“Pyongyang Honeymoon” ou O Poder da Banalidade Doméstica

Observação preliminar: Todos os pontos de vista apresentados neste artigo refletem unicamente a opinião do autor. Nenhuma das afirmações, portanto, pode ou deve ser tomada como sendo representativa de posições oficiais.  Quem quer que não consiga compreender essa sutileza sofre de grave dissonância cognitiva e a estes – sejam eles blogueiros ou jornalistas mal-intencionados – eu recomendo fortemente o procedimento da lobotomia.  

O Grande Líder é grande mesmo

Eduardo Siebra, em 24/09/2014 (ano 103 do Calendário Juchê)

Coloquemos da seguinte forma: se eu tivesse chegado à Coreia do Norte sem jamais ter ouvido algo a seu respeito, certamente teria saído de lá com uma impressão muito negativa. Porém, como desde que me entendo por gente escuto coisas horrorosas sobre o país, seus governantes e seu povo, tenho que admitir que encontrei em Pyongyang algo muito diferente do que esperava encontrar.

Decidi ir para lá porque, infelizmente, o Brasil ainda não possui embaixada em Marte. Algumas pessoas entram na diplomacia porque querem ter uma vida boa e morar perto de um lugar onde possam ter acesso fácil a bons croissants e queijos fedorentos. Eu, como venho de uma cidade com tão alto nível civilizatório como o Crato – onde se encontra grande provisão de todas as comodidades mundanas e transcendentais – escolhi essa profissão não pelos brioches, mas por desejar viver uma experiência de alteridade.

Quis ir à Coreia do Norte, portanto, por supor que lá eu encontraria uma realidade radicalmente diferente de tudo a que eu estava acostumado. Esperava encontrar alienígenas, ou pelo menos os habitantes robóticos de uma distopia orwelliana. Claro, não sou desumano a ponto de ter me tornado um turista do horror: o que me motivava não era uma curiosidade mórbida pelo alardeado sofrimento do povo coreano, mas sim o desejo semi-antropológico de compreender a insistência desse país em fazer tudo do jeito que faz.

Posso aqui confessar perante as testemunhas do plano material e astral: o que mais me surpreendeu na minha curta passagem pelo Reino Ermitão foi a banalidade da vida cotidiana que testemunhei nas ruas. Sabem aquelas fotos mostrando largas avenidas cinzentas, sem nenhum carro ou pedestre, e apenas uma intimidadora – mas charmosa – guardinha de trânsito severamente observando o tempo passar? É tudo mentira! Pyongyang é uma cidade cheia de vida – ou, o que dá no mesmo, cheia de gente! E as policiais de trânsito gatinhas trabalham pra caramba, sem jamais perder a pose!

É claro, as crianças estão todas com os uniformes da União dos Pioneiros Socialistas. Os homens estão indo trabalhar vestidos em ternos Mao Zedong. As mulheres desfilam em comportados tailleurs – ou naquelas horrorosas roupas tradicionais coreanas (que cometem o imperdoável pecado de esconder os corpos de algumas das mais belas mulheres da Ásia do Leste). Mas tirando isso, e tirando os carros de boi, os veículos militares saídos diretamente de um filme de época, e a enorme profusão de soldados socialistas – todos prontos a causar as mais terríveis dores de cabeça a eventuais invasores imperialistas que cometessem o erro de tentar ocupar esse bravo e teimoso país – a vida parece seguir normalmente, como em qualquer outro lugar.

Que a verdade seja dita: em Pyongyang não há toque de recolher. Tudo bem, a noite é um breu, porém isso não impede que verdadeira multidão caminhe pelas ruas – totalmente indiferentes ao risco de serem atropelados pelos motoristas que quase não os conseguem enxergar naquele escuro. Também não vi soldados apontando suas metralhadoras para uma população assustada: vi muitas crianças em idade escolar (algumas com quatro, cinco anos) caminhando sozinhas, sem o menor receio de serem vítimas de qualquer forma de violência. Vi grupos de jovens universitários andando animadamente, conversando sobre assuntos que com toda certeza eram da mais absoluta frivolidade. E vi gente dando risada com alguma piada que alguém havia contado.

Não quero, aqui, dar uma de estrangeiro desavisado e ingênuo, e minimizar o peso do que é a vida num Estado como a Coreia do Norte. Talvez mesmo que tentasse eu não pudesse compreender a pressão psicológica que sofrem pessoas que são submetidas, desde a infância, a uma mobilização completa dos sentimentos e do imaginário político. Também não posso dizer que eu tenha conhecido a Coreia do Norte real, já que minha vivência esteve limitada à capital (onde eu podia me locomover livremente, desacompanhado por guias coreanos) e alguns pontos turísticos no interior. Tenho plena consciência de que permaneci nas partes mais simpáticas do país, e também de que não me foi permitido ir muito fundo na compreensão da vida do cidadão comum.

Porém, posso garantir que o pouco que eu vi não foi uma encenação. Os velhinhos não estavam sendo pagos pelo governo para brincar com seus netinhos nas ruas – e, assim, transmitir uma boa impressão aos eventuais turistas que passassem por ali. Os jovens realmente ocupavam os espaços públicos de lazer, e acho pouco razoável dizer que as partidas de vôlei que eu vi eram apenas mais uma sessão de doutrinação socialista por meio da cultura física. O que acontece é que os norte-coreanos são pessoas como nós, e o mero fato de eles viverem num regime que tenta, de todas as formas, desenvolver seu senso de fervor patriótico e sua capacidade de heroísmo não os torna menos simpáticos à ideia de levarem uma vida tranquila e de se divertirem. Talvez eles apenas não possam, como nós, declarar abertamente essa sua inclinação.

São pessoas que vão à escola, que fazem amigos, que namoram, que se preocupam com seus familiares, exatamente como acontece em qualquer outro lugar do mundo. Agora, claro, desde a pré-escola o norte-coreano é exposto, de todas as formas e por todos os meios, à doutrinação da ideologia juchê. No feriado nacional, eles têm que levar flores para a estátua de seus adorados líderes, e todo sábado eles participam de sessões de “estudos políticos”. Muito frequentemente o coreano tem de participar de mobilizações coletivas, tais como cerimônias patrióticas, deslocamentos ao interior para ajudar os camponeses durante a época da colheita de arroz, ou, pior de tudo, excruciantes sessões coletivas de cortar a grama dos espaços públicos usando uma mera tesourinha. Certamente é um povo que trabalha duro, e que está submetido, em média, a esforços e privações físicas muito mais severas do que as que estamos acostumados a ver nos países ditos liberais (e vamos, aqui, em deferência ao bom gosto pequeno-burguês, deixar de lado a complexa mas pertinente discussão sobre a condição dos miseráveis nos países ditos “livres”) . Porém, no tempo que lhes resta, os coreanos estão fazendo coisas banais: passeando com seus bebês pendurados nas costas, tomando soju com os colegas de trabalho, comendo kimchi e contando piadas. Talvez a verdade seja que não dá para simplesmente abolir a dimensão doméstica da vida e impor um estado permanente de fervor ideológico – ainda que seja exatamente isso o que desejam exigir de seus camaradas alguns dos líderes do país.

Esse deslumbramento que experimentei em Pyongyang acontece com diversos estrangeiros que chegam pela primeira vez à cidade. Ele tem até um apelido na comunidade de expatriados: Pyongyang Honeymoon. Há vários fatores que o explicam.

