Relatos de Motocicleta (5) – A plenos pulmões

Aruskipt’asipxañanakasakipunirakispawa, anota no quadro o professor Juan Yapita, do Instituto de Língua e Cultura Aymara, em palestra sobre as culturas aymara e quéchua na Bolívia. Conhecemos algumas expressões típicas, repetindo entonações com alguma dificuldade. Questionado sobre a grave crise que ameaçava a integridade de seu país naquele ano, Yapita disse que a política não era sua especialidade. Que preferia responder com a máxima já inscrita no quadro: somos todos seres humanos e, portanto, mesmo quando há conflito, devemos sempre nos comunicar.

John Maresca, diplomata americano que serviu em postos no Cáucaso, fala sobre a Geórgia, então em guerra com a Rússia, que nem mesmo Napoleão ou Hitler recomendariam, disse ele. Fora divulgar a Universidade para a Paz, da ONU, sediada na Costa Rica e da qual é Reitor. Esteve acompanhado do Ministro Luiz Dulci, Secretário-Geral da Presidência da República e integrante do conselho da Universidade. Maresca  , A instituição busca estudar a paz com base na ideia de que a mesma deve ser entendida, simultaneamente, como ausência de guerra e de conflitos sociais.

O Chanceler do Sri Lanka chega acompanhado da mais bela delegação que já esteve no Auditório, cingalesas vestidas com sáris de todas as cores, decorados com pedras e penteados preciosos. Falou da importância do Movimento dos Não-Alinhados, da democracia no sudeste asiático, do potencial de seu país, membro da ASEAN, como destino de investimentos brasileiros. Questionado sobre os Tigres Tâmeis, grupo armado, foi categórico, com o típico sotaque do Inglês da região: we don’t negotiate with terrorists. You are the young diplomats que irão construir a relação do Brasil com o Sri Lanka, despediu-se, após consultar seu vistoso e dourado relógio.

O Chanceler da Namíbia, Marco Hausiku, chega anunciado por batedores, pela bandeira de seu país hasteada junto às bandeiras do Brasil e do Mercosul, como estivera a do Sri Lanka. Enfatiza, com a força da voz negra, a emergência “definitiva” das nações do Sul global, bem como as relações bilaterais, as quais têm na cooperação naval um dos exemplos mais bem-sucedidos da cooperação sul-sul. Jovens talentosos, cheios de energia, comprometidos como vocês, estão prontos para transformar o mundo como diplomatas! Da vossa geração dependerá o sentido dessas transformações, disse, antes de partir.

A Professora Béatrice distribui, na aula de Francês, um texto de Paul Claudel. Diplomata francês entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX, atuou em época similar à que nos caberá – redistribuição relativa do poder e conflitos crescentes. Para ele, a diplomacia oferece as lições da “Grande Arte” humana, as de interpretar e de interrogar: o sábio aprendeu a fazer as perguntas corretas; o artista sabe naturalmente fazê-las. E ao diplomata-escritor, como homem de Estado, cabe fazer as proposições justas frente às circunstâncias. Só mesmo com muita perspicácia para conciliar as tantas e velozes divergências da era multipolar.

Sábio e artista, Jim Kelly percebe quando a turma chega aflita pelos desafios da pós-modernidade. Retornei esses dias à sala em que lecionava Inglês, e não vi nada de diferente na decoração. Poderia jurar, porém, que suas aulas ocorriam em um pub no próprio Rio Branco. Ali as aflições de longo prazo eram esquecidas por seus brados de velho irlandês irredento, pelo recital permanente de poesia, pelo tilintar de canecos de chopp entre ele e seus compatriotas Shaw e Yeats, que se juntavam para nos aliviar das aflições do longo prazo. Ainda o ouço – ouvimos – declamar Politics a plenos pulmões, quem sabe recordando alguma paixão de adolescência:

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here’s a travelled man that knows
What he talks about,
And there’s a politician
That has read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war’s alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms!

Pela programação que recebêramos, a semana seria normal, apenas com as disciplinas do próprio curso. Tivemos, porém, todas essas surpresas. Antes de partir para o fim de semana, já sem fôlego, segui a regra e dei uma mirada no mural de avisos. Que andava repleto de possibilidades. Em novembro, viagem a Buenos Aires para a Semana do Instituto Rio Branco no ISEN, correspondente argentino do IRBr. Em dezembro, a Cúpula América Latina e Caribe, na Costa do Sauípe, na Bahia, para a qual seriam necessários cem voluntários.

Como, e por que, conter o entusiasmo?

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Relatos de Motocicleta (4) – Um olhar próprio

Pouco antes de deixar Porto Alegre vinha eu sendo vítima de assédio moral, no escritório de advocacia onde trabalhava. O painel da ONU sobre mudança do clima ainda não era consenso, e ninguém poderia imaginar manifestações de massa por melhor transporte público no Brasil. Colegas e chefes faziam troça de meu meio de transporte, a bicicleta, e da complicada logística que a acompanha.  Passei a ser conhecido no escritório como o “advogado-mendigo”. Acabei queixando-me para um frentista, que puxou conversa enquanto enchia os pneus. Deixa pra lá, na Suécia e na Holanda todo mundo só anda de bicicleta, disse ele.

Aquele tempo já parece distante. Brasília ainda demoraria uns anos para ter ciclovias e cultura que estimulassem a prática. A solução foi ficar no meio-termo, entre a bicicleta e o carro. Tirar carteira e aprender a andar de moto, nas largas vias largas da Capital, foi também parte da nova vida. Não deixava, porém, de causar eventuais desconfortos. Como chegar no Instituto e ser visto pelo Secretário-Geral, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, logo na entrada do prédio, com o capacete na mão.

O “SG”, como se diz, chegava para dar sua primeira aula à turma. A expectativa era grande, porque ainda recente a polêmica sobre um suposto “aparelhamento” ideológico da academia diplomática, assunto com grande espaço na imprensa tradicional. Secundado pelas bandeiras do Brasil e do Mercosul, que decoram o Auditório, o SG prometeu que viria semanalmente, para “conhecer melhor” a turma. Afável, convicto e informal, apesar de o garçom do Rio Branco trajar smoking.

Começou dizendo que a política externa, a diplomacia, é uma atividade política – como, aliás, gosta de repetir o Ministro Celso Amorim. Atividade que depende de recursos e da qualidade dos diplomatas, e por isso o Instituto Rio Branco seria fundamental, para dar maior noção de conjunto aos novos integrantes da carreira, que nela ingressam a partir dos mais variados cursos de graduação. Nossa turma tem desde economistas e juristas até farmacêuticos, biólogos e físicos.

O SG discorreu sobre o que chama de estruturas do sistema internacional, conforme seu livro Desafios brasileiros na era dos gigantes. Para ele, a boa diplomacia faz-se pessoalmente, mesmo com o avanço dos meios de comunicação. E, como diz no livro, faz-se sempre em busca da autonomia do país, para uma participação ativa do Brasil na criação e na aplicação de normas internacionais.

E começamos a ligar os pontos. Na semana anterior, Samantha Power recordou a receita de Sergio Vieira de Mello para cultivar amizades: primeiro você precisa aprender a língua. A língua é a chave para a cultura de um povo, e a cultura é a chave para o coração de um povo. Se você forçá-lo a falar a sua língua, nunca conquistará sua simpatia. E eu ali, ansioso por saber quando poderia aplicar a máxima pela primeira vez.

