Summer, em que Tom finalmente tem sua primeira noite com a mocinha, e é ovacionado, carregado pelas ruas na manhã seguinte.

Discursa o Secretário-Geral das Relações Exteriores, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Ressalta o momento de reafirmação da importância do papel do Brasil na nova era das relações internacionais: se fizermos três listas de países segundo o território, a população e o PIB, somente três países estarão entre os dez primeiros de cada uma dessas três listas: os Estados Unidos, a China e o Brasil. Ouviríamos muitas vezes essa afirmação nas aulas do Rio Branco. Nunca será demais repetir o óbvio em um país onde parte da elite ainda devaneia no século XIX.

É o que diz o busto de San Tiago Dantas, que fiscaliza cada um dos formandos na saída, repetindo o que vem dizendo há tempos, sobre a Política Externa Independente: na origem de cada atitude, na fixação de cada linha de conduta, estava presente uma constante: a consideração exclusiva do interesse do Brasil, visto como um país que aspira (I) ao desenvolvimento e à emancipação econômica e (II) à conciliação histórica entre o regime democrático representativo e uma reforma social capaz de suprimir a opressão da classe trabalhadora pela classe proprietária.

Em plena posse reconheço, na fila da frente, um ex-colega de UFRGS, futuro amigo de todos os fusos. Que nem imagina que voltará a esse espaço, na formatura, para ser o orador da turma.

* * *

Fim de semana no Clube das Nações, à beira do Lago Paranoá. O encantamento juvenil com as histórias dos colegas mais antigos. Voltei de Díli essa semana, estamos cooperando na TV pública deles, com material da Cultura e da Futura, adoram Zezé di CamargoPreciso aproveitar o clube porque tô cotado pra ir pro Azerbaijão em breve… E aí, rapaziada, que saudade dos meus 25 no Rio Branco, estou voltando do Chile, sejam bem-vindos… Na piscina do hotel, Fidalgo, Noivinho e Papa, os três primeiros grandes amigos.

Na segunda-feira, o primeiro dia de aula no Instituto. Construção de 1996, isolada e silenciosa, aberta aos ventos e ao céu. No Auditório Araújo Castro (outro chanceler da PEI, aliás), o Embaixador Fernando Reis transmite o que o Ministério esperam de nós, os “novos colegas”. Apresentam-se os alunos intercambistas: os argentinos Juan e Daniel, do Instituto del Servicio Exterior de la Nación (ISEN); os bissau-guineenses João Insali e Sadjá Mané; o moçambicano José Pedro; o são-tomense Gika Simão; e o timorense Fulgêncio.

Nos dias posteriores, conhecemos os professores das disciplinas eletivas: Política Ambiental Global, Introdução à Ciência Política, Direito dos Tratados, Economia Internacional, Índios e Negros na Formação do Brasil, English Fluency and Accuracy, Análise Sócio-Espacial e Relações Internacionais, Literatura inglesa, Literatura Francesa, Literatura Hispano-Americana, entre outras.

O Conselheiro José Sarquis explica a estrutura do curso, fala da dedicação integral no primeiro semestre, exorta a todos que valorizemos o que a sociedade e o país nos estão proporcionando. Sarah Walker e Susan Casement, professoras de Inglês, aplicam testes de nivelamento. Teste escrito, depois teste oral filmado, um debate com mais dois colegas mineiros. A seguir, prova oral de Francês, com a Professora Béatrice Corrêa do Lago. No fim da tarde, saímos do Auditório e somos recepcionados no saguão pela turma de 2007. O colega moçambicano insiste que devemos conhecer a África.

O Prof. Francisco Doratioto, da cadeira de História das Relações Internacionais do Brasil, autor de “Maldita Guerra”, sobre a Guerra do Paraguai, acompanhado pelo Conselheiro Eugênio Garcia. O Professor pede calma quanto à seca, a cidade ficará belíssima com as chuvas e as flores. Em tom de brincadeira, sugere que desçamos do “pedestal” a que fomos alçados por familiares e amigos, pois aqui somos os mais novos (“são o máximo lá fora, mas aqui dentro são o mínimo”…).

Fala-se em voluntários para uma cúpula regional em dezembro. Quinta-feira, palestra de Samantha Power, assessora de política internacional do candidato Barack Obama e biógrafa de Sérgio Vieira de Mello.

* * *

A distância, que aumentará, ainda não foi assimilada. Fala o personagem: lembro da impaciência com que aguardava, quando jovem, a oportunidade de viajar para o exterior. Sinto dificuldade em acreditar que somos a mesma pessoa, eu e esse rapaz de vinte e poucos anos de idade, que volta e meia me espreita do fundo de nosso passado. O que ganhei em experiência, perdi em inocência. E lido mal com a troca, sinto que me empobreci no processo” (“Um Livro em Fuga”, Edgard Telles Ribeiro).

Let the seasons begin, diz a música.

 

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Relatos de Motocicleta: um albergue nos Andes

Caminho para o mais decisivo momento. Tenho a consciência de que meus passos serão os últimos com essa cadência, com essa expectativa. Pode ser a única chance. Ontem, 8 de Julho de 2008, fora dia de reflexão. Depois desta noite, serei outro – para o bem ou para o mal. Caminhada das mais raras. Sensação de fim de ciclo, de relances para um passado que começa a parecer distante. São quase dez horas da noite.