1: A cidade é bonita. Como ela foi arrasada pelos bombardeios americanos durante a Guerra da Coreia, os arquitetos socialistas puderam criar sua cidade-modelo praticamente do zero. Algumas pessoas chegam a dizer que Pyongyang é a única capital 100% socialista do planeta. E embora se possa questionar o bom gosto de alguns de seus monumentos, não há como não admitir que o desenho da capital é impressionante. Seu traçado evoca a todo instante um ideal de grandeza e de heroísmo, mas sem sobrecarregar os espaços públicos com a parafernália socialista (eu diria até que eles, a seu modo, têm lá seu senso de sobriedade). As ruas são largas e arborizadas, há várias praças nas margens dos rios que cortam a cidade e as opções de lazer para a população não são poucas (incluindo parques de diversão, espetáculos circenses, parques aquáticos, boliches, etc). Especialmente deslumbrante é a visão da Torre Juchê iluminada à noite – uma enorme tocha vermelha tremeluzindo em meio às trevas da cidade, eternamente inspirando o povo coreano com o ideal de autossuficiência (vi alguns jovens que iam ao monumento à noite para estudar, não sei se para absorver emanações inspiradoras, não sei se porque a torre é um dos únicos locais permanentemente iluminados da capital coreana, onde os apagões são uma realidade diária).

2: Como já observei, os estrangeiros que chegam a Pyongyang costumam esperar algo muito pior. A quebra de expectativa tem, pelo menos nos primeiros meses, um efeito favorável na opinião do visitante a respeito do lugar. Isso costuma mudar à medida que o tempo vai passando, e à medida que o estrangeiro vai sentindo com mais intensidade os efeitos do severo isolamento a que ele está condenado quando vive na cidade (apenas alguns coreanos credenciados têm plena liberdade de conversar com pessoas de fora, e, por causa da paranoia do regime, mesmo estes não ousariam desenvolver laços muito estreitos com alguém que, em última instância, poderia se mostrar um espião a serviço dos imperialistas ou, pior ainda, um repórter da Veja).

3: Pyongyang é uma cidade que claramente está em transformação. Quando comparada ao que era há quatro anos, a capital parece, segundo o relato dos estrangeiros que a conheceram no passado e no presente, uma cidade muito mais agradável, e com muito mais opções de entretenimento. Embora seja cedo para julgar o significado da chegada do novo líder ao poder, o impacto dessa mudança é visível nas ruas. Há muito mais carros circulando pelas avenidas hoje do que havia a apenas alguns anos atrás. As pessoas parecem se vestir com roupas mais coloridas e casuais (muitas delas fabricadas na China) e a quantidade de restaurantes, supermercados e outros empreendimentos privados é cada vez maior. Para o observador de fora, é excitante ver essas mudanças acontecendo, uma vez que elas evocam a possibilidade de um futuro melhor para o país e seus habitantes. A classe média coreana está crescendo, como uma erva daninha nos jardins do socialismo.

4: O povo coreano é simpático. Não esqueçamos que os do norte são os mesmos que os do sul – tão amados por sua meiguice quase cafona e sua inclinação ao miguxo way of life. As crianças norte-coreanas, em especial, são umas gracinhas. Elas ficam boquiabertas quando avistam nas ruas essas criaturas de cabelos coloridos, olhos redondos e terríveis barbas e narizes! As mais audazes se aproximam e arriscam, com um sotaque extremamente carregado: “– Helooooooo!” Os adultos, também, demonstram muita curiosidade, e fica muito claro pela sua expressão que, se eles pudessem, seriam muito mais calorosos e francos com essas aberrações vindas de fora. Muitos membros da comunidade de expatriados em Pyongyang desenvolvem, ao longo do tempo, intensa antipatia pelos cidadãos do país, uma vez que é muito difícil estabelecer qualquer relação mais próxima e sincera com um habitante local. Porém esse preconceito desconsidera a delicada situação em que vivem os norte-coreanos: como esperar um comportamento franco de alguém que está sendo vigiado pelos seus pares? Sabe-se que a polícia norte-coreana conta com a ajuda de verdadeiro exército de informantes civis, que não hesitariam em delatar comportamentos suspeitos de um potencial traidor. (E não nos precipitemos em julgar o povo coreano como covarde pela sua disposição em denunciar vizinhos reacionários: eles são desde cedo educados a isso, e em sua mentalidade, identificar um potencial inimigo do regime é um dever cívico, mesmo que esse dever possa significar a desgraça de seu vizinho…)

Também é preciso notar que a Pyongyang honeymoon é fruto de uma experiência restrita à capital. A Coreia do Norte tem pouco mais de 20 milhões de habitantes. Em Pyongyang vivem umas 3 milhões de pessoas – incluindo aí praticamente toda a elite política do país. É uma cidade-vitrine, que não reflete as reais condições de vida no campo. Estima-se que um grande percentual das crianças norte-coreanas, em especial aquelas que vivem nas zonas rurais, ainda estejam subnutridas. As condições de saúde e de moradia nas regiões mais ermas são incomparavelmente piores. Ouvi relatos de estrangeiros que tiveram oportunidade de ir ao interior do país – para acompanhar a implementação dos programas de ajuda humanitária – sobre pessoas que eram obrigadas a trabalhar de sol a sol, ao ensurdecedor barulho de alto-falantes que repetiam incessantemente mensagens de doutrinação política. Não quero nem imaginar o que aconteça no nordeste do país – na terrivelmente gélida região onde se acredita que existam as prisões políticas. A Coreia do Norte não é um passeio para os seus cidadãos, e posso garantir que eles são as principais vítimas do sistema que ainda vigora no país.

Ainda assim, acho que essa inesperada simpatia que senti por Pyongyang (e que muitos outros estrangeiros também sentem) é significativa. Por um lado, ela mostra que o relato comumente transmitido sobre a Coreia do Norte pelos meios de comunicação ocidentais é, se não mal-intencionado, pelo menos tendencioso ou desinformado. As condições certamente não se comparam às do sul da península, mas a cidade nem de longe se assemelha ao inferno pintado pelos adversários do regime. Por outro lado, entender que os norte-coreanos são pessoas normais como nós torna inevitável uma importante e esclarecedora questão: por que, então, eles continuam seguindo esse caminho de isolamento e confrontação, que os leva a serem um país com uma das piores reputações do mundo?

A Coreia do Norte, de fato, ocupa no imaginário ocidental o papel do antagonista. Ela é o oposto da imagem que nossa banda do mundo usa para se definir, ou seja, por negação, o país ajuda até mesmo a delinear a própria identidade ocidental. Projetam-se nele todos os pecados aos quais não se gostaria de estar associado, ou seja, as características de um “vilão” ou “psicopata” – alguém sem nenhuma consideração pelo sofrimento dos outros, inclusive pelo sofrimento do próprio povo.

Será que é tão simples? Ainda que possa haver alguma verdade nesse relato, não seria o caso de nos perguntarmos o que leva alguém a se tornar um “vilão”?