Na saída recebemos três anuários. Três curiosos anuários. Os diplomatas em atividade figuravam no livro azul; os aposentados, no verde; e os falecidos, no laranja. O que definiu a cor de cada um? E essa de entregar lista de colegas que já se foram, para os que recém estão começando? Para afastar a ideia entrei logo em um grupo de voluntários na Divisão de Mecanismos Regionais, para colaborar em um livro para a Cúpula América do Sul-África, em Isla Marguerita, Venezuela.

Cada país deveria enviar vinte obras consideradas fundamentais sobre a respectiva história, e a nós coube organizar todo o material, que deu origem ao livro América do Sul e África: Um olhar próprio – livros para conhecer os dois continentes. Foi a primeira tarefa “oficial” da carreira, valorizada pelo anfitrião da Cúpula, Hugo Chávez, que a celebrou em discurso, brandindo o grande livro que o Lula, que o Itamaraty tinham feito.

Ainda não completáramos um mês no Instituto, e nem sinal do tal “aparelhamento”. Há muito superáramos os silêncios da ditadura, mas as imprevisíveis linhas da carreira faziam com que alguns colegas mantivessem a preferência por não expor opiniões. Porque dali a alguns anos um poderia lembrar o que o outro achava de tal assunto, talvez prejudicando uma promoção, uma remoção. Talvez estivessem certos.

Outro traço digno de análise era o fato de a ala progressista muitas vezes sentir-se menos à vontade para discutir política do que a ala mais conservadora, mesmo sob um presidente de centro-esquerda. Talvez porque quase não se visse, no Rio Branco, indícios de qualquer politização, nem do que o governo dizia ser, nem do que a oposição o acusava – e tampouco do contrário.

Bons eram os tantos colegas que chegavam desarmados, interessados apenas em bem cumprir o serviço público. Não criticavam nada a priori, esperavam o curso natural das coisas para só então formar opinião. Foi na aula do Professor Kelly que um colega causou surpresa, boa surpresa, quando perguntado sobre o que mais gostara naqueles primeiros dias. Disse ele que, depois de tanto ouvir opiniões negativas, ficara grato, ficara satisfeito que o Secretário-Geral das Relações Exteriores fosse lá, semanalmente, conversar com os novos diplomatas.

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Relatos de Motocicleta (3) – Highly Recommended

Há sempre um colega que, pensando no primeiro Posto, sonhando com a primeira promoção, esquece de uma das novas regras de protocolo. Aquela, específica, que manda levantar quando da entrada de Embaixadores e, no caso, dos palestrantes. Samantha Power, futura Representante Permanente dos Estados Unidos junto à ONU, apresenta a biografia de Sergio Vieira de Mello, morto em atentado terrorista no Iraque, e diz ser uma entusiasta do multilateralismo. Já o Embaixador Sérgio Duarte, Alto Representante das Nações Unidas para o Desarmamento, conta das dificuldades das negociações em curso. Bons tempos.

Almoçar no restaurante do Seu Luís, no Rio Branco, é como comer em casa, em família. Filé com fritas. A tarde é de providências, de conhecer a Divisão de Pessoal, não sem antes olhar o mural de avisos, como manda outra regra: 14 dos 115 colegas são altamente recomendados a frequentar a aula de Fluência em Inglês. Highly recommended, já entendi. Ah, essas turmas de 100! Já no Ministério, espero a vez e vejo, intrigado, um livro aberto na entrada. Livro de Partidas e Chegadas, leio, entusiasmado. E de pensar que há quem consiga manter a pose blaseísta diante das listas de assinaturas, datas, nomes por extenso dos que se foram e dos que se vêm. Maputo, Nova Iorque, Ramallah, Dakar, Estocolmo.

Que há quem consiga ser nonchalant diante da expectativa do que começa. Ainda que seja infantil essa saudade de Porto Alegre, essa alegria de American Pie por ter um Hooters no próprio hotel. Essa vontade de narrar, porque incentiva os ex-colegas do Curso Diplomacia. Até porque em breve estarão todos extintos: a saudade, o curso, este eu que vai se conhecendo a cada relato. E nós nessa nova era, em que as antigas máximas da diplomacia já não funcionam mais.

To say nothing, especially when speaking, is half the art of diplomacy? Was, was. Porque agora sempre tem alguém dizendo alguma coisa, especialmente quando está falando. Todos falam demais, aliás. Pessoas, países, empresas, revistas. Ao contrário do que dizem por aí, nós vamos de Gilpin, na disciplina de Economia Política; de Krugman, em Economia Internacional; de Cançado Trindade, em Direito Internacional; de Milton Santos e Harvey, em Análise Socioespacial. De Jim Kelly, em Inglês. Vá lá, não precisa ser highly recommended, mas os colegas dispensados das classes de Inglês acabaram perdendo o privilégio das aulas, da convivência de Mr. Kelly, o aguerrido irlandês.

Ver-se-á, daqui a uns anos, que era possível escrever de forma diferente sobre esses dias. Mas a orquestra do Teatro Nacional toca a Sinfonia n. 6 de Tchaikovsky, e as histórias já se delineiam em cada um, entre cada um de nós. Como um poema épico em estado bruto. Como os colegas que recém se conheceram e em breve terão filhos. Os que servirão juntos no mesmo Posto. Os que se conhecem de vista e um dia dividirão sala na Presidência da República. Ou é tudo devaneio?

Diz Manguel que escrever memórias em primeira pessoa é um exercício de crítica analítica, exibição guiada. O escritor oferece ao leitor pistas sobre a identidade da voz crítica, matizando seu julgamento com circunstâncias, sua opinião com perspectivas. Exercício de testemunho: o escritor, na tribuna, declara o que viu, não com fins de mero registro, mas para dar rosto humano a um incidente que de outro modo se perderia no tempo e no espaço. Exercício de compreensão: o eu é um espelho de nós todos; ressoará em alguma parte da experiência do mundo e, por meio dessa cadeia de revelações pessoais, enriquece cada um de nós.

O eu portoalegrense já não existe. Seus sucessivos sucessores dialogam agora com mais de 115 colegas, porque cada um é mais de um. Antes que tudo se perca no tempo e no espaço, salvemos alguns dos matizes e das perspectivas que viverão sob essas circunstâncias. Antes que nada se salve, exponho-me, espelhado, na tribuna. Mas não se enganem. Sou também reflexo dos que me rodeiam, refletidor do que me rodeia. Porque todo mundo sempre tem algo a dizer, às vezes muito. Ah, essas turmas de cem!

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Relatos de Motocicleta (2) – O instante fugaz de silêncio

Escrever é traduzir. Sempre o será. Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos (supondo que o ver e o sentir, como em geral os entendemos, sejam algo mais que as palavras com o que nos vem sendo relativamente possível expressar o visto e o sentido…) para um código convencional de signos, a escrita, e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não a integridade da experiência que nos propusemos transmitir (inevitavelmente parcelar em relação à realidade de que se havia alimentado), mas ao menos uma sombra do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível, por exemplo, a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta, esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o resto de um sonho que o tempo não apagará por completo (dos Cadernos, “Traduzir”, juho de 2009).