Sabedores do resultado, cinco amigos esperam no Refugio Alemán, albergue em Farellones, Andes chilenos. Bobinho, Piá, Horácio, Huracán e Muñeco, testemunhas nada ocasionais. Há pouco chegamos do Valle Nevado, eu e um deles, depois de uma irresponsável façanha: com o lift fechado, subimos a pé a montanha que leva do Valle para a estação do Colorado. Duas horas de paciencioso esforço, longas paradas para contemplar o sol que se punha na Cordilheira dos Andes.

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Paradas estratégicas, temerosas do resultado que, em Porto Alegre, ela e a família também já conhecem. Tento imaginar, desenho, na neve ocre das montanhas, o clima de festa – ou de velório. Tempo em que o celular ainda não cortava asas! Por fim, por alívio, alcançamos o topo. Porque o frio intenso paralisa os dedos e transforma o suor em fina camada de gelo. Noite posta, e os joelhos destroçados.

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Mal consigo prestar atenção no que diz meu grande amigo. As ideias são um pêndulo entre o esforço físico e a ciência de que o resultado já existe, de que o destino pode estar definido. Esquiamos sob o luar, até o vilarejo. O vento, o som da neve no silêncio escuro da estação vazia, a percepção plena da solidão e dos sentidos a serem, em breve, determinados. Com botas de snowboard, Huracán adianta-se, para tranquilizar o pessoal de que estamos vivos.

Há pouco, lá em cima, desfrutava do isolamento para fugir destes passos. O albergue, porém, aproxima-se. Será a noite mais alegre, ou um das mais impossíveis de esquecer. Tento diminuir o ritmo, mas o desfecho vem em minha direção, incontornável. Lá estarão eles, “os guri”, à espera. Se a notícia for boa, quero evitar a despedida; se é má, deles dependerei para não sucumbir. Se for boa, imagino que estarão na porta, apesar do frio. Recordarei sempre que uns estavam mais nervosos do que eu próprio, no que foi uma das manifestações mais tocantes de nossa amizade.

Vejo o albergue à direita, e Santiago à frente, lá embaixo, iluminada entre a Cordilheira.

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Ao chegar, nada. Não estão na rua. Não estão na porta. Não estão na grande sala envidraçada. Tampouco estão na lareira. Sumiram. Mal consigo caminhar, de cansaço e medo. O único que vejo é Bobinho, no computador, com a inseparável cerveja. Tem cara de quem sabe algo, cara que nunca conseguiu disfarçar desde que o vi nascer.

Os passos e a respiração são, agora, em câmera lenta. Como tudo ao redor. O pálpavel pavor da notícia. A lareira a crepitar em doloroso tic-tac. A neve a derreter nas botas. Uma dúzia de pares de luvas, postas a secar, a acenar sobre o fogo.

O suor, porém, é cada vez mais gélido. Quero desviar o olhar, mas não há para onde fugir. “Bah, Bobinho, nem sabe a loucura que fizemos, nós–”… “já sei, já sei, subiram a montanha a pé, baita mentira, já sei”… “pois é, meu, e daí–”… “Huracán já contou tudo, cabeça, tu quer saber o resultado ou não?”, “ah, já saiu, é?…”, “saiu, quer que eu te conte ou quer olhar aqui na internet?”.

Ele nunca conseguira guardar segredo sem gaguejar, e desta vez parecia convincente. Semblante fechado, que me faz fraquejar as pernas. Tento sentar-me, já não controlo o nervosismo. “Na… não deu… então?”… Cabeça baixa entre as mãos, primeira – e única! – lágrima a caminho, quando ele resolve dar fim à encenação: “Não. Tu passou, tu passou, já era, Edu!”.

Desorientado, sem força nem para xingá-lo, levanto a cabeça e já não sei se não se trata de mais uma sacanagem deles. É quando surgem os demais, tinham armado tudo. Cumprimentam, empurram, “pode chorar, cabeça, não é vergonha!”. Engasgado, não consigo dizer nada, só quero ficar sozinho, preciso sair daqui. “Precisamos tirar uma foto, cabeça, vamos lá!”. A bela e loira aeromoça da TAM é a fotógrafa. [Nota do Administrador do Blog às respectivas: a aeromoça é de verdade, mas, fugaz figurante, fez apenas essa ponta].

Sigo mudo, contento-me, contendo-me. Dou as costas, vou saindo. A tortura psicológica dos “amigos”, até nessa hora. O filme da carreira imaginada passando várias décadas em poucos segundos. A linha de raciocínio que se ramifica e cria frases entrecontadas. Tudo isso exige um descanso. Ainda ouço Muñeco falando, todos rindo,“deixa o cara, deixa o chorão”… Viro e mando todos pra puta que os pariu.

* * *

O barulho do chuveiro turbina o choro. Penso nas renúncias, nas certas e nas possíveis, nos filhos e netos espalhados, no fim da vida em Porto Alegre. Os amigos, que passam a ter controle sobre meu cartão de crédito até o final da viagem, oferecem cerveja pra todo albergue, que acaba por buscar mais no hotel vizinho. Sinuca com reggae. Telefonema da mãe e dela. Santiago brilha lá embaixo.

Em pouco mais de um mês começa o Rio Branco.

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