Muitos são os norte-coreanos que ficam sinceramente chocados quando descobrem que são vistos no exterior como uma espécie de criminosos. Eles mesmos se consideram um povo heroico – que lutou bravamente contra a dominação estrangeira e que até hoje está tentando afirmar seu espaço de sobrevivência num meio internacional incrivelmente hostil. Não esqueçamos que quando o país foi criado, o comunismo ainda parecia uma boa ideia – em especial para um povo que havia acabado de sair de um regime feudal, seguido pela truculenta ocupação japonesa. Os guerrilheiros coreanos que primeiro aderiram ao movimento certamente estavam inspirados por nobres ideais. O fervor com que eles abraçaram a causa socialista se explica pelo fato de eles realmente acreditarem que estavam cumprindo uma missão patriótica.

A história subsequente é bem conhecida. A realidade não se conformou bem ao sonho utópico de uma sociedade sem classes, e os que começaram sendo os bem-intencionados guias da marcha rumo à igualdade acabaram por se tornar uma nova casta dominante que se viu subitamente diante da terrível contradição de, por um lado, não serem capazes de realizar as promessas de prosperidade antecipadas por sua ideologia e, por outro, de não poderem reverter o processo revolucionário em nome dessa almejada prosperidade, sob pena de serem eles mesmos aniquilados durante a queda do regime vigente. Eles se tornaram, num certo sentido, reféns de um monstro que eles mesmos criaram – e que em mais de uma ocasião gerou a desgraça dos próprios membros dessa elite política (nos assustadores expurgos tão comuns à prática stalinista). E a partir de então eles foram para sempre amaldiçoados pela necessidade de ter que perseguir duramente todos os que tivessem a audácia de cometer a suprema transgressão: dizer a verdade, admitir que o paraíso prometido talvez não fosse assim tão bom…

Longe de mim justificar os atos que já foram praticados em nome da estabilidade do regime ou da perpetuação do ideal revolucionário. Que cada violência cometida contra outro ser humano, independente das motivações políticas subjacentes, esteja para sempre associada não apenas à memória do sistema que o provocou, mas também à de seu autor, da pessoa que individualmente foi o veículo desse mal. Porém acho importante – inclusive como forma de auto-policiamento – tentar compreender que tipo de contexto histórico pode criar uma situação em que inofensivos burocratas se tornam cúmplices de violências legitimadas.

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“O Socialismo também quer lascar você!”

Mais do que uma criação de demônios sanguinários, a Coreia do Norte talvez seja o trágico desfecho de um processo histórico que deu errado. Esse país só foi possível, em primeiro lugar, por causa do delicado equilíbrio de poder que se seguiu à II Guerra Mundial e, em segundo, por causa do que eu definiria como uma espécie de curto-circuito cultural – o florescimento de uma concepção de vida que se mostrou problemática por ter perdido sua conexão com o real, a partir do momento em que a afirmação do ideal utópico tornou-se mais importante do que a sóbria avaliação de seus resultados face aos fatos. Repito: admitir isso não exime ninguém de suas responsabilidades, porém joga uma nova luz sobre as motivações que podem ter levado tantas pessoas a enveredar por esse caminho manchado de vermelho. Aconteceu com elas não porque elas fossem más (o que talvez seja o caso apenas em um ou outro exemplo de criminalidade política intencional e patológica), mas porque aquele contexto histórico favorecia esse tipo de conduta em pessoas normais.

E quem de nós seria presunçoso a ponto de julgar, de forma peremptória, que nós mesmos nos comportaríamos de forma diferente se estivéssemos num contexto parecido? Podemos até nos imaginarmos corajosos, quando estamos longe de constrangimentos como os que se aplicam à vida deles. É fácil demais julgar, no conforto de nossa mediocridade.

Foi essa a intuição fundamental que tive nesse misterioso país. O regime norte-coreano, embora possa ter engendrado o que parece, à consciência ocidental, aberrações políticas, não suprimiu a alma das pessoas. Elas são tão humanas como nós, apenas reagindo a estímulos diferentes. E acho realmente fabuloso perceber que o aspecto da vida que talvez tenha se preservado de forma mais intacta esteja no nível do banal. Na dimensão pública, acho que é justo dizer que a liberdade do homem coreano foi cerceada de diversas formas. Ainda assim – e contra todas as expectativas – os seres humanos preservam suas pequenas e tacanhas aspirações de comer bem, viver com conforto e relacionar-se com um belo exemplar do gênero oposto.

Foi eu vi com meus próprios olhos. Depois de meio século de um regime autoritário, depois da guerra, depois da fome, os habitantes da última utopia stalinista viva ainda brincam com seus filhos no parque, fazem piquenique à beira do rio e jogam vôlei com os amigos. Claro que não são todos os coreanos que efetivamente têm a liberdade de se ocupar tão agradavelmente, mas, por mais duro que sejam as condições presentes, não posso deixar de me sentir otimista quando penso que esses desejos ainda possam estar vivos nos corações de tantos. George Orwell, apesar de suas intuições geniais, talvez tenha errado nesse ponto: os líderes não podem ter controle absoluto. Os totalitarismos políticos de nossa era podem aniquilar, com seu terrível maquinário, toda resistência política e todo livre pensamento. Mas eles não podem substituir de forma definitiva as satisfações e tranquilidades que só podem ser encontradas no espaço doméstico.

Bendita seja a realidade, e bendito seja o povo coreano. Que o futuro traga melhores dias para suas crianças.

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A marcha dos socialistas rumo ao futuro.

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Visita a Fukushima

19 de junho. O Japão ainda estava na Copa, mas nem por isso havia qualquer animação no J-Village, como é conhecido o centro de treinamento da seleção. Inaugurada em 1997, a Granja Comary dos japoneses tem instalações de primeiríssima linha, mas a última vez que os “Samurais Azuis” treinaram por lá foi pra Copa da África do Sul. Em março de 2011, o local foi transformado numa espécie de acampamento-base avançado pra quem ia ou vinha de Fukushima.

A 23 km da usina, o J-Village está na porta de entrada da zona de exclusão, a região a menos de 20 km de Fukushima-I, que teve que ser completamente abandonada em razão da radiação. Sua localização é ainda mais conveniente pois está bem no caminho de Tóquio, de onde vêm bombeiros, técnicos, engenheiros, equipamentos, ordens e… diplomatas estrangeiros, como o grupo que a Tokyo Electric Power Company (TEPCO) decidiu levar pra ver a usina naquela quinta-feira.

Depois de 2h30 de trem desde Tóquio e mais 40 minutos de ônibus, fomos recebidos no J-Village pelo vice-presidente a quem a TEPCO confiou a hercúlea tarefa de desmantelar a usina e tornar a região habitável novamente – trabalho pra mais de 40 anos. Ele começou nos pedindo desculpas pelo transtorno causado desde 2011 e, encarnando a ética samurai, afirmou querer dedicar o resto de sua vida à revitalização da região para, assim quem sabe, voltar a ver o sorriso no rosto dos amigos que fizera quando fora gerente de Fukushima-II (usina vizinha à acidentada Fukushima-I).

Depois dessas e de outras explicações, tomamos o ônibus rumo à usina e logo estávamos na zona de exclusão. Primeiro na parte mais externa, onde os níveis de radiação já recuaram um pouco, e é permitido entrar, mas não residir. Alguns moradores já vão ajeitando as casas, não tão destruídas (o tsunami não chegou a essa estrada), mas castigadas por três anos de abandono. Têm a expectativa de poder voltar pra casa em breve, seguindo os passos dos residentes de Tamura (um vilarejo mais a oeste), que, em abril, foram os primeiros dos 100 mil “refugiados nucleares” a voltar pra casa desde o acidente.