Sexta-feira, 15 de Agosto de 2008, o tão esperado dia da posse. As imagens abstratas da carreira começam a ganhar nitidez no caminho entre o hotel Lakeside e o Palácio Itamaraty. O Palácio do Planalto, o Congresso, a Esplanada dos Ministérios, tudo reforça a tomada de consciência de que é diferente este dia de hoje, início oficial do serviço público. Aqui começam 115 trajetórias que irão interagir em incontáveis combinações.

Um dia que será, no futuro, motivo de certo lamento. A maioria de nós ainda não tem maturidade suficiente para compreender o que esta manhã representa. Porque é sóbria e singela a cerimônia de posse no Auditório Vladimir Murtinho, no subsolo do Palácio. Não poderia ser diferente, até porque seria impossível representar em pouco menos de  duas horas tudo que ora começa. Não poderia ser diferente, mas talvez devesse. Talvez tudo devesse começar com um musical, com uma poesia.

Com o clipe de Elephant Gun, do Beirut: garrafas vazias e ukulele; êxtase e melancolia.

* * *

Dá as boas-vindas o Diretor-Geral do Instituto Rio Branco, Embaixador Fernando Reis. Rapidamente somos chamados, um a um, a desfilar pelo auditório até a assinatura do termo de posse, segundo a sacrossanta ordem de classificação no concurso. Não houve palmas nem discursos, não houve “vivas!”, esclareceram-me depois. Porque me pareceu diferente. Como no 500 Days of Summer, em que Tom finalmente tem sua primeira noite com a mocinha, e é ovacionado, carregado pelas ruas na manhã seguinte.

Discursa o Secretário-Geral das Relações Exteriores, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Ressalta o momento de reafirmação da importância do papel do Brasil na nova era das relações internacionais: se fizermos três listas de países segundo o território, a população e o PIB, somente três países estarão entre os dez primeiros de cada uma dessas três listas: os Estados Unidos, a China e o Brasil. Ouviríamos muitas vezes essa afirmação nas aulas do Rio Branco. Nunca será demais repetir o óbvio em um país onde parte da elite ainda devaneia no século XIX.

É o que diz o busto de San Tiago Dantas, que fiscaliza cada um dos formandos na saída, repetindo o que vem dizendo há tempos, sobre a Política Externa Independente: na origem de cada atitude, na fixação de cada linha de conduta, estava presente uma constante: a consideração exclusiva do interesse do Brasil, visto como um país que aspira (I) ao desenvolvimento e à emancipação econômica e (II) à conciliação histórica entre o regime democrático representativo e uma reforma social capaz de suprimir a opressão da classe trabalhadora pela classe proprietária.

Em plena posse reconheço, na fila da frente, um ex-colega de UFRGS, futuro amigo de todos os fusos. Que nem imagina que voltará a esse espaço, na formatura, para ser o orador da turma.

* * *

Fim de semana no Clube das Nações, à beira do Lago Paranoá. O encantamento juvenil com as histórias dos colegas mais antigos. Voltei de Díli essa semana, estamos cooperando na TV pública deles, com material da Cultura e da Futura, adoram Zezé di CamargoPreciso aproveitar o clube porque tô cotado pra ir pro Azerbaijão em breve… E aí, rapaziada, que saudade dos meus 25 no Rio Branco, estou voltando do Chile, sejam bem-vindos… Na piscina do hotel, Fidalgo, Noivinho e Papa, os três primeiros grandes amigos.

Na segunda-feira, o primeiro dia de aula no Instituto. Construção de 1996, isolada e silenciosa, aberta aos ventos e ao céu. No Auditório Araújo Castro (outro chanceler da PEI, aliás), o Embaixador Fernando Reis transmite o que o Ministério esperam de nós, os “novos colegas”. Apresentam-se os alunos intercambistas: os argentinos Juan e Daniel, do Instituto del Servicio Exterior de la Nación (ISEN); os bissau-guineenses João Insali e Sadjá Mané; o moçambicano José Pedro; o são-tomense Gika Simão; e o timorense Fulgêncio.

Nos dias posteriores, conhecemos os professores das disciplinas eletivas: Política Ambiental Global, Introdução à Ciência Política, Direito dos Tratados, Economia Internacional, Índios e Negros na Formação do Brasil, English Fluency and Accuracy, Análise Sócio-Espacial e Relações Internacionais, Literatura inglesa, Literatura Francesa, Literatura Hispano-Americana, entre outras.

O Conselheiro José Sarquis explica a estrutura do curso, fala da dedicação integral no primeiro semestre, exorta a todos que valorizemos o que a sociedade e o país nos estão proporcionando. Sarah Walker e Susan Casement, professoras de Inglês, aplicam testes de nivelamento. Teste escrito, depois teste oral filmado, um debate com mais dois colegas mineiros. A seguir, prova oral de Francês, com a Professora Béatrice Corrêa do Lago. No fim da tarde, saímos do Auditório e somos recepcionados no saguão pela turma de 2007. O colega moçambicano insiste que devemos conhecer a África.

O Prof. Francisco Doratioto, da cadeira de História das Relações Internacionais do Brasil, autor de “Maldita Guerra”, sobre a Guerra do Paraguai, acompanhado pelo Conselheiro Eugênio Garcia. O Professor pede calma quanto à seca, a cidade ficará belíssima com as chuvas e as flores. Em tom de brincadeira, sugere que desçamos do “pedestal” a que fomos alçados por familiares e amigos, pois aqui somos os mais novos (“são o máximo lá fora, mas aqui dentro são o mínimo”…).

Fala-se em voluntários para uma cúpula regional em dezembro. Quinta-feira, palestra de Samantha Power, assessora de política internacional do candidato Barack Obama e biógrafa de Sérgio Vieira de Mello.

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A distância, que aumentará, ainda não foi assimilada. Fala o personagem: lembro da impaciência com que aguardava, quando jovem, a oportunidade de viajar para o exterior. Sinto dificuldade em acreditar que somos a mesma pessoa, eu e esse rapaz de vinte e poucos anos de idade, que volta e meia me espreita do fundo de nosso passado. O que ganhei em experiência, perdi em inocência. E lido mal com a troca, sinto que me empobreci no processo” (“Um Livro em Fuga”, Edgard Telles Ribeiro).

Let the seasons begin, diz a música.

 

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Relatos de Motocicleta: um albergue nos Andes

Caminho para o mais decisivo momento. Tenho a consciência de que meus passos serão os últimos com essa cadência, com essa expectativa. Pode ser a única chance. Ontem, 8 de Julho de 2008, fora dia de reflexão. Depois desta noite, serei outro – para o bem ou para o mal. Caminhada das mais raras. Sensação de fim de ciclo, de relances para um passado que começa a parecer distante. São quase dez horas da noite.

Sabedores do resultado, cinco amigos esperam no Refugio Alemán, albergue em Farellones, Andes chilenos. Bobinho, Piá, Horácio, Huracán e Muñeco, testemunhas nada ocasionais. Há pouco chegamos do Valle Nevado, eu e um deles, depois de uma irresponsável façanha: com o lift fechado, subimos a pé a montanha que leva do Valle para a estação do Colorado. Duas horas de paciencioso esforço, longas paradas para contemplar o sol que se punha na Cordilheira dos Andes.