Mais um pouco e chegamos no centro da zona de exclusão, onde ainda está em vigor a ordem de evacuação. Só entram veículos autorizados, que, surpreendentemente, não são poucos: há mais de 5 mil operários trabalhando na usina, todos levados diariamente do J-Village por ônibus da TEPCO. Fora da nossa estrada, porém, o tempo parece ter parado há 3 anos, e o abandono é denunciado pelas casas vazias e campos de arroz tomados pelo mato. Nem sombra do capricho que caracteriza toda fachada, todo jardim, toda calçada, enfim, todo o Japão.

Finalmente dobramos à direita em direção ao Pacífico e logo chegamos à usina. Mais uma vez, o movimento surpreende. Eu esperava ver destruição – e de fato vi -, mas a palavra que primeiro me veio à mente foi outra: construção. O local é um imenso canteiro de obras, com gente entrando e saindo dos vestiários, carros pra lá e pra cá, pilhas de material de construção, tratores, escavadeiras, etc.

Primeira parada: detector de metais. Segunda: equipamentos de segurança. Como o tour seria inteiramente feito a bordo de um ônibus, não nos deram os “escafandros” dentro do qual trabalham os operários; apenas máscara, luvas, pantufas plásticas e o dosímetro, que vai nos dizer quanta radiação teremos recebido até o final da visita.

Depois de novas instruções de segurança, tomamos outro ônibus. O que veio do J-Village não passa do estacionamento, e o que nos levará ao tour não sai da usina. É assim com todos os veículos, pra carregar um mínimo de poeira radioativa pra fora.

Mal demos a largada e nos deparamos com as centenas de tanques que têm sido construídos pra armazenar a água radioativa que se acumula continuamente. Nada menos que 400 toneladas de umidade do lençol freático infiltram-se diariamente no subsolos dos reatores, misturando-se com a água já contaminada usada para resfriá-los. Esse aguaceiro é filtrado, mas alguns elementos radioativos permanecem, daí a necessidade de tanques e mais tanques.

Para tentar estancar essa enxurrada subterrânea, a TEPCO tem um plano audacioso: congelar o solo ao redor dos reatores, de modo a impermeabilizá-lo. Com isso, espera que o lençol freático desvie e chegue limpo ao mar. É uma técnica comum na construção de túneis, mas nunca foi testada na escala que se pretende em Fukushima: o perímetro dos reatores é de 1,5km. Os trabalhos ainda estão em fase embrionária e tudo o que vimos foram escavações e os tubos que serão enterrados e pelos quais circulará o líquido resfriado que congelará a terra. E muitos operários.

Vendo esses trabalhadores, todos cobertos dos pés à cabeça, não conseguia parar de pensar no porquê de estarem ali. Será que têm opção? Sabem dos riscos? (Há relatos de que a Yakuza, a temida máfia japonesa, recruta mendigos e outras “pessoas descartáveis” para trabalhar nas áreas com maior índice de radiação). Ou são forasteiros vindos em busca do salário? (Em 2012, saiu até anúncio em português oferecendo R$ 750 por dia pra retirar entulho da usina. Alguns dos 200 mil decasséguis que moram no Japão chegaram a se candidatar, mas, diante da repercussão negativa, a empresa recuou e acabou contratando só japoneses). Ou querem apenas contribuir para ajudar a tornar o lugar habitável novamente, como o vice-presidente que nos recebeu?

Mais adiante, avistamos o que talvez constitua o marco zero da tragédia (embora muitos digam que a tragédia fosse anunciada e tão antiga quanto a promiscuidade que se estabelecera entre empresas e órgãos reguladores): uma torre que sustentava a linha de transmissão que servia não para escoar a energia gerada em Fukushima, mas para trazer de fora a eletricidade necessária ao funcionamento da usina. Está no chão. Nocauteada já pelo terremoto, quando o tsunami ainda estava em gestação a 180 km dali, foi uma das primeiras baixas e sua queda desencadeou a entrada em funcionamento dos geradores a diesel.

Sobre isso eu já tinha lido e foi muito interessante ver ao vivo, mas meus olhos fugiam das explicações e buscavam incessantemente a direção do mar, onde está o embrião de tantas leituras e epicentro de toda a crise: os seis reatores, três dos quais sofreram com explosões em 2011. Trata-se do ponto mais baixo da usina e, ao nos aproximarmos e lá, a ausência de árvores no barranco e as marcas de terra nas paredes dos prédios denunciavam a altura à qual as ondas haviam chegado: 14 metros, 4 a mais que o quebra-mar e a sala de máquinas, onde os geradores a diesel se afogaram apenas meia hora depois de entrar em ação.

Os reatores estão abrigados em edifícios de 6 andares, cada um em um estágio diferente de reconstrução. Já ganharam reforços estruturais e não há mais escombros por perto, de modo que nosso ônibus pôde se aproximar sem problemas. As imagens das explosões, que cansei de ver na TV, desfilavam na minha mente. Estávamos diante do reator 4 e, do lado de lá da parede de concreto, jaz estocado combustível nuclear usado contendo mais de mil vezes a quantidade de césio que causou o acidente de Goiânia, em 1987. E se o prédio tivesse ruído em março de 2011?

Ao me fazer essa pergunta, eu pensava nos operários que arriscaram as vidas tentando abrir manualmente as escotilhas de emergência, que permitiriam escoar parte do gás hidrogênio que se acumulava. Teriam sido voluntários? Designados? Esbravejavam contra o chefe? Será que pensavam nas vidas que iam salvar, talvez ao custo das suas? Ou só em sair dali o quanto antes? No que quer que pensassem, conseguiram driblar escuridão, calor, inundação e destroços para encontrar a alavanca que, em condições normais, seria acionada do conforto do ar condicionado da sala de controle. Nada disso impediu as explosões de gás, mas, sem essa drenagem de parte do hidrogênio, elas talvez tivessem sido mais fortes – sabe-se lá com que consequências.

Seguindo o tour, passamos pelo prédio de escritórios, hoje abandonado. Pelas janelas pudemos ver pedaços do forro caídos, denunciando a violência do terremoto – o mais forte já resgitrado no Japão. Ao lado dele, está o prédio sem janelas que abriga a sala de controle, e que durante as semanas que se seguiram ao tsunami, abrigou muito mais. Foi ali que aqueles que se arriscaram nos reatores e outros colegas – os “50 de Fukushima”, como ficariam conhecidos – iniciaram uma luta inglória contra um inimigo invisível, enquanto o país ainda focava suas atenções no tsunami – e nas suas 20 mil vítimas – e a palavra Fukushima era apenas o nome de uma província.

“50 de Fukushima” me faz pensar nos “300 de Esparta”. Na verdade não eram 50 e reportagens mais recentes têm dado conta que esses “herois” só não saíram dali antes porque não conseguiram. O pânico desencadeou um “salve-se quem puder” e muitos fizeram como o capitão do Costa Concordia. O governo alega que se não fosse ele a dizer “Vada a bordo, cazzo!”, a TEPCO teria tirado todo o time de campo. A empresa nega e jura que jamais cogitou abandonar a usina.