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Paradas estratégicas, temerosas do resultado que, em Porto Alegre, ela e a família também já conhecem. Tento imaginar, desenho, na neve ocre das montanhas, o clima de festa – ou de velório. Tempo em que o celular ainda não cortava asas! Por fim, por alívio, alcançamos o topo. Porque o frio intenso paralisa os dedos e transforma o suor em fina camada de gelo. Noite posta, e os joelhos destroçados.

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Mal consigo prestar atenção no que diz meu grande amigo. As ideias são um pêndulo entre o esforço físico e a ciência de que o resultado já existe, de que o destino pode estar definido. Esquiamos sob o luar, até o vilarejo. O vento, o som da neve no silêncio escuro da estação vazia, a percepção plena da solidão e dos sentidos a serem, em breve, determinados. Com botas de snowboard, Huracán adianta-se, para tranquilizar o pessoal de que estamos vivos.

Há pouco, lá em cima, desfrutava do isolamento para fugir destes passos. O albergue, porém, aproxima-se. Será a noite mais alegre, ou um das mais impossíveis de esquecer. Tento diminuir o ritmo, mas o desfecho vem em minha direção, incontornável. Lá estarão eles, “os guri”, à espera. Se a notícia for boa, quero evitar a despedida; se é má, deles dependerei para não sucumbir. Se for boa, imagino que estarão na porta, apesar do frio. Recordarei sempre que uns estavam mais nervosos do que eu próprio, no que foi uma das manifestações mais tocantes de nossa amizade.

Vejo o albergue à direita, e Santiago à frente, lá embaixo, iluminada entre a Cordilheira.

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Ao chegar, nada. Não estão na rua. Não estão na porta. Não estão na grande sala envidraçada. Tampouco estão na lareira. Sumiram. Mal consigo caminhar, de cansaço e medo. O único que vejo é Bobinho, no computador, com a inseparável cerveja. Tem cara de quem sabe algo, cara que nunca conseguiu disfarçar desde que o vi nascer.

Os passos e a respiração são, agora, em câmera lenta. Como tudo ao redor. O pálpavel pavor da notícia. A lareira a crepitar em doloroso tic-tac. A neve a derreter nas botas. Uma dúzia de pares de luvas, postas a secar, a acenar sobre o fogo.

O suor, porém, é cada vez mais gélido. Quero desviar o olhar, mas não há para onde fugir. “Bah, Bobinho, nem sabe a loucura que fizemos, nós–”… “já sei, já sei, subiram a montanha a pé, baita mentira, já sei”… “pois é, meu, e daí–”… “Huracán já contou tudo, cabeça, tu quer saber o resultado ou não?”, “ah, já saiu, é?…”, “saiu, quer que eu te conte ou quer olhar aqui na internet?”.

Ele nunca conseguira guardar segredo sem gaguejar, e desta vez parecia convincente. Semblante fechado, que me faz fraquejar as pernas. Tento sentar-me, já não controlo o nervosismo. “Na… não deu… então?”… Cabeça baixa entre as mãos, primeira – e única! – lágrima a caminho, quando ele resolve dar fim à encenação: “Não. Tu passou, tu passou, já era, Edu!”.

Desorientado, sem força nem para xingá-lo, levanto a cabeça e já não sei se não se trata de mais uma sacanagem deles. É quando surgem os demais, tinham armado tudo. Cumprimentam, empurram, “pode chorar, cabeça, não é vergonha!”. Engasgado, não consigo dizer nada, só quero ficar sozinho, preciso sair daqui. “Precisamos tirar uma foto, cabeça, vamos lá!”. A bela e loira aeromoça da TAM é a fotógrafa. [Nota do Administrador do Blog às respectivas: a aeromoça é de verdade, mas, fugaz figurante, fez apenas essa ponta].

Sigo mudo, contento-me, contendo-me. Dou as costas, vou saindo. A tortura psicológica dos “amigos”, até nessa hora. O filme da carreira imaginada passando várias décadas em poucos segundos. A linha de raciocínio que se ramifica e cria frases entrecontadas. Tudo isso exige um descanso. Ainda ouço Muñeco falando, todos rindo,“deixa o cara, deixa o chorão”… Viro e mando todos pra puta que os pariu.

* * *

O barulho do chuveiro turbina o choro. Penso nas renúncias, nas certas e nas possíveis, nos filhos e netos espalhados, no fim da vida em Porto Alegre. Os amigos, que passam a ter controle sobre meu cartão de crédito até o final da viagem, oferecem cerveja pra todo albergue, que acaba por buscar mais no hotel vizinho. Sinuca com reggae. Telefonema da mãe e dela. Santiago brilha lá embaixo.

Em pouco mais de um mês começa o Rio Branco.

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“Pyongyang Honeymoon” ou O Poder da Banalidade Doméstica

Observação preliminar: Todos os pontos de vista apresentados neste artigo refletem unicamente a opinião do autor. Nenhuma das afirmações, portanto, pode ou deve ser tomada como sendo representativa de posições oficiais.  Quem quer que não consiga compreender essa sutileza sofre de grave dissonância cognitiva e a estes – sejam eles blogueiros ou jornalistas mal-intencionados – eu recomendo fortemente o procedimento da lobotomia.  

O Grande Líder é grande mesmo

Eduardo Siebra, em 24/09/2014 (ano 103 do Calendário Juchê)

Coloquemos da seguinte forma: se eu tivesse chegado à Coreia do Norte sem jamais ter ouvido algo a seu respeito, certamente teria saído de lá com uma impressão muito negativa. Porém, como desde que me entendo por gente escuto coisas horrorosas sobre o país, seus governantes e seu povo, tenho que admitir que encontrei em Pyongyang algo muito diferente do que esperava encontrar.

Decidi ir para lá porque, infelizmente, o Brasil ainda não possui embaixada em Marte. Algumas pessoas entram na diplomacia porque querem ter uma vida boa e morar perto de um lugar onde possam ter acesso fácil a bons croissants e queijos fedorentos. Eu, como venho de uma cidade com tão alto nível civilizatório como o Crato – onde se encontra grande provisão de todas as comodidades mundanas e transcendentais – escolhi essa profissão não pelos brioches, mas por desejar viver uma experiência de alteridade.

Quis ir à Coreia do Norte, portanto, por supor que lá eu encontraria uma realidade radicalmente diferente de tudo a que eu estava acostumado. Esperava encontrar alienígenas, ou pelo menos os habitantes robóticos de uma distopia orwelliana. Claro, não sou desumano a ponto de ter me tornado um turista do horror: o que me motivava não era uma curiosidade mórbida pelo alardeado sofrimento do povo coreano, mas sim o desejo semi-antropológico de compreender a insistência desse país em fazer tudo do jeito que faz.

Posso aqui confessar perante as testemunhas do plano material e astral: o que mais me surpreendeu na minha curta passagem pelo Reino Ermitão foi a banalidade da vida cotidiana que testemunhei nas ruas. Sabem aquelas fotos mostrando largas avenidas cinzentas, sem nenhum carro ou pedestre, e apenas uma intimidadora – mas charmosa – guardinha de trânsito severamente observando o tempo passar? É tudo mentira! Pyongyang é uma cidade cheia de vida – ou, o que dá no mesmo, cheia de gente! E as policiais de trânsito gatinhas trabalham pra caramba, sem jamais perder a pose!