Espartanos ou Concordianos, fato é que eles lá ficaram por semanas, dormindo no chão e trabalhando com pouca água e comida (e no escuro, até o restabelecimento da força). Da matriz em Tóquio, chegavam instruções contraditórias, entre as quais a de não jogar água do mar nos reatores, cada vez mais quentes. O gerente da usina sabia que o sal iria oxidar as instalações e corroer os bilhões ali investidos, mas sabia também que, na ausência de outro mecanismo de resfriamento, o calor que emanava dos reatores teria consequências explosivas – de fato, teve. Tomou, então, uma atitude muito pouco japonesa, que o elevaria à condição de heroi entre os herois (e atolaria a direção da TEPCO ainda mais no mar de lama que, aos poucos, a crise ia revelando): desacatou as ordens e ordenou o bombeamento de água do mar nos reatores.

Ainda imerso nesses pensamentos, percebi que o ônibus começou a andar. Hora de partir. O motor roncou mais forte pra vencer a rampa que separa os reatores (10m acima do nível do mar) do platô onde está o resto da usina (35m), e era difícil conceber que o mar pudesse ter feito o mesmo, ainda que só até a metade. No trajeto de volta até a entrada, estranhas manchas verdes salpicavam no chão. É uma resina, nos explicaram, usada logo no começo do caos para grudar a poeira radioativa no solo.

Antes de trocar de ônibus pra tomar o rumo do J-Village, passamos por um detector de radiação, pra garantir que não estávamos carregando “sujeira” pra casa e devolvemos o dosímetro. As máscaras, luvas e pantufas foram pro lixo. Seu destino será o incinerador que está sendo contruído ali mesmo na usina.

Já embarcando no outro ônibus, a chuva fina que caía parou e fomos brindados com uma estranha imagem: um arco-íris na direção do mar, bem acima dos reatores. Lembrei das placas que adornam a entrada das duas cidades que, décadas atrás, optaram por abrigar a usina (por referendo), nas quais se lê “Energia Nuclear para um Futuro Promissor”. E vendo o logotipo da TEPCO – que, segundo já li por aí, foi a 3ª empresa com maior valor de mercado do mundo, e hoje está quebrada -, lembrei também do papel timbrado da conta luz, que todo mês me causa uma certa estranheza ao associar meu apartamento, tão limpo e tão longe, àquilo tudo.

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Rapidinhas

Peço um café no Starbucks.
_ Your name, sir? – pergunta a moça do caixa.
Pois é, meu nome é complicado! No Brasil já nem sempre entendem. Acertar a grafia, então… Acostumei-me a responder “Helder-com-agá”, sempre que vão escrever. Fora do Brasil, esquece, se entenderem qualquer coisa já é lucro. Mas, vamos lá, a ver o que sai.
_ It’s ‘Relder’ – nosso R é o H em muitas línguas, ou o J em espanhol. Acho que eles entendem melhor assim do que se eu digo ‘Éuder’, à brasileira — aí me olham perplexos, como se eu estivesse falando uma língua de outro planeta.
_ Sorry?
_ Rel-der.
_ Ok.
Ela escreve o nome no copo e passa pra moça que prepara. Logo mais me entregam. Resolvo ler, por curiosidade, pra descobrir como ela se virou.
“Heldr”.
É, foi bem. Tchecos, né? Vogais pra quê?

………

Juscelino Kubitschek. Kubitschek, essa sopa de letrinhas, é um nome tcheco. O “itschek”, que aqui se escreve “íček”, é um diminutivo – é o “inho” deles. O “Kub” vem de Jakub. Logo: Jacozinho, Tiaguinho, Iaguinho ou Jaiminho em português.

………

Saindo da academia pro trabalho, chuva fina e vento frio, sem guarda-chuva. Um casal me para e pede informação:
– Excuse, me. The Shoppinnng Palladiummm?
– It’s right there. – aponto.
Não tenho dúvidas.
– Brasileiros?
– Sim! – Subitamente contentes – Onde é o Shopping Palladium?
– É aquele prédio rosa ali na frente – digo já tentando ir embora, para fugir da chuva e chegar ao trabalho.
– Obrigado! … De qual cidade?
– São Paulo.
– São Paulo – eles repetem satisfeitos.
Aceno e bato em retirada.
Pois é, conheço minha gente!

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GU x Rollers, o clássico dos clássicos

O futebol de Botsuana – por que não? – também tem o seu “clássico dos clássicos”, ou, como se ouve aqui, “the mother of all derbies”: Township Rollers x Gaborone United. Os dois são times tradicionais de Gaborone: o áureo-cerúleo Rollers foi fundado em 1965, o alvirrubro GU, em 1967. A fundação de clubes de futebol, àquela altura, era mais um produto das grandes transformações por que passava Gaborone, vila empoeirada que deveria rapidamente se tornar cidade, escolhida que foi para ser a capital da República de Botsuana, a que ascendeu em 1966, com a independência, o Protetorado de Bechuanaland, governado pelos britânicos desde Mafeking, na África do Sul.

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O Township Rollers surgiu como clube dos funcionários do “Public Works Department”, sendo o nome “Rollers” uma alusão aos rolos compressores utilizados na construção das ruas de Gaborone . No seu escudo consta também o traçado do novo centro da cidade, cuja edificação estava a cargo daqueles trabalhadores-futebolistas. O Notwane, outro clube tradicional, fundado, como os Rollers, em 1965, apareceu como alternativa menos elitista ao Gaborone Club, clube social frequentado pela comunidade de expatriados que aportavam na futura capital.

GU e Rollers são, juntamente com o Mochudi Centre Chiefs, da vizinha Mochudi, e a BDF XI, de Gaborone, as principais forças do futebol botsuanês. Os Chiefs venceram as duas últimas edições do campeonato nacional, a “Botswana Premier League” (BPL); são um time identificado com a tribo Bakgatla, presente em Botsuana e muito influente na lindeira Província do Noroeste, na África do Sul. BDF XI é o time do exército, a “Botswana Defence Force”; com poucas exceções, seus jogadores são militares, dedicando-se ao futebol quando não estão “on duty”.

Com os Chiefs, Rollers e GU são os mais profissionais entre os times que assim se dizem em Botsuana – a profissionalização do futebol é ainda um “work in progress” no país, razão pela qual deve ser entendida com ressalvas (há poucos dias, jornal local estampava na capa a notícia de que a van dos Chiefs havia sido penhorada, pois a direção não pagara os emolumentos devidos a um feiticeiro que obrava para os sucessos do time). GU e Rollers contam com um homem forte, que lhes proporciona razoável saúde financeira. Possuem sede própria, conquanto lhes falte estádio próprio. Infelizmente, ainda treinam em campos de terra batida.

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O Flamengo de Botsuana, pelo tamanho da sua torcida, os Rollers são também o maior em número de títulos nacionais, tendo triunfado onze vezes na BPL, disputada desde a independência. O GU tem no armário seis troféus do campeonato (um a menos que a BDF XI, segundo maior ganhador).  Grandes em Botsuana, fora das fronteiras não gozam de projeção.

O futebol é, com larga vantagem, o principal esporte de Botsuana. Em 2012, os Zebras, apelido da seleção nacional, alcançaram o maior feito da sua história, a classificação à Copa Africana de Nações, disputada no Gabão e na Guiné-Equatorial. A sensação era de que um novo período do futebol botsuanês se descortinava, no qual os Zebras passariam a ombrear com os grandes do continente. O time, porém, acabou derrotado nas três partidas da fase de grupos, e, desde então, o escrete botsuanês acumula insucessos. Não se classificou para a Copa Africana deste ano, na África do Sul, nem para as “finais” da Copa do Mundo do Brasil (os jogos das eliminatórias são em Botsuana tratados já como jogos de Copa do Mundo). O treinador botsuanês dos Zebras, antes herói pela classificação à Copa Africana, foi não faz muito despedido, imensamente desgastado. Mais do que com a seleção nacional ou os times locais, a vinculação principal do botsuanês médio apreciador do futebol parece ser com a “Premier League” inglesa.

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Em uma quente e nublada tarde de sábado de outubro, em que a tão aguardada pula (chuva, em setsuana) só ameaçou, GU e Rollers duelavam em partida válida pelo primeiro turno da BPL 2013/14. O jogo era disputado no estádio da Universidade de Botsuana, pois o bonito Estádio Nacional – detentor de lugar especial no coração dos botsuaneses, palco da cerimônia de independência – encontrava-se fechado. O GU vinha para o jogo sob pressão, pela fraca campanha no campeonato, e os Rollers, com a esperança de aproximarem-se do topo da tabela.  Recentemente, representantes das duas agremiações compareceram a coquetel oferecido pela Embaixada para abrir exposição de fotos sobre o futebol brasileiro. Em conversa animada, que não sugeria estar-se diante da maior rivalidade do país, o Major Bright, técnico do GU e figura célebre do futebol botsuanês, conhecido tanto pela competência como pela boina que costumeiramente traz à cabeça, discorria sobre o curso para treinadores que frequentara no Brasil; o Sr. Somerset, diretor dos Rollers de fala tranquila, referia-se com orgulho ao seu novo atacante, joia recém-chegada da Namíbia.

O estádio da Universidade, que senta 8 mil pessoas, estava praticamente cheio, rara aglomeração de público em uma país repleto de vazios na paisagem. Aqueles que diziam que os Rollers arrastavam multidões estavam certos: mesmo sendo o GU o mandante,  o estádio vestia-se predominantemente de amarelo e azul. O clássico era um evento de locais, em que, nas conversas, nos cânticos e nos xingamentos, só se ouvia o setsuana. O treinador sérvio dos Chiefs foi facilmente identificado em uma das arquibancadas, espreitando os Rollers, seu adversário da semana seguinte.  O Major Bright, surpreendentemente, não portava a sua boina, mas terno e gravata, sem faltar o escudo do GU sobre o bolso.

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Engajadas no jogo, as duas torcidas participavam, embora não faltassem os personagens exuberantes, estranhamente fantasiados, que, em transe, ficam a cantar e dançar, sem muito se importar com o campo. Os Rollers haviam inaugurado o placar cedo no jogo, pelos pés de Jerome Louis, a joia namibiana do Sr. Somerset, e, com aquele resultado, a possibilidade de o Major Bright perder o emprego, aventada nos jornais, era real.  O jogo já se encontrava nos descontos, e um daqueles personagens, torcedor-profeta dos Rollers, abordava os presentes, apontando para certo trecho da sua bíblia em setsuana, como a dizer que a vitória estava escrita. Nesse instante, foi contradito pelo GU: no apagar das luzes, 1×1, placar final.

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Câmbio

Eis que vou comprar lentes de contato.

_ 3 pares, Sr.?
_ Sim, 3 pares, por favor. Quanto custa?
_ 660.
Fico meio ressabiado. Pô, no Brasil eu pagava quase 200 paus e achava caro! Vamos tentar abater a pancada.
_ Um par só. Sabe como é, não estou acostumado com essa marca, vou testar.

Aí cai a ficha: “660 coroas tchecas! Você não está fazendo o câmbio! Divida por 10 para ter o preço em reais, seu gênio.”

Pois é, cada par de lentes por vinte e poucos reais! Nada mal…

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Índia e Paquistão: a fronteira da meia-noite

Na obra-prima do realismo fantástico indo-britânico, Os filhos da meia-noite, Salman Rushdie narra as desventuras telepáticas de um homem nascido no instante exato da independência indiana, no primeiro minuto de 15 de agosto de 1947. É um rebento de hindus pobres, mas será erroneamente criado por uma rica família muçulmana, pois foi trocado na maternidade. Esse engano original determinará os destinos de Salim Sinai, o protagonista que contém a Índia inteira em si.

Há um equivalente geográfico para a metáfora de Rushdie sobre as identidades tragicamente paradoxais do subcontinente. Trata-se da fronteira de Wagah.

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Não fosse por um acidente histórico, Wagah seria apenas mais um entre os centenas de povoados multicoloridos do Punjab, a fértil província indiana dos cinco rios.

Mas o acidente ocorreu. E continuou ocorrendo, com violenta teimosia.

Graças à partição caótica de 1947 e às guerras fratricidas das décadas posteriores, Wagah é hoje a única passagem aberta nos três mil quilômetros da linha imaginária que une e separa Paquistão e Índia.

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A cada amanhecer, centenas de ônibus e caminhões psicodelicamente decorados percorrem a Grand Trunk Road e atravessam a divisa em Wagah. Transportam gado e gente, badulaques e preciosidades, histórias e lembranças.

A cada anoitecer, porém, Wagah se transforma em palco. Começa um dos espetáculos mais inusitados da política internacional: a extravagante cerimônia militar de fechamento da fronteira indopaquistanesa.

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Os atores dessa ópera bufa são soldados em trajes de gala, medalhas no peito e penugens no cocoruto. Os paquistaneses vestem preto, os indianos marrom. Todos portam barbas ou bigodes imponentes e são pelo menos vinte centímetros mais altos que a média do subcontinente.

Sob as ordens de seus comandantes, os estóicos guardas gesticulam, rosnam, esbravejam, desfilam e chutam o céu. Seus extraordinários passos de ganso são bastante sugestivos para os admiradores de Monty Python.

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O desfile militar é acompanhado com idêntico fervor nas duas metades do anfiteatro geopolítico de Wagah. Mas há diferenças entre as torcidas organizadas dessa final de um campeonato que nunca termina.

Nas arquibancadas indianas, a multidão de espectadores é amorfa: nada separa locais de estrangeiros, mulheres de homens, crianças de idosos, sábios de tolos. Já no lado paquistanês, impera uma rígida divisão por gêneros, e os raros forasteiros são instantaneamente abrigados na fileira VIP.

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Em ambos os lados da linha invisível, eufóricos incentivadores de torcida galvanizam a plateia com gritos-de-guerra patrióticos.

O tradicional e laico Hindustan Zindabad é o favorito dos megafones indianos.

Já o público paquistanês prefere uma profissão de fé: quando o animador lhes pergunta Pakistan ki matlab kiya? (“Qual o significado do Paquistão?”), a resposta é uníssona: La ilaha Illallah! (“Alá é o único deus!”).

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A cerimônia é animada e intensa, mas curta; dura menos de meia hora. Minutos antes do anoitecer, e em perfeita sincronia, a alviverde paquistanesa e a tricolor indiana descem de seus mastros. Os espectadores lentamente retornam a suas casas.

Até a manhã seguinte, não haverá nenhuma fresta aberta para o tráfego entre os dois rivais-irmãos nucleares da Ásia Meridional.

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A cerimônia de Wagah se repete diariamente, quase sem alterações, há pelo menos meio século. Ocasionalmente, a Índia convoca soldadas femininas para fechar a fronteira, o que jamais acontece no outro lado.