É claro, as crianças estão todas com os uniformes da União dos Pioneiros Socialistas. Os homens estão indo trabalhar vestidos em ternos Mao Zedong. As mulheres desfilam em comportados tailleurs – ou naquelas horrorosas roupas tradicionais coreanas (que cometem o imperdoável pecado de esconder os corpos de algumas das mais belas mulheres da Ásia do Leste). Mas tirando isso, e tirando os carros de boi, os veículos militares saídos diretamente de um filme de época, e a enorme profusão de soldados socialistas – todos prontos a causar as mais terríveis dores de cabeça a eventuais invasores imperialistas que cometessem o erro de tentar ocupar esse bravo e teimoso país – a vida parece seguir normalmente, como em qualquer outro lugar.

Que a verdade seja dita: em Pyongyang não há toque de recolher. Tudo bem, a noite é um breu, porém isso não impede que verdadeira multidão caminhe pelas ruas – totalmente indiferentes ao risco de serem atropelados pelos motoristas que quase não os conseguem enxergar naquele escuro. Também não vi soldados apontando suas metralhadoras para uma população assustada: vi muitas crianças em idade escolar (algumas com quatro, cinco anos) caminhando sozinhas, sem o menor receio de serem vítimas de qualquer forma de violência. Vi grupos de jovens universitários andando animadamente, conversando sobre assuntos que com toda certeza eram da mais absoluta frivolidade. E vi gente dando risada com alguma piada que alguém havia contado.

Não quero, aqui, dar uma de estrangeiro desavisado e ingênuo, e minimizar o peso do que é a vida num Estado como a Coreia do Norte. Talvez mesmo que tentasse eu não pudesse compreender a pressão psicológica que sofrem pessoas que são submetidas, desde a infância, a uma mobilização completa dos sentimentos e do imaginário político. Também não posso dizer que eu tenha conhecido a Coreia do Norte real, já que minha vivência esteve limitada à capital (onde eu podia me locomover livremente, desacompanhado por guias coreanos) e alguns pontos turísticos no interior. Tenho plena consciência de que permaneci nas partes mais simpáticas do país, e também de que não me foi permitido ir muito fundo na compreensão da vida do cidadão comum.

Porém, posso garantir que o pouco que eu vi não foi uma encenação. Os velhinhos não estavam sendo pagos pelo governo para brincar com seus netinhos nas ruas – e, assim, transmitir uma boa impressão aos eventuais turistas que passassem por ali. Os jovens realmente ocupavam os espaços públicos de lazer, e acho pouco razoável dizer que as partidas de vôlei que eu vi eram apenas mais uma sessão de doutrinação socialista por meio da cultura física. O que acontece é que os norte-coreanos são pessoas como nós, e o mero fato de eles viverem num regime que tenta, de todas as formas, desenvolver seu senso de fervor patriótico e sua capacidade de heroísmo não os torna menos simpáticos à ideia de levarem uma vida tranquila e de se divertirem. Talvez eles apenas não possam, como nós, declarar abertamente essa sua inclinação.

São pessoas que vão à escola, que fazem amigos, que namoram, que se preocupam com seus familiares, exatamente como acontece em qualquer outro lugar do mundo. Agora, claro, desde a pré-escola o norte-coreano é exposto, de todas as formas e por todos os meios, à doutrinação da ideologia juchê. No feriado nacional, eles têm que levar flores para a estátua de seus adorados líderes, e todo sábado eles participam de sessões de “estudos políticos”. Muito frequentemente o coreano tem de participar de mobilizações coletivas, tais como cerimônias patrióticas, deslocamentos ao interior para ajudar os camponeses durante a época da colheita de arroz, ou, pior de tudo, excruciantes sessões coletivas de cortar a grama dos espaços públicos usando uma mera tesourinha. Certamente é um povo que trabalha duro, e que está submetido, em média, a esforços e privações físicas muito mais severas do que as que estamos acostumados a ver nos países ditos liberais (e vamos, aqui, em deferência ao bom gosto pequeno-burguês, deixar de lado a complexa mas pertinente discussão sobre a condição dos miseráveis nos países ditos “livres”) . Porém, no tempo que lhes resta, os coreanos estão fazendo coisas banais: passeando com seus bebês pendurados nas costas, tomando soju com os colegas de trabalho, comendo kimchi e contando piadas. Talvez a verdade seja que não dá para simplesmente abolir a dimensão doméstica da vida e impor um estado permanente de fervor ideológico – ainda que seja exatamente isso o que desejam exigir de seus camaradas alguns dos líderes do país.

Esse deslumbramento que experimentei em Pyongyang acontece com diversos estrangeiros que chegam pela primeira vez à cidade. Ele tem até um apelido na comunidade de expatriados: Pyongyang Honeymoon. Há vários fatores que o explicam.

1: A cidade é bonita. Como ela foi arrasada pelos bombardeios americanos durante a Guerra da Coreia, os arquitetos socialistas puderam criar sua cidade-modelo praticamente do zero. Algumas pessoas chegam a dizer que Pyongyang é a única capital 100% socialista do planeta. E embora se possa questionar o bom gosto de alguns de seus monumentos, não há como não admitir que o desenho da capital é impressionante. Seu traçado evoca a todo instante um ideal de grandeza e de heroísmo, mas sem sobrecarregar os espaços públicos com a parafernália socialista (eu diria até que eles, a seu modo, têm lá seu senso de sobriedade). As ruas são largas e arborizadas, há várias praças nas margens dos rios que cortam a cidade e as opções de lazer para a população não são poucas (incluindo parques de diversão, espetáculos circenses, parques aquáticos, boliches, etc). Especialmente deslumbrante é a visão da Torre Juchê iluminada à noite – uma enorme tocha vermelha tremeluzindo em meio às trevas da cidade, eternamente inspirando o povo coreano com o ideal de autossuficiência (vi alguns jovens que iam ao monumento à noite para estudar, não sei se para absorver emanações inspiradoras, não sei se porque a torre é um dos únicos locais permanentemente iluminados da capital coreana, onde os apagões são uma realidade diária).

2: Como já observei, os estrangeiros que chegam a Pyongyang costumam esperar algo muito pior. A quebra de expectativa tem, pelo menos nos primeiros meses, um efeito favorável na opinião do visitante a respeito do lugar. Isso costuma mudar à medida que o tempo vai passando, e à medida que o estrangeiro vai sentindo com mais intensidade os efeitos do severo isolamento a que ele está condenado quando vive na cidade (apenas alguns coreanos credenciados têm plena liberdade de conversar com pessoas de fora, e, por causa da paranoia do regime, mesmo estes não ousariam desenvolver laços muito estreitos com alguém que, em última instância, poderia se mostrar um espião a serviço dos imperialistas ou, pior ainda, um repórter da Veja).

3: Pyongyang é uma cidade que claramente está em transformação. Quando comparada ao que era há quatro anos, a capital parece, segundo o relato dos estrangeiros que a conheceram no passado e no presente, uma cidade muito mais agradável, e com muito mais opções de entretenimento. Embora seja cedo para julgar o significado da chegada do novo líder ao poder, o impacto dessa mudança é visível nas ruas. Há muito mais carros circulando pelas avenidas hoje do que havia a apenas alguns anos atrás. As pessoas parecem se vestir com roupas mais coloridas e casuais (muitas delas fabricadas na China) e a quantidade de restaurantes, supermercados e outros empreendimentos privados é cada vez maior. Para o observador de fora, é excitante ver essas mudanças acontecendo, uma vez que elas evocam a possibilidade de um futuro melhor para o país e seus habitantes. A classe média coreana está crescendo, como uma erva daninha nos jardins do socialismo.

4: O povo coreano é simpático. Não esqueçamos que os do norte são os mesmos que os do sul – tão amados por sua meiguice quase cafona e sua inclinação ao miguxo way of life. As crianças norte-coreanas, em especial, são umas gracinhas. Elas ficam boquiabertas quando avistam nas ruas essas criaturas de cabelos coloridos, olhos redondos e terríveis barbas e narizes! As mais audazes se aproximam e arriscam, com um sotaque extremamente carregado: “– Helooooooo!” Os adultos, também, demonstram muita curiosidade, e fica muito claro pela sua expressão que, se eles pudessem, seriam muito mais calorosos e francos com essas aberrações vindas de fora. Muitos membros da comunidade de expatriados em Pyongyang desenvolvem, ao longo do tempo, intensa antipatia pelos cidadãos do país, uma vez que é muito difícil estabelecer qualquer relação mais próxima e sincera com um habitante local. Porém esse preconceito desconsidera a delicada situação em que vivem os norte-coreanos: como esperar um comportamento franco de alguém que está sendo vigiado pelos seus pares? Sabe-se que a polícia norte-coreana conta com a ajuda de verdadeiro exército de informantes civis, que não hesitariam em delatar comportamentos suspeitos de um potencial traidor. (E não nos precipitemos em julgar o povo coreano como covarde pela sua disposição em denunciar vizinhos reacionários: eles são desde cedo educados a isso, e em sua mentalidade, identificar um potencial inimigo do regime é um dever cívico, mesmo que esse dever possa significar a desgraça de seu vizinho…)

Também é preciso notar que a Pyongyang honeymoon é fruto de uma experiência restrita à capital. A Coreia do Norte tem pouco mais de 20 milhões de habitantes. Em Pyongyang vivem umas 3 milhões de pessoas – incluindo aí praticamente toda a elite política do país. É uma cidade-vitrine, que não reflete as reais condições de vida no campo. Estima-se que um grande percentual das crianças norte-coreanas, em especial aquelas que vivem nas zonas rurais, ainda estejam subnutridas. As condições de saúde e de moradia nas regiões mais ermas são incomparavelmente piores. Ouvi relatos de estrangeiros que tiveram oportunidade de ir ao interior do país – para acompanhar a implementação dos programas de ajuda humanitária – sobre pessoas que eram obrigadas a trabalhar de sol a sol, ao ensurdecedor barulho de alto-falantes que repetiam incessantemente mensagens de doutrinação política. Não quero nem imaginar o que aconteça no nordeste do país – na terrivelmente gélida região onde se acredita que existam as prisões políticas. A Coreia do Norte não é um passeio para os seus cidadãos, e posso garantir que eles são as principais vítimas do sistema que ainda vigora no país.

Ainda assim, acho que essa inesperada simpatia que senti por Pyongyang (e que muitos outros estrangeiros também sentem) é significativa. Por um lado, ela mostra que o relato comumente transmitido sobre a Coreia do Norte pelos meios de comunicação ocidentais é, se não mal-intencionado, pelo menos tendencioso ou desinformado. As condições certamente não se comparam às do sul da península, mas a cidade nem de longe se assemelha ao inferno pintado pelos adversários do regime. Por outro lado, entender que os norte-coreanos são pessoas normais como nós torna inevitável uma importante e esclarecedora questão: por que, então, eles continuam seguindo esse caminho de isolamento e confrontação, que os leva a serem um país com uma das piores reputações do mundo?

A Coreia do Norte, de fato, ocupa no imaginário ocidental o papel do antagonista. Ela é o oposto da imagem que nossa banda do mundo usa para se definir, ou seja, por negação, o país ajuda até mesmo a delinear a própria identidade ocidental. Projetam-se nele todos os pecados aos quais não se gostaria de estar associado, ou seja, as características de um “vilão” ou “psicopata” – alguém sem nenhuma consideração pelo sofrimento dos outros, inclusive pelo sofrimento do próprio povo.

Será que é tão simples? Ainda que possa haver alguma verdade nesse relato, não seria o caso de nos perguntarmos o que leva alguém a se tornar um “vilão”?

Muitos são os norte-coreanos que ficam sinceramente chocados quando descobrem que são vistos no exterior como uma espécie de criminosos. Eles mesmos se consideram um povo heroico – que lutou bravamente contra a dominação estrangeira e que até hoje está tentando afirmar seu espaço de sobrevivência num meio internacional incrivelmente hostil. Não esqueçamos que quando o país foi criado, o comunismo ainda parecia uma boa ideia – em especial para um povo que havia acabado de sair de um regime feudal, seguido pela truculenta ocupação japonesa. Os guerrilheiros coreanos que primeiro aderiram ao movimento certamente estavam inspirados por nobres ideais. O fervor com que eles abraçaram a causa socialista se explica pelo fato de eles realmente acreditarem que estavam cumprindo uma missão patriótica.

A história subsequente é bem conhecida. A realidade não se conformou bem ao sonho utópico de uma sociedade sem classes, e os que começaram sendo os bem-intencionados guias da marcha rumo à igualdade acabaram por se tornar uma nova casta dominante que se viu subitamente diante da terrível contradição de, por um lado, não serem capazes de realizar as promessas de prosperidade antecipadas por sua ideologia e, por outro, de não poderem reverter o processo revolucionário em nome dessa almejada prosperidade, sob pena de serem eles mesmos aniquilados durante a queda do regime vigente. Eles se tornaram, num certo sentido, reféns de um monstro que eles mesmos criaram – e que em mais de uma ocasião gerou a desgraça dos próprios membros dessa elite política (nos assustadores expurgos tão comuns à prática stalinista). E a partir de então eles foram para sempre amaldiçoados pela necessidade de ter que perseguir duramente todos os que tivessem a audácia de cometer a suprema transgressão: dizer a verdade, admitir que o paraíso prometido talvez não fosse assim tão bom…

Longe de mim justificar os atos que já foram praticados em nome da estabilidade do regime ou da perpetuação do ideal revolucionário. Que cada violência cometida contra outro ser humano, independente das motivações políticas subjacentes, esteja para sempre associada não apenas à memória do sistema que o provocou, mas também à de seu autor, da pessoa que individualmente foi o veículo desse mal. Porém acho importante – inclusive como forma de auto-policiamento – tentar compreender que tipo de contexto histórico pode criar uma situação em que inofensivos burocratas se tornam cúmplices de violências legitimadas.

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“O Socialismo também quer lascar você!”