O trunfo dos paquistaneses era diferente: um velhíssimo animador de torcidas chamado Mehar Din, pequenino e carismático como um gnomo ufanista. Seu apelido era Chacha Pakistan (“tio Paquistão”). Todo dia, sob sol ou chuva, o cheerleader mais idoso do mundo comparecia a Wagah para agitar fervorosamente a flâmula de um país muito mais jovem que ele próprio. Tornou-se ícone nacional.

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Chacha Pakistan faleceu no ano passado, aos 90 anos. Sua família não tinha dinheiro para interná-lo no hospital de Lahore.

A bandeira que dava sentido a sua vida também lhe serviu de mortalha.

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A última brisa de Bissau

Nota nº 2
Situação na Guiné-Bissau
04/01/2012
O Governo brasileiro acompanhou com preocupação os acontecimentos ocorridos na Guiné-Bissau, em 26 de dezembro de 2011, que provocaram a morte de duas pessoas.
Como país amigo e na qualidade de Presidente da Configuração da Comissão de Construção da Paz (CCP) para a Guiné-Bissau das Nações Unidas, o Brasil tem se coordenado com as autoridades da Guiné-Bissau para promover reformas internas naquele país e colaborar para a superação de seus desafios político-institucionais.
O Governo brasileiro associa-se à União Africana em sua manifestação de apoio à Guiné-Bissau e de engajamento permanente em acompanhar os esforços que visem a consolidar a paz e a estabilidade, além de promover o desenvolvimento sustentável na Guiné-Bissau.
O Governo brasileiro seguirá acompanhando os desdobramentos da situação na Guiné- Bissau, em coordenação com os demais membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e tendo presente a ação da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). 

* * *

A revoada dos flamingos tinge de preto, de rosa, a idílica aurora de Orango. O mar escuro, sonolento de amanecer, recorda seus tons de verde com o nascer do sol. O barco, as lembranças, contornam a praia, adentram o r que, serpente, levará ao coração da ilha.

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As semanas anteriores não haviam sido fáceis. Adrenalina, tensão, medo. Saliu avisara, a situação não estava “nada boa”: a Fortaleza de Amura, sob ataque; o paradeiro do Primeiro- Ministro e do Chefe das Forças Armadas, desconhecido; o Presidente incomunicável e sob tratamento médico na França. Saliu dirige com cautela, consulta suas fontes, “kal kii kaminhu mais seguro, há barreiras”. Cruzam tropas, patrulhas militares, em direção a Amura.

Bissau, normalmente sonora no início da manhã, prende a respiração, procura saber o que está ocorrendo. Há muito por fazer: informar Brasília e aguardar instruções; manter o alerta na Embaixada; proteger a Diplomatriz – e ainda a Sogra, que desta vez veio pessoalmente defender a filha. Precisamos aconselhar os brasileiros que aqui estão a serviço, manter o fluxo de informações. “Chefe Edu, Brasília tchomau, ligação de Brasília”, diz a Odete. “Secretário, estão perguntando se a situação é grave”, diz a Glória, sobre os brasileiros residentes que telefonam para nosso Setor Consular.

Ouvem-se tiros e explosões esparsas. Odete ajuda a monitorar o ritmo nervoso das rádios, Sampaio fica de prontidão para o envio de telegramas. Assim como outras representações diplomáticas, a Embaixada é cercada por militares, para impedir tentativas de asilo, como explica em Crioulo o soldado que ostenta um lança-foguetes à porta do Centro Cultural. E quem está no comando? Silencia.

Chega o entardecer, esquecidos almoços e amenidades. O Governo eleito retoma o controle e convoca reunião com o Corpo Diplomático. “Eduzinhu, Mariano sta dja na karru, bu misti bai Palácio di Guvernu, reunion di tudu Imbachadores ku Chanceler gora, kinti-kinti”. Saio apressado, não sem antes roubar-lhe umas castanhas torradas.

O toque de recolher é implantado e permanecerá toda a semana. A tensão, também: mais tiros, mais explosões durante as longas noites, perseguições, algumas mortes. O Chefe da Marinha, Bubo Na Tchuto, é preso sob a acusação de liderar os golpistas. Causam apreensão os boatos de um novo ataque, vindo do interior, e com maior intensidade, para libertar Bubo. Na linha de frente da cobertura jornalística, o blog Ditadura do Consenso.

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Como em 2010, cancelamos os ambiciosos planos de Ano Novo. Restaurantes fitchadus, festas canceladas. A circulação é limitada durante a noite, as Forças Armadas mantém alerta máximo. A Diplomatriz e a Sogra improvisam uma ceia, com bravura e não muito sucesso. Se no ano passado o Reveillon foi solitário na Embaixada, neste ano é com a Sogra em um pequeno quarto de hotel… Mas sejamos otimistas!, estamos no mesmo fuso do Reino Unido, coloca aí na Al-Jazeera English, guria, vamos comemorar com as multidões de Londres e Edimburgo, ânimo!

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O Embaixador antecipa o retorno das férias, o que permite um fim de semana de folga. Tomamos a avioneta para Rubane, sob os receosos protestos da Diplomatriz. A destemida Sogra, por outro lado, sorri ao sobrevoar as ilhas, contempla as compactas palmeiras e diz sentir-se o Indiana Jones.

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O estresse, a falta de ar, o nervosismo daqueles dias, tudo desaparece ao despertar no bangalô, ao som da maré. Espreguiço-me na varada à beira d´água, começo a desfrutar do silêncio, do ar puro, quando a Sogra, no bangalô vizinho, grita sucessivos “bons dias”…DSC02966DSC02972

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O Presidente Malam Bacai Sanhá falece em Paris. Da etnia mandinga, era considerado fator de estabilidade e respeitado por diferentes setores – políticos, militares, religiosos. Sua morte abre novo foco de instabilidade em espaço “neutralizado” até 2015, quando findava o mandato. Convocam-se eleições, a serem realizadas em até 90 dias, como manda a Constituição. Muitos pressentem nova fase de perigosa confrontação política. A um povo, às vezes, falta mesmo sorte.

É o que se debate no jantar de despedida oferecido pelo Embaixador. Para esse evento, tradicional e quase protocolar, confraternizamos com os mais significativos amigos locais e estrangeiros, feitos por ocasião do trabalho. A lista começa, naturalmente, com João e Sadjá, diplomatas guineenses, colegas intercambistas no Rio Branco. Johann e Cláudia, da África do Sul; Víctor, da União Européia; Luis, de Angola; Luis Vaz Martins, da Liga Guineense de Direitos Humanos; Alexander e Irina, diplomatas russos; Gorka, o basco da Unesco; o Cônsul da Índia; Iancuba Indjai, conselheiro de Defesa da Presidência, ausente por conta da campanha eleitoral.

Como retribuir as palavras do Embaixador, e as amizades tão marcantes quanto fugazes?Por discrição, o Embaixador pouco foi mencionado nestes relatos. Não seria necessário dizer que eles somente foram possíveis por conta do excelente ambiente de trabalho proporcionado pelo Embaixador. Pelo voto de confiança. Pelo modelo de dedicação e companheirisimo, sempre de portas abertas a todos, o Embaixador. Habilidoso na diplomacia, “cartesiano” no proceder, cordial mesmo nas dificuldades, o Embaixador. Chefe e amigo, o Embaixador Jorge Kadri.