Mais do que uma criação de demônios sanguinários, a Coreia do Norte talvez seja o trágico desfecho de um processo histórico que deu errado. Esse país só foi possível, em primeiro lugar, por causa do delicado equilíbrio de poder que se seguiu à II Guerra Mundial e, em segundo, por causa do que eu definiria como uma espécie de curto-circuito cultural – o florescimento de uma concepção de vida que se mostrou problemática por ter perdido sua conexão com o real, a partir do momento em que a afirmação do ideal utópico tornou-se mais importante do que a sóbria avaliação de seus resultados face aos fatos. Repito: admitir isso não exime ninguém de suas responsabilidades, porém joga uma nova luz sobre as motivações que podem ter levado tantas pessoas a enveredar por esse caminho manchado de vermelho. Aconteceu com elas não porque elas fossem más (o que talvez seja o caso apenas em um ou outro exemplo de criminalidade política intencional e patológica), mas porque aquele contexto histórico favorecia esse tipo de conduta em pessoas normais.

E quem de nós seria presunçoso a ponto de julgar, de forma peremptória, que nós mesmos nos comportaríamos de forma diferente se estivéssemos num contexto parecido? Podemos até nos imaginarmos corajosos, quando estamos longe de constrangimentos como os que se aplicam à vida deles. É fácil demais julgar, no conforto de nossa mediocridade.

Foi essa a intuição fundamental que tive nesse misterioso país. O regime norte-coreano, embora possa ter engendrado o que parece, à consciência ocidental, aberrações políticas, não suprimiu a alma das pessoas. Elas são tão humanas como nós, apenas reagindo a estímulos diferentes. E acho realmente fabuloso perceber que o aspecto da vida que talvez tenha se preservado de forma mais intacta esteja no nível do banal. Na dimensão pública, acho que é justo dizer que a liberdade do homem coreano foi cerceada de diversas formas. Ainda assim – e contra todas as expectativas – os seres humanos preservam suas pequenas e tacanhas aspirações de comer bem, viver com conforto e relacionar-se com um belo exemplar do gênero oposto.

Foi eu vi com meus próprios olhos. Depois de meio século de um regime autoritário, depois da guerra, depois da fome, os habitantes da última utopia stalinista viva ainda brincam com seus filhos no parque, fazem piquenique à beira do rio e jogam vôlei com os amigos. Claro que não são todos os coreanos que efetivamente têm a liberdade de se ocupar tão agradavelmente, mas, por mais duro que sejam as condições presentes, não posso deixar de me sentir otimista quando penso que esses desejos ainda possam estar vivos nos corações de tantos. George Orwell, apesar de suas intuições geniais, talvez tenha errado nesse ponto: os líderes não podem ter controle absoluto. Os totalitarismos políticos de nossa era podem aniquilar, com seu terrível maquinário, toda resistência política e todo livre pensamento. Mas eles não podem substituir de forma definitiva as satisfações e tranquilidades que só podem ser encontradas no espaço doméstico.

Bendita seja a realidade, e bendito seja o povo coreano. Que o futuro traga melhores dias para suas crianças.

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A marcha dos socialistas rumo ao futuro.

 

Nota: Para o caso de alguém ter uma curiosidade insaciável, a versão completa deste texto (com argumentos que não ousei publicar aqui) pode ser lida em meu blog pessoal: Todos os Problemas do Mundo.

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Visita a Fukushima

19 de junho. O Japão ainda estava na Copa, mas nem por isso havia qualquer animação no J-Village, como é conhecido o centro de treinamento da seleção. Inaugurada em 1997, a Granja Comary dos japoneses tem instalações de primeiríssima linha, mas a última vez que os “Samurais Azuis” treinaram por lá foi pra Copa da África do Sul. Em março de 2011, o local foi transformado numa espécie de acampamento-base avançado pra quem ia ou vinha de Fukushima.

A 23 km da usina, o J-Village está na porta de entrada da zona de exclusão, a região a menos de 20 km de Fukushima-I, que teve que ser completamente abandonada em razão da radiação. Sua localização é ainda mais conveniente pois está bem no caminho de Tóquio, de onde vêm bombeiros, técnicos, engenheiros, equipamentos, ordens e… diplomatas estrangeiros, como o grupo que a Tokyo Electric Power Company (TEPCO) decidiu levar pra ver a usina naquela quinta-feira.

Depois de 2h30 de trem desde Tóquio e mais 40 minutos de ônibus, fomos recebidos no J-Village pelo vice-presidente a quem a TEPCO confiou a hercúlea tarefa de desmantelar a usina e tornar a região habitável novamente – trabalho pra mais de 40 anos. Ele começou nos pedindo desculpas pelo transtorno causado desde 2011 e, encarnando a ética samurai, afirmou querer dedicar o resto de sua vida à revitalização da região para, assim quem sabe, voltar a ver o sorriso no rosto dos amigos que fizera quando fora gerente de Fukushima-II (usina vizinha à acidentada Fukushima-I).

Depois dessas e de outras explicações, tomamos o ônibus rumo à usina e logo estávamos na zona de exclusão. Primeiro na parte mais externa, onde os níveis de radiação já recuaram um pouco, e é permitido entrar, mas não residir. Alguns moradores já vão ajeitando as casas, não tão destruídas (o tsunami não chegou a essa estrada), mas castigadas por três anos de abandono. Têm a expectativa de poder voltar pra casa em breve, seguindo os passos dos residentes de Tamura (um vilarejo mais a oeste), que, em abril, foram os primeiros dos 100 mil “refugiados nucleares” a voltar pra casa desde o acidente.

Mais um pouco e chegamos no centro da zona de exclusão, onde ainda está em vigor a ordem de evacuação. Só entram veículos autorizados, que, surpreendentemente, não são poucos: há mais de 5 mil operários trabalhando na usina, todos levados diariamente do J-Village por ônibus da TEPCO. Fora da nossa estrada, porém, o tempo parece ter parado há 3 anos, e o abandono é denunciado pelas casas vazias e campos de arroz tomados pelo mato. Nem sombra do capricho que caracteriza toda fachada, todo jardim, toda calçada, enfim, todo o Japão.

Finalmente dobramos à direita em direção ao Pacífico e logo chegamos à usina. Mais uma vez, o movimento surpreende. Eu esperava ver destruição – e de fato vi -, mas a palavra que primeiro me veio à mente foi outra: construção. O local é um imenso canteiro de obras, com gente entrando e saindo dos vestiários, carros pra lá e pra cá, pilhas de material de construção, tratores, escavadeiras, etc.

Primeira parada: detector de metais. Segunda: equipamentos de segurança. Como o tour seria inteiramente feito a bordo de um ônibus, não nos deram os “escafandros” dentro do qual trabalham os operários; apenas máscara, luvas, pantufas plásticas e o dosímetro, que vai nos dizer quanta radiação teremos recebido até o final da visita.

Depois de novas instruções de segurança, tomamos outro ônibus. O que veio do J-Village não passa do estacionamento, e o que nos levará ao tour não sai da usina. É assim com todos os veículos, pra carregar um mínimo de poeira radioativa pra fora.

Mal demos a largada e nos deparamos com as centenas de tanques que têm sido construídos pra armazenar a água radioativa que se acumula continuamente. Nada menos que 400 toneladas de umidade do lençol freático infiltram-se diariamente no subsolos dos reatores, misturando-se com a água já contaminada usada para resfriá-los. Esse aguaceiro é filtrado, mas alguns elementos radioativos permanecem, daí a necessidade de tanques e mais tanques.