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No feriado de Carnaval, despedimo-nos das ilhas Bijagós. O pouso em Bubaque exige prévio rasante, para alertar as crianças e os animais. De lá, duas horas de lancha até Orango, sobressaltados – assustados – com a maré alta, as ondas, as duchas. No limite do arquipélago, pouco habitada, Orango é a maior das ilhas.

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O vento, selvagem, revolve o mar. Na tabanka de Etinhoque, o Régulo veste os melhores panos em seus improváveis 86 anos. Mostra-nos a escola, em cujas paredes lê-se “A escola é ser alguém na vida”, “A escola é a igualdade”. Leva-nos ao interior do mausoléu da Rainha Okinka Pampa, recordada por negociar com os portugueses no início do século passado. Meninas, crianças, aparecem e correm em nossa direção, abro os braços, mas todas procuram a Diplomatriz.

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Sob mosquiteiros, sonhamos com o dia seguinte. O amanhecer é de flamingos em um banco de areia, alçando voo com a aproximação do barco. Retornamos à costa e ingressamos no rio que leva ao Parque Nacional de Orango, em zigue-zague, rumo ao centro da ilha. Atravessamos manguezais, mato cerrado, percorremos longa trilha na savana, em meio a árvores de onde nos observam ressabiados macacos. Começam a aparecer as marcas de gigantescas pegadas na vegetação.

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Alcançamos a outra tabanka da ilha. Em respeito à tradição, pedimos ao Régulo permissão para avistar os animais. Belmiro, o guia, reitera ser baixa temporada, podemos não ver nada, mas os olhos arregalados da Diplomatriz denunciam a enorme expectativa. Faz muito, muito calor, ele pede silêncio e cuidado, “não se mexam, já volto”. Retorna com um largo sorriso, beijando os dedos, com satisfação, sussurro-grito: “venham, VENHAM VER!”

Na lagoa, os famosos hipopótamos de Orango, treze adultos, dois filhotes, observam-nos, pouco amigáveis. Mergulham, bocejam, abrem as enormes bocas em ruídos de ensurdecer. “Djubi, manga di pis-cavalu”, vem quantos hipopótamos, diz Belmiro. Os “peixes-cavalo” de Orango nadam e andam alguns quilômetros até o mar, toda noite, para que o sal tire as sanguessugas. Contemplamos, em silêncio e estado de gracias.

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A lembrança do retorno é aquela que, no futuro, mais se confundirá com o sonho. Agora na maré baixa, levitamos, deslizamos por um tapete verde-azulado, descobrindo as ilhotas que emergem por algumas horas do dia. Nos canais naturais entre Bubaque e Rubane, todos com nomes portugueses, o barco passeia, sinuoso, observado do banquete de frutos do mar que fazem os pelicanos, gaivotas e tantos outros.

Em Bissau, distúrbios de uma manifestação política causam confronto entre militares e policiais. Nessa época, começamos a embalar a mudança, a fazer as malas, a nos despedir. Reunimos no Auditório do Centro Cultural funcionários e amigos da Embaixada, dos projetos, das comunidades brasileira e guineense.

Entre discursos e agradecimentos, Claudiany avisa que a Suzana, funcionária do Centro, lerá carta dos funcionários do Centro, para a Diplomatriz. À medida que avança a leitura, ela começa a chorar, a chorar a cantos. Incha o rosto, soluça, chora descontroladamente, até que a retiro e levo-a para o toalete. Lá, com alegria, com tristeza, sente o peso do tempo, sente que naquele momento toda a experiência africana, pouco a pouco acumulada, começa a virar memória.

A Diplomatriz partiu no início de março, findada sua licença de trabalho. Levou, como nossa última lembrança, o show de Manecas Costa no Centro Cultural Francês, onde o auditório repleto cantou em coro “n` misti vivi”, “quero viver” (http://www.youtube.com/watch?v=z03Z6JBi0JU). A cada acorde, a sensação de que a saudade destes dias nunca passará. Nadar sob as centenárias mangueiras no fim de tarde. Ela, aprendendo “Bethena” ao piano. A cozinha improvisada, sinfonia de barulhinhos, de sons apaixonados em panelas e frituras, cheiros e temperos, com o “bis” na lavagem-malabarismo no chuveiro. A devoção ao Centro Cultural, a vontade de querer ajudar a todos. A dor de quem se ressente mais das injustiças contra o outro. A Diplomatriz partiu no início de março.

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A cidade passou a viver o clima das eleições. Comícios, músicas de apoio dos principais grupos, discussões sobre o uso da máquina estatal e o financiamento das campanhas. O processo é organizado com apoio da comunidade internacional e coordenado pelo PNUD. A CPLP contribui com técnicos, logística e material de votação, fornecidos por Brasil, Angola e Portugal, respectivamente.

É de esperança o domingo 19 de março de 2012. Romântico eleitoral, passeio pelas ruas e testemunho a vibração das mesas de votação nas esquinas de Bissau Velho. Os cidadãos comemoram, vaiam e fiscalizam a contagem dos votos. As projeções iniciais apontam para segundo turno, e a lisura do

sufrágio é confirmada por todas as missões de observadores – União Africana, CPLP, União Européia, Reino Unido. Cinco candidatos, entretanto, convocam coletiva de imprensa para anunciar que não aceitarão os resultados – quaisquer que sejam.

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Último dia. Desperto, mas não levanto, como se pudesse adiar o início da manhã. Das tantas vidas da carreira, sofro pela iminência da primeira morte. O tempo transcorre a contragosto, ao ritmo de conversas com hora marcada. As últimas brincadeiras com Sampaio, com João, companheiro de todas as horas. Recolho as coisas da sala, desligo o ar condicionado, fecho a janela, ao som de Basimanyana, de Vusi Mahasela. Despeço-me dos funcionários e do Embaixador, preparo-me para partir.

Não, não esqueci da Odete, nha mamé guinensi, minha mãe guineense. Na verdade, foi ela quem se despediu, bem mais cedo. Eu vinha ensaiando todo um discurso, mas Odete entrou às pressas na sala, presenteou-me com um pano de pintche do Amílcar, que decorará futuras casas. “Eduzinhu, nha codé, n` ka gosta di dispidida, ami triste tchiu, misti bai, Deus obrigadu  pa tudu, tudo de bom pra você”, disse, sem olhar. Sem dar chance para resposta, parte decidida, secando as lágrimas com as longas e finas mãos.

Agradeço aos funcionários do hotel, retenho os espaços do quarto, vazio há alguns dias. Victor e Gorka impedem que a espera pelo voo seja demorada, e convidam para uma última cerveja no Bistrô do belga – ánimo, hombre! É lá que me busca Saliu Sabi Sillá. Até o aeroporto, da sala de embarque para o avião, não há mais horas, são todos segundos. Na poltrona ao lado, última das saudáveis coincidências, senta-se Manecas Costa e conta a origem de “Nha Mamé”.

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No dia seguinte, passeio pela feira da Naschmarkt, em Viena, onde se vendem algumas peças de artesanato africano. O ar é de primavera, o ambiente é de absoluta leveza, de absoluta disparidade. Como foi possível viver tantos anos sem conhecer a África, a Guiné?  Repete-se a recordação da decolagem rumo a Lisboa, Bissau distanciando-se com suas poucas luzes, que hoje bastam para identificar desenhos, ilhas, sotaques. E a recordação daquele passo, o último passo antes de entrar no avião, quando a derradeira brisa de Bissau acariciou-me a vida.

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