Para tentar estancar essa enxurrada subterrânea, a TEPCO tem um plano audacioso: congelar o solo ao redor dos reatores, de modo a impermeabilizá-lo. Com isso, espera que o lençol freático desvie e chegue limpo ao mar. É uma técnica comum na construção de túneis, mas nunca foi testada na escala que se pretende em Fukushima: o perímetro dos reatores é de 1,5km. Os trabalhos ainda estão em fase embrionária e tudo o que vimos foram escavações e os tubos que serão enterrados e pelos quais circulará o líquido resfriado que congelará a terra. E muitos operários.

Vendo esses trabalhadores, todos cobertos dos pés à cabeça, não conseguia parar de pensar no porquê de estarem ali. Será que têm opção? Sabem dos riscos? (Há relatos de que a Yakuza, a temida máfia japonesa, recruta mendigos e outras “pessoas descartáveis” para trabalhar nas áreas com maior índice de radiação). Ou são forasteiros vindos em busca do salário? (Em 2012, saiu até anúncio em português oferecendo R$ 750 por dia pra retirar entulho da usina. Alguns dos 200 mil decasséguis que moram no Japão chegaram a se candidatar, mas, diante da repercussão negativa, a empresa recuou e acabou contratando só japoneses). Ou querem apenas contribuir para ajudar a tornar o lugar habitável novamente, como o vice-presidente que nos recebeu?

Mais adiante, avistamos o que talvez constitua o marco zero da tragédia (embora muitos digam que a tragédia fosse anunciada e tão antiga quanto a promiscuidade que se estabelecera entre empresas e órgãos reguladores): uma torre que sustentava a linha de transmissão que servia não para escoar a energia gerada em Fukushima, mas para trazer de fora a eletricidade necessária ao funcionamento da usina. Está no chão. Nocauteada já pelo terremoto, quando o tsunami ainda estava em gestação a 180 km dali, foi uma das primeiras baixas e sua queda desencadeou a entrada em funcionamento dos geradores a diesel.

Sobre isso eu já tinha lido e foi muito interessante ver ao vivo, mas meus olhos fugiam das explicações e buscavam incessantemente a direção do mar, onde está o embrião de tantas leituras e epicentro de toda a crise: os seis reatores, três dos quais sofreram com explosões em 2011. Trata-se do ponto mais baixo da usina e, ao nos aproximarmos e lá, a ausência de árvores no barranco e as marcas de terra nas paredes dos prédios denunciavam a altura à qual as ondas haviam chegado: 14 metros, 4 a mais que o quebra-mar e a sala de máquinas, onde os geradores a diesel se afogaram apenas meia hora depois de entrar em ação.

Os reatores estão abrigados em edifícios de 6 andares, cada um em um estágio diferente de reconstrução. Já ganharam reforços estruturais e não há mais escombros por perto, de modo que nosso ônibus pôde se aproximar sem problemas. As imagens das explosões, que cansei de ver na TV, desfilavam na minha mente. Estávamos diante do reator 4 e, do lado de lá da parede de concreto, jaz estocado combustível nuclear usado contendo mais de mil vezes a quantidade de césio que causou o acidente de Goiânia, em 1987. E se o prédio tivesse ruído em março de 2011?

Ao me fazer essa pergunta, eu pensava nos operários que arriscaram as vidas tentando abrir manualmente as escotilhas de emergência, que permitiriam escoar parte do gás hidrogênio que se acumulava. Teriam sido voluntários? Designados? Esbravejavam contra o chefe? Será que pensavam nas vidas que iam salvar, talvez ao custo das suas? Ou só em sair dali o quanto antes? No que quer que pensassem, conseguiram driblar escuridão, calor, inundação e destroços para encontrar a alavanca que, em condições normais, seria acionada do conforto do ar condicionado da sala de controle. Nada disso impediu as explosões de gás, mas, sem essa drenagem de parte do hidrogênio, elas talvez tivessem sido mais fortes – sabe-se lá com que consequências.

Seguindo o tour, passamos pelo prédio de escritórios, hoje abandonado. Pelas janelas pudemos ver pedaços do forro caídos, denunciando a violência do terremoto – o mais forte já resgitrado no Japão. Ao lado dele, está o prédio sem janelas que abriga a sala de controle, e que durante as semanas que se seguiram ao tsunami, abrigou muito mais. Foi ali que aqueles que se arriscaram nos reatores e outros colegas – os “50 de Fukushima”, como ficariam conhecidos – iniciaram uma luta inglória contra um inimigo invisível, enquanto o país ainda focava suas atenções no tsunami – e nas suas 20 mil vítimas – e a palavra Fukushima era apenas o nome de uma província.

“50 de Fukushima” me faz pensar nos “300 de Esparta”. Na verdade não eram 50 e reportagens mais recentes têm dado conta que esses “herois” só não saíram dali antes porque não conseguiram. O pânico desencadeou um “salve-se quem puder” e muitos fizeram como o capitão do Costa Concordia. O governo alega que se não fosse ele a dizer “Vada a bordo, cazzo!”, a TEPCO teria tirado todo o time de campo. A empresa nega e jura que jamais cogitou abandonar a usina.

Espartanos ou Concordianos, fato é que eles lá ficaram por semanas, dormindo no chão e trabalhando com pouca água e comida (e no escuro, até o restabelecimento da força). Da matriz em Tóquio, chegavam instruções contraditórias, entre as quais a de não jogar água do mar nos reatores, cada vez mais quentes. O gerente da usina sabia que o sal iria oxidar as instalações e corroer os bilhões ali investidos, mas sabia também que, na ausência de outro mecanismo de resfriamento, o calor que emanava dos reatores teria consequências explosivas – de fato, teve. Tomou, então, uma atitude muito pouco japonesa, que o elevaria à condição de heroi entre os herois (e atolaria a direção da TEPCO ainda mais no mar de lama que, aos poucos, a crise ia revelando): desacatou as ordens e ordenou o bombeamento de água do mar nos reatores.

Ainda imerso nesses pensamentos, percebi que o ônibus começou a andar. Hora de partir. O motor roncou mais forte pra vencer a rampa que separa os reatores (10m acima do nível do mar) do platô onde está o resto da usina (35m), e era difícil conceber que o mar pudesse ter feito o mesmo, ainda que só até a metade. No trajeto de volta até a entrada, estranhas manchas verdes salpicavam no chão. É uma resina, nos explicaram, usada logo no começo do caos para grudar a poeira radioativa no solo.

Antes de trocar de ônibus pra tomar o rumo do J-Village, passamos por um detector de radiação, pra garantir que não estávamos carregando “sujeira” pra casa e devolvemos o dosímetro. As máscaras, luvas e pantufas foram pro lixo. Seu destino será o incinerador que está sendo contruído ali mesmo na usina.

Já embarcando no outro ônibus, a chuva fina que caía parou e fomos brindados com uma estranha imagem: um arco-íris na direção do mar, bem acima dos reatores. Lembrei das placas que adornam a entrada das duas cidades que, décadas atrás, optaram por abrigar a usina (por referendo), nas quais se lê “Energia Nuclear para um Futuro Promissor”. E vendo o logotipo da TEPCO – que, segundo já li por aí, foi a 3ª empresa com maior valor de mercado do mundo, e hoje está quebrada -, lembrei também do papel timbrado da conta luz, que todo mês me causa uma certa estranheza ao associar meu apartamento, tão limpo e tão longe, àquilo tudo.